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Autor de PL que tira proteção integral da Serra do Divisor diz que quem muda o clima não é o homem é Deus

G1 - https://g1.globo.com/
Autor: Por Iryá Rodrigues, G1 AC - Rio Branco
04 de fev de 2020

Em entrevista à rádio CBN Amazônia Rio Branco, o senador Márcio Bittar (MDB) criticou cientistas que acreditam que o homem é quem aquece o planeta.

Autor do projeto de lei que tira a proteção integral da Serra do Divisor no Vale do Juruá, no interior do Acre, o senador Márcio Bittar (MDB) fez um pronunciamento polêmico em entrevista ao programa Audiência Pública da rádio CBN Amazônia Rio Branco desta terça-feira (4).

Em justificativa ao PL, o senador falou de outros países desenvolvidos que utilizam seus recursos naturais em crítica às leis ambientais brasileiras e afirmou que quem muda o clima não é o homem e sim Deus.

"Da próxima vez, chamem cientistas que contestam a visão dessa turma que acha que é o homem que aquece o planeta. Quem muda o clima do planeta é Deus. Os computadores da ONU e da Nasa não conseguem prever o que vai acontecer cinco meses para frente", disparou o senador durante o debate.

Além do senador, que participou por telefone, estiveram no programa o ambientalista e secretário-geral da ONG SOS Amazônia, Miguel Scarcello, e o biólogo da divisão de áreas naturais protegidas e biodiversidade da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), Ricardo Plácido.

A deputada federal Mara Rocha (PSDB), que apresentou o PL na Câmara dos Deputados, foi convidada para participar, chegou a confirmar presença, mas, nesta terça (4), não foi localizada.

Desde que foi divulgado, o PL que quer modificar a categoria da unidade de conservação Parque Nacional da Serra do Divisor e alterar os limites da Reserva Extrativista Chico Mendes (Resex) tem gerado divergências.

Um abaixo-assinado eletrônico, que pede o arquivamento do projeto de lei, foi criado pelo engenheiro florestal Lucas Matos e já tem mais de 23,6 mil assinaturas.

"Não é à toa que a região Norte é a região mais pobre do Brasil, que tem maior índice de criminalidade e incidência de homicídios, a que tem menos ligação de esgoto tratado, apesar de morarmos em cima do tão famoso tesouro da humanidade. Então, o que se trata e que venho dizendo há anos é que se nós não realizarmos algumas obras de infraestrutura, não flexibilizarmos algumas legislações ambientais, nós eternizaremos a miséria", afirmou o senador.

Formação montanhosa única no Acre
Durante o debate, o ambientalista Miguel Scarcello falou da história do Parque da Serra do Divisor e da importância da sua preservação. No local se concentra uma formação montanhosa que é única no Acre, além de grande riqueza de espécies vegetais e animais.

"O Parque da Serra do Divisor é uma unidade de conservação de proteção integral e essa categoria se destina à preservação da natureza. É um ambiente que não permite a presença humana no sentido de fazer exploração, extração de recursos naturais e ocupação territorial. Permite, sim, visitação pública, com atividades de ecoturismo, pesquisa, educação ambiental", explica.

O parque representa para o Acre uma ocupação de aproximadamente 5% do estado. Para o ambientalista, a porcentagem representa um número baixo levando em consideração a grande diversidade biológica que ela protege.

"Tem essa particularidade, essa riqueza que não se encontra em outro lugar no Acre e nem nas vizinhanças. O território do parque concentra ainda as nascentes dos principais afluentes do Rio Juruá no estado do Acre. Então, ele protege as cabeceiras desses rios e isso é super importante para a conservação de recursos hídricos e acaba favorecendo uma oferta de água contínua para a população", disse o ambientalista.

Quarto maior parque nacional do país
A Serra do Divisor é o 4o maior Parque Nacional do Brasil, segundo o biólogo Ricardo Plácido. O local tem mais de 843 mil hectares e ocupa cinco municípios acreanos, entre eles, Mâncio Lima (31,8%), Marechal Thaumaturgo (4,8%), Cruzeiro do Sul (23,1%), Rodrigues Alves (13,3%), Porto Walter (27%).

