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A Baía não está para peixe

O Globo, Rio, p. 12
02 de Fev de 2005

A Baía não está para peixe

Paulo Marqueiro e Tulio Brandão

A balança enferrujada de Sérgio Ferreira dá o peso da redução do pescado na Baía de Guanabara. Hoje, marca 50 quilos após um dia de trabalho na Ilha do Governador, mas dez anos atrás, antes da obra de despoluição, diz o pescador, atingia mais que o dobro. A medida de Sérgio está calibrada com a do Departamento de Biologia Marinha da UFRJ, que estima uma redução de cerca 20% por ano no estoque de camarão na baía. Os números afogam as previsões de que o pescado dobraria até o fim da primeira fase da despoluição, feitas pelo estado na década passada.
O camarão é, historicamente, uma das espécies mais importantes da baía. Num levantamento de 2002, especialistas da Uerj apuraram o total de 88 toneladas de camarão pescadas no ano. Em 2003, em estudo realizado pela UFRJ, o volume caiu para 69 toneladas - uma queda de 21,5%. O chefe do Departamento de Biologia Marinha da UFRJ, Marcelo Vianna, diz que faltam dados sobre a pesca:
- Com dados isolados, é difícil estudar o problema. O Rio precisa urgentemente de uma série histórica sobre a pesca. Mas sabemos que o volume de pescado na região continua caindo. O camarão da baía, antes vendido a quilo, tornou-se tão raro que passou a ser oferecido como isca, a R$ 0,20, para pesca esportiva.
Degradação afeta até pesca oceânica
A escassez da espécie é atribuída à degradação ambiental e à sobrepesca. Marcelo explica que os problemas da baía afetam a abundância de camarão até em regiões oceânicas. E, nesse caso, há dados científicos:
- Na costa da Região Sudeste, há 15 anos, a captura por hora de arrasto era de 20 quilos. Em 2004, o número caiu para 1,5 quilo. Como a baía é um grande criadouro, sua degradação ambiental reduz a abundância do camarão - diz Marcelo.
O crustáceo rareou entre a década de 60 e 2003, quando foi registrada uma diminuição de 83%. A abundância do passado é divulgada num dos parcos dados disponíveis na Feema, que estimou em 400 toneladas de camarão o volume pescado por ano durante a década de 60.
A Federação de Pescadores do Estado do Rio de Janeiro também tenta estimar o prejuízo, diante da inexistência de uma série histórica nos órgãos responsáveis. Faltam estudos ininterruptos no Ibama, na Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca do governo federal e na Federação das Indústrias de Pesca do Estado do Rio. O presidente da Federação dos Pescadores, José Maria Pugas, baseou-se na experiência dos colegas:
- Estimamos a queda de todo o pescado em 40% nos últimos dez anos. Infelizmente não existem estatísticas oficiais sobre a produção. A federação insiste mas o governo não faz, ninguém faz - diz ele.
Segundo Pugas, existem 21.800 pescadores cadastrados nas cinco colônias da Baía de Guanabara. Mas ele calcula que só 14.000 estejam na ativa. A maioria é de pescadores artesanais, que utilizam em geral canoas ou caíques e usam redes, linhas ou pequenos arrastos.
Nos dados divulgados pelo Ibama, a colônia de Ramos aparece com dez toneladas em 1995 e 121 toneladas em 2002, num aumento de 1.100%. Em Mauá, dez anos atrás o levantamento era de 143 toneladas e, em 2002, de 757 toneladas - 430% a mais. Não é história de pescador, mas os dados são questionados por quem vive do mar.
Enquanto os órgãos públicos estão amarrados no cais, os homens do mar sofrem para encontrar pescado. Luiz Carlos Almeida, de 48 anos, desdobra-se para ganhar a vida nos currais, armadilhas inventadas pelos índios tupis, feitas com 120 pedaços de bambu e 16 esteiras. Em frente à Ilha de Itaoca, em São Gonçalo, ele pega 70 quilos de peixe e outros tantos de lixo.
- Chega a 40 quilos só de garrafa PET, balde, saco plástico, essas coisas. Estou pensando em ganhar dinheiro com o negócio de reciclagem. O curral é um catador de lixo do mar - diz Luiz Carlos, de Magé.
No manguezal de Itambi, em Itaboraí, a natureza prova a capacidade de regeneração. O problema é a fama. A área, afetada pelo vazamento de 1,3 milhão de litros de óleo de um duto da Petrobras em 2000, mostra recuperação no balaio de catadores como José Maria da Silva, de 61 anos:
- Não será mais como nos bons tempos, mas ainda encontro caranguejo. O problema é a clientela, que sumiu desde o acidente.

Secretários se acusam sobre reservatórios
O vice-governador e secretário estadual de Meio Ambiente, Luiz Paulo Conde, culpou ontem o governo Marcello Alencar pelo não funcionamento de nove dos dez reservatórios de água construídos com recursos do programa de despoluição da baía:
- Não tenho culpa se não prenderam as pessoas que construíram essas caixas d'água. Fizeram os reservatórios, mas não havia projetos de distribuição e adução - criticou Conde, acrescentando que as unidades foram inauguradas até 1998, durante o governo Marcello Alencar.
Antônio Manuel Rato, secretário de Obras de Marcello e responsável na época pelo programa de despoluição, devolveu na mesma moeda:
- Quem deveria ir para a cadeia é quem não ligou o sistema depois. Esqueceram os reservatórios e não fizeram as ligações. É um crime contra a população da Baixada.
Como mostrou reportagem do GLOBO ontem, vizinhos do reservatório Parque Fluminense, em Duque de Caxias, bebem água da chuva, porque a caixa d'água está vazia há pelo menos sete anos.

Tainha, a rainha do esgoto
A tainha não é apenas um dos peixes mais encontrados na Baía de Guanabara. Para os pescadores, simboliza a resistência à poluição que tomou conta das águas do estuário. De sua casa simples com vista para o mar em Tubiacanga, na Ilha do Governador, Sérgio Ferreira conta histórias sobre a espécie de que até colegas duvidam.
- A tainha é a rainha do esgoto. Já vi o peixe nadando em lodo puro, naquela água espessa. Às vezes até cheira mal - diz ele, que de almoço pede normalmente à mulher, Margarida, frango assado. - É questão de gosto, mas também como peixe.
A resistência da tainha não é história de pescador. Rodolfo Paranhos, chefe do Laboratório de Hidrologia da UFRJ, explica que a matéria orgânica do esgoto serve de alimento para a espécie. Por isso, o peixe é encontrado com facilidade em áreas cheias de lodo.
Segundo o Departamento de Biologia Marinha da UFRJ, apesar da degradação, há na baía cerca de 200 espécies de peixes. Alguns peixes, no entanto, estão escassos, devido ao lodo, ao assoreamento e à escassez de oxigênio em alguns pontos do estuário.

O Globo, 02/02/2005, Rio, p. 12

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