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Autor: Luciana Cavalcante
15 de Mar de 2026
"O camarão sumiu." A queixa da pescadora Andrea dos Anjos Pimentel, 48, do Acará, município da região metropolitana de Belém, é a mesma de outros moradores de comunidades ribeirinhas do entorno da capital paraense. Elas têm sofrido com o turismo predatório na região da ilha do Combu, uma herança da COP30.
"Nem adianta colocar o matapi", conta ela, mencionando a armadilha usada para pegar o camarão.
O crescimento de visitantes desde a conferência da ONU (Organização das Nações Unidas) sobre mudanças climáticas, realizada em novembro de 2025, fez com que barcos, lanchas e motos aquáticas passassem a transitar diariamente em alta velocidade, a qualquer hora.
O destino principal, o Combu, fica em frente à cidade, a cerca de 15 minutos de barco. Os turistas geralmente atravessam para conhecer um dos mais de 30 restaurantes da ilha.
A Marinha, responsável pela fiscalização, diz vistoriar a região.
Não há contabilização do número de visitantes do local, mas trabalhadores do setor de turismo afirmam que o movimento, que aumentou na região durante a convenção climática, se manteve.
O turismo cresceu muito na ilha do Combu, não só na COP, como depois dela. Antes era só final de semana e feriado, mas hoje também durante a semana. Nos finais de semana, as viagens dobraram", conta o barqueiro Marcos Cardoso, que trabalha diariamente no transporte de passageiros tanto para a ilha do Combu quanto para o Acará.
Com o crescimento no fluxo de embarcações, também vieram os impactos ambientais.
"Os barcos passam em alta velocidade a qualquer hora, e isso espanta os camarões. A gente coloca o matapi e não consegue nem meio quilo por semana. Tem muita gente que está passando dificuldade porque dependia da pesca", diz Andrea.
A passagem de embarcações em alta velocidade afetou também um dos eventos tradicionais da região, realizado há mais de duas décadas. No ano passado, a organização do Festival do Camarão da Comunidade Santo Antônio, localizada no Furo do Piriquitaquara, na ilha do Combu, precisou comprar o ingrediente para que a celebração pudesse acontecer.
"O camarão não deu nem até metade do festival. Tivemos que comprar mais de 60 kg de um fornecedor de Barcarena [município vizinho]", lamenta o organizador do evento, Paulo Ronaldo Costa Santos. Em anos anteriores, o pescador conta que chegou a comprar mais de cem quilos de quatro pescadores da própria ilha.
Na comunidade Guajará-Miri, território quilombola do Acará, o cenário não é diferente. A 15 minutos de barco da capital paraense, o lugar tem acesso por terra, mas o meio de transporte mais utilizado é pelas águas. O rio também contribui com a renda local.
Mais de 600 pessoas atuam na pesca artesanal, a maior parte para consumo próprio. O que sobrava antes era vendido -agora não há o suficiente nem para a subsistência.
"Os barcos passam em alta velocidade e tem muita força de marola, isso desmancha o matapi e a isca. O peixe se esconde. Antes, a gente sabia que ia pegar o almoço ou o jantar, mas hoje não sabe", reclama o pescador Joelson Conceição da Cunha, 48.
Ainda segundo Cunha, a imprudência dos pilotos já causou até acidentes na região.
"No ano passado, um amigo estava indo levar o neto para uma consulta em Belém, em uma rabeta [pequena embarcação a motor muito usada na Amazônia], e foi atingido por um barco de turismo. Quase perdeu a vida", conta.
A reportagem da Folha presenciou embarcações trafegando em alta velocidade no furo (canal) do Paciência, no Combu, durante a COP30 e neste mês de março. Uma delas, inclusive, passou durante a entrevista com Cunha.
Fauna prejudicada
James Tony Lee, professor da Faculdade de Oceanografia e coordenador do Aquário Amazônico da UFPA (Universidade Federal do Pará), explica que a navegação nos rios causa prejuízos em quase toda a fauna por vários fatores, que vão desde o ruído até a poluição das águas.
"A passagem do barco com grande frequência produz uma ondulação, e isso provoca erosão nas margens do rio, além do fato de os barcos a motor gerarem ruído e poluentes. Quanto mais embarcações, maior o impacto", resume.
Lee também afirma que o comportamento dos ocupantes dos barcos pode gerar outros prejuízos para o ecossistema aquático.
"Junto com as embarcações você tem o alto-falante, o som extremamente alto, as pessoas fazendo barulho, bebendo, tem esgoto não tratado e uma série de outras atividades associadas ao turismo", conclui.
Excesso de velocidade é passível de multa
A CPAOR (Capitania dos Portos da Amazônia Oriental) diz que fiscaliza o cumprimento das normas de segurança da navegação em 116 municípios de sua abrangência, incluindo rios e furos das ilhas próximas a Belém, como Combu e Acará.
Pelas regras, a velocidade máxima em canais da região, como o Furo do Piriquitaquara, Furo do Maguari, Furo do Arrozal e Carnapijó, onde a navegação ocorre próxima às margens e a comunidades, é de aproximadamente 10 km/h.
O excesso de velocidade pode resultar em multa e, dependendo da gravidade, na retenção da embarcação.
A navegação de forma perigosa, que coloca em risco a vida ou o patrimônio, é também infração passível de multa e de recolhimento do barco.
Denúncias de irregularidades podem ser comunicadas pelo Disque Emergências Marítimas e Fluviais, 185, e pelos números da CPAOR, (91) 3218-3950 e (91) 98134-3000 (WhatsApp).
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