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Autor: Ana Cláudio Leocádio
07 de Abr de 2026
07 de abril de 2026
BRASÍLIA (DF) - Cerca de sete mil indígenas realizaram, nesta terça-feira, 7, a primeira marcha do Acampamento Terra Livre (ATL) 2026, em Brasília, para reivindicar demarcação de territórios e garantia de direitos, entre outras reivindicações. O ato ocorre um dia antes de o Supremo Tribunal Federal (STF) retomar o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI 6553) contra a Ferrogrão, projeto de infraestrutura do Governo Federal para escoar a produção de grãos do Centro-Oeste até os rios da região Norte, que encontra resistência dos movimentos indígenas. O julgamento foi suspenso desde o pedido de vista do ministro Flávio Dino, em outubro de 2025, e será retomado nesta quarta-feira, 8.
Na próxima quinta-feira, 9, será realizada uma segunda marcha na área central da capital. Criado em 2004 e considerado a maior mobilização indígena da América Latina, o ATL reúne representantes de mais de 200 povos todos os anos em Brasília para mostrar força e apresentar suas pautas prioritárias na busca por soluções. A marcha intitulada "Congresso inimigo dos povos: Nosso futuro não está à venda", terminou em frente aos prédios da Câmara e do Senado, onde mais cedo foi realizada uma sessão solene em homenagem ao movimento indígena.
A demarcação de terras, que eles consideram tímida no Governo Lula, a luta contra o garimpo ilegal e a invasão de seus territórios por madeireiros e fazendeiros, com aumento da violência a cada ano, são algumas das preocupações apresentadas pelas lideranças durante caminhada.
Durante a marcha, a líder indígena Alessandra Korap Munduruku, que representa a região do Baixo Tapajós, disse que o movimento continua com muitas frentes de reivindicação, depois que a mobilização em Santarém, em fevereiro deste ano, conseguiu que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) revogasse o Decreto 12.600/2025, que inseria as hidrovias do Tapajós, Madeira e Tocantins no plano de concessões Públicas. Eles também conseguiram a paralisação de trabalhos de dragagem no rio.
"A gente ainda está correndo risco. Ou seja, amanhã é o julgamento da Ferrogrão, onde vai passar toneladas e toneladas de soja pelo rio. A ameaça continua. Foi uma vitória mostrando que o Tapajós está muito forte e a gente vai continuar lutando com os povos indígenas que existem lá. A gente vai lutar para defender o nosso rio", disse Alessandra.
Para a líder Munduruku, nos demais rios que também seguem ameaçados com projetos de dragagem e de privatização, como Madeira e Tocantins, as pessoas que dependem desses mananciais, muitas vezes, são silenciadas e até cooptadas por quem deveria fazer a proteção. "Eles estão tentando silenciar para não deixar falar, cooptar os que são contra os grandes empreendimentos. Eu conheço muitos que estão na linha de frente também, mas ameaçados", relatou.
A ação contra a Ferrogrão foi protocolada no STF pelo partido Rede Sustentabilidade, em 2020, e questiona a Lei 13.452/2017, originada na Medida Provisória (MP 758/2016), que alterou os limites do Parque Nacional do Jamanxim, no Pará. A Rede defende que uma unidade de conservação só pode ter seus limites reduzidos por meio de lei em sentido estrito, e não por MP, conforme exige o Artigo 225 da Constituição e o entendimento anterior do próprio STF. Antes de ser suspenso por pedido de vista, o placar estava 2×0 pela continuidade do projeto.
O relator da ação é o ministro Alexandre de Moraes. Ele e o ex-ministro Luís Roberto Barroso votaram pela constitucionalidade da lei, argumentando que a obra é estratégica e que a área desafetada do parque é mínima em relação ao benefício logístico e à redução da emissão de carbono (troca de caminhões por trens).
Além da Ferrogrão, outro projeto apontado como grande ameaça é o da mineradora Belo Sun, na Volta Grande do Xingu, que levou à ocupação da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), em Altamira (PA).
O membro do Conselho Distrital de Saúde Indígena (Condisi) dos Yanomami, Edgar Kepropeteri Dias Yanomami, afirmou que viajou a Brasília para denunciar a crise sanitária persistente nos 37 polos de saúde nos Estados do Amazonas e Roraima. Ele destacou que, apesar da disponibilidade de verbas, a má gestão administrativa impede que medicamentos e profissionais qualificados cheguem aos polos de atendimento. Em toda a região, informou, são mais de 33 mil indígenas Yanomami.
Kepropeteri aponta, ainda, falhas graves na logística e na fiscalização técnica, o que resulta em um cenário alarmante de doenças evitáveis, como a coqueluche e a pneumonia. Segundo o conselheiro, o atendimento é urgente porque somente neste ano, dez crianças Yanomami já morreram de coqueluche no território, uma doença que se previne com vacina.
Até o dia 13, lideranças Yanomami irão, junto com Kepropeteri, reunir-se com a nova secretária de Saúde Indígena (Sesai), Lucinha Tremembé, para levar as demandas do território. "Vamos levar de novo essas demandas, para a gente ver essa resposta imediata e para poder levar aos parentes, lideranças, conselheiros, que são os tradicionais da aldeia, a nossa resposta", afirmou.
Ao final da caminhada, em frente ao Congresso Nacional, um incidente com a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) e os Indígenas do Tapajós, que atearam fogo em crânios de isopor e tambores vazios de diesel, por pouco não termina em confusão.
Indígenas da região do Rio Tapajós fizeram um protesto tocando fogo nos elementos representativos que levaram durante a marcha para simbolizar, segundo eles, a destruição de todo o mal que causam aos seus territórios.
Conforme a PMDF, os Bombeiros pediram aos policiais proteção para chegar até o local e analisar a situação do fogo e alguns participantes da marcha não concordaram e avançaram contra as forças de segurança. Depois de negociação, os bombeiros conseguiram apagar as últimas chamas do material. Segundo o comandante da operação na área, Major Da Silva, é proibido atear fogo naquela área da Esplanada dos Ministérios e o ato não havia sido autorizado.
Um dos coordenadores da segurança do ATL, Ricardo de Campos, afirmou que tudo foi resolvido de forma pacífica e que os indígenas não usaram de força para impedir o trabalho dos policiais. "Que fique claro, nenhum movimento indígena se posicionou contra a polícia do DF, respeitamos todos os acordos com o Governo do Distrito Federal (GDF)", justificou.
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