CB, Brasil, p. 16
19 de Ago de 2007
Aventura no coração do Brasil
Casal inglês percorre os 2,7 mil quilômetros do Rio Xingu, visita 48 aldeias entre o Mato Grosso e o Pará e constata que agronegócio e barragens se transformaram nas grandes ameaças às etnias da região
Paloma Oliveto
Da equipe do Correio
Seis de abril de 2007, uma sexta-feira ensolarada no Rio Culuene. Enquanto o barqueiro faz a barba, o escritor inglês Patrick Cunningham registra em seu diário de bordo: "Finalmente partimos de Canarana no dia 3, um atraso de uma semana inteira no nosso planejamento. Fora do Parque, vimos um pouco de desmatamento próximo ao rio.
De repente, o motorista do barco parou e apontou. As árvores estavam balançando, nós vimos algo preto, abraçando as árvores. Era um macaco-aranha, lentamente observando nosso progresso". Patrick e a mulher, a fotógrafa Sue, haviam embarcado três dias antes em uma aventura que só terminaria em 31 de julho: atravessar, de ponta a ponta, os 2,7 mil quilômetros do Rio Xingu, desde a nascente, no Mato Grosso, até Porto de Moz, no Pará.
A expedição, batizada "Coração do Brasil", começou bem antes de o casal inglês enfrentar a bravura do Rio Xingu, de difícil navegação, margeado por rochedos. No ano passado, o projeto recebeu o prêmio Neville Shulman, da Royal Geographical Society de Londres, no valor de 10 mil libras. O objetivo de Patrick e Sue era avaliar as condições de vida - incluindo saúde, educação, cultura e acesso à terra - dos índios que habitam o Parque Nacional do Xingu e as cidades margeadas pelo rio. A reserva já havia sido visitada por Sue muitas outras vezes. A fotógrafa, que há 20 anos registra cenas indígenas, se considera "brasileira de coração".
Foi no Brasil que Sue passou a infância e a adolescência. É dela o maior acervo fotográfico do país na Europa. O marido, o geólogo e escritor Patrick, pisou em uma aldeia pela primeira vez em 1985 e, desde então, abraçou a causa. "Não é uma causa indígena. É uma causa de amigos", define Sue, que se recorda de um episódio da adolescência para explicar sua preocupação com os índios. Aos 15 anos, ela foi com a família ao Paraguai, onde conheceu uma aldeia guarani. Lá, uma índia ofereceu a Sue o próprio filho. "Ela disse que eu teria mais condições de criá-lo. Aquilo me tocou profundamente", diz.
Hostilidade e gargalhadas
Com autorização da Fundação Nacional do Índio (Funai), o casal inglês visitou 48 aldeias pertencentes a 18 etnias. Dessas, 14 vivem dentro do Parque Nacional do Xingu. Em cada local que chegavam, contam que eram recebidos com entusiasmo. Os índios queriam ouvir e ser ouvidos.
Hostilidade só mesmo de uma caiamurá, moradora da reserva. Ao vê-los desembarcando, a mulher começou a gritar, em seu idioma, que fossem embora dali. Estavam no meio do Parque, uma área considerada sagrada pelos moradores. Lá teria nascido o primeiro índio da humanidade. Na casa do cacique, porém, a índia selou a paz e ainda gargalhou com Sue e Patrick.
A grande preocupação do casal é com a manutenção da cultura indígena. "Eles passam por um momento perigoso de transição cultural. A entrada do dinheiro, do materialismo, vai contra o coletivismo. É difícil prever o que irá acontecer", reflete Patrick. "Especialmente os mais jovens assistem às novelas na televisão e vêem péssimos exemplos: todo mundo roubando, fazendo coisas erradas", diz.
Ao mesmo tempo, o casal presenciou cenas que mostram ser possível manter a cultura indígena paralela à do "homem branco". "Eles se vêem em DVDs, em programas da televisão, e ficam encantados", relata Patrick.
Para ele, o fato de indígenas freqüentarem universidades - atualmente são 2 mil, em todo o país - pode contribuir para a manutenção cultural. "Esses índios percebem o lado negativo da nossa cultura e, ao retornar às aldeias, podem aconselhar os outros", acredita.
Além da questão cultural, Sue lembra que uma das grandes ameaças aos índios que vivem às margens do Rio Xingu é a invasão de madeireiras e garimpos ilegais. Diversas vezes eles flagraram caminhões transportando troncos de árvores e também se depararam com um equipamento de prospecção dentro do rio.
Soja
A soja, aponta o casal, é a grande inimiga dos indígenas habitantes da região. Em volta do Parque Nacional, há clareiras na floresta e, não raramente, fazendeiros armados entram nas próprias reservas. A situação é mais grave nas áreas das nascentes dos afluentes do Rio Xingu, que não estão protegidas, embora pertençam, tradicionalmente, aos índios.
Sue e Patrick presenciaram o desespero das etnias ameaçadas por projetos de construção de represas. Na aldeia do povo Kalapapo, no Mato Grosso, os índios não podem mais beber água do Rio Tanguro. Uma barragem construída no local se rompeu e lançou agrotóxicos e sedimentos nas águas. Agora, os indígenas do Xingu temem que outras seis represas que devem ser construídas para instalação de usinas hidrelétricas prejudiquem os afluentes do rio. A mais polêmica, Paranatinga II, paralisada por enquanto por ação judicial, fica no Rio Culene, considerado sagrado pelos índios.
A expedição "Coração do Brasil", porém, não revelou somente as dificuldades sofridas pelos indígenas. Ao mesmo tempo em que encontrou uma enfermeira que se recusava a sair do posto de saúde por medo de picada de mosquito, Sue conheceu profissionais de saúde extremamente dedicados, que, mesmo com os salários atrasados, continuavam o trabalho de assistência. Muitos respeitavam a cultura dos pajés e os consultavam antes de medicar os doentes. Outro ponto positivo, segundo o casal, é que todas as aldeias do Parque Nacional do Xingu têm poços artesianos, o que evita a contaminação dos índios. Em algumas, placas solares ajudam no bombeamento da água.
A aventura dos Cunningham não terminou. Eles estão em busca de uma editora que aceite publicar as histórias e fotos da expedição em inglês e português. Na Inglaterra, onde é crescente o interesse pela cultura indígena, Sue e Patrick farão exposições e palestras em escolas e universidades. E avisam: "A gente volta em breve".
Na rede
Quem se interessar em acompanhar todos os dias da expedição pelos 2,7 mil quilômetros do Rio Xingu pode acessar o site www.bbc.co.uk/portuguese/forum. Lá está o diário virtual escrito por Patrick Cunningham e ilustrado por sua mulher, Sue
CB, 19/08/2007, Brasil, p. 16
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