"Possui essa peculiaridade que as regiões serranas. E uma característica biológica do local é que na elaboração do plano de manejo, foram descobertas espécies novas para a ciência. Aquelas regiões do setor norte, onde ficam as cachoeiras, precisam de mais estudos. Além disso, o Rio Juruá é um destaque em termos de diversidade biológica para a ciência", falou Plácido.

'Conversa pra boi dormir'
Ao ouvir os ambientalistas, que são contra o projeto de lei, e ser questionado sobre os pontos do PL, o senador acabou se alterando e, ao final, se negou a falar mais detalhes da proposta.

"Me perdoe a franqueza, mas a sua conversa é uma conversa para boi dormir. Eu estou cansado de ouvir pessoas como você, que são financiadas por ONG e ficam com essa conversa fiada. Agora descobriram uma caverna, nos 800 mil hectares da Serra do Divisor, e quer dizer que amanhã vai ter uma fila de europeu, francês e alemão comprando ingresso para assistir essa caverna? Larga de falar besteira rapaz", disse Bittar.

O senador ainda completou dizendo que os ambientalistas são contra a construção de estradas e ramais dentro da Amazônia e que os verdadeiros problemas ambientais estão dentro das cidades.

"Vocês não deram conta de estudar o problema da cheia do Rio Acre, de plantar árvore em Rio Branco. As pessoas que moram na floresta amazônica estão presas nesses discurso, elas passam fome. Isso não é qualidade de vida. Enquanto a gente está conversando sobre isso, as pessoas que estão na floresta amazônica, estão com seus filhos andando quatro ou cinco horas a pé para chegar na escola. Esse é um tema que mexe comigo, acho um absurdo, tenho vergonha de ser brasileiro quando esse é o tema", complementou.

Entenda o projeto
Com a aprovação do projeto, o Parque Nacional da Serra do Divisor, criado há mais de 30 anos, passaria a ser classificado e denominado como Área de Proteção Ambiental (APA) da Serra do Divisor. A medida tira a proteção integração da região.

"A classificação da unidade de conservação como parque nacional, do grupo de proteção integral, impede qualquer tipo de exploração econômica das riquezas ali presentes. Entendemos que isso vai de encontro aos interesses e necessidades do povo acreano. Reclassificar a unidade como área de proteção ambiental propiciará a junção de dois interesses importantes: a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento econômico da região", justifica o PL.

No texto, a deputada diz ainda que a reclassificação da unidade de conservação vai ser importante para "alavancar" a construção do trecho da BR-364 que vai até o Peru.

No caso da área da Resex, localizada nos municípios de Assis Brasil, Brasileia, Capixaba, Epitaciolândia, Rio Branco e Sena Madureira, seria reduzida em quase 8 mil hectares. A área, segundo a deputada, é habitada por famílias de agricultores rurais que já moravam no local antes da criação da reserva, em 1990, e vivem do cultivo de pequenas plantações e criação de rebanhos de gado.

'Progresso'
Diante das críticas após o teor do projeto ser divulgado, Mara Rocha chegou a usar o seu perfil oficial no Facebook, onde gravou um vídeo defendendo a aprovação da mudança, dizendo que a intenção, com isso, é fomentar o turismo no Vale do Juruá.

Além disso, alega que a nova medida é um progresso ao estado e destaca que as críticas feitas à proposta são de pessoas, segundo ela, contra o "governo Bolsonaro". Disse ainda que a autoria do texto é do senador Márcio Bittar (MDB) e que ela pediu para defender na Câmara federal.

"A aprovação deste projeto vai ser de extrema importância para o desenvolvimento do nosso estado e para a região do Vale do Juruá. O que muda é que a Serra do Divisor, ela poderá ter ocupação humana. Nós poderemos usar, com a aprovação desse projeto, os recursos naturais de uma forma sustentável. Nós poderemos também ter construções naquela localidade desde que obedeçam os estudos de impacto ambiental", garantiu.

Colaborou a repórter Ana Luíza de Lima, da rádio CBN Amazônia.

https://g1.globo.com/ac/acre/noticia/2020/02/04/autor-de-pl-que-tira-pr…

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