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Atenção aos mais frágeis

O Globo, Sociedade, p. 23
06 de Jul de 2015

Atenção aos mais frágeis

QUITO - Ao aterrissar este domingo no Aeroporto Internacional de Mariscal Sucre, a 20 quilômetros da capital equatoriana, o Papa Francisco deu a largada a um périplo para dar uma nova cara à Igreja Católica na América do Sul. Quito é o primeiro passo de uma visita que também inclui Bolívia e Paraguai. Em comum, os três países testemunham a evasão dos fiéis, altos índices de desmatamento e de desigualdade social.
O argentino Francisco, que chama de "querido" o seu continente de origem, quer entranhar-se por cantos desconhecidos pela Santa Sé na América do Sul. O Equador, por exemplo, só havia recebido uma visita papal até hoje - João Paulo II passou por lá em 1985. À época, 94% da população do país declarava-se católica. Hoje, 80% ostentam a religião.
A cúpula da Igreja em Quito admite a perda de fiéis para os templos protestantes e reza para que o "efeito Francisco", já conhecido mundialmente como Papa dos pobres, atraia novamente milhares de indígenas andinos, o público mais decepcionado com a falta de atenção das lideranças católicas.
- Esperamos uma mensagem forte do Papa para que ponhamos realmente o movimento (católico) até as periferias, os fragilizados e os mais pobres - revelou às agências internacionais o sacerdote David de La Torre, porta-voz da Conferência Episcopal do Equador.
O primeiro Pontífice vindo de um país em desenvolvimento declara-se pronto para a missão. Ao contrário de seus antecessores, que monopolizavam a agenda com missas campais e recepções com chefes de Estado, Francisco pretende manter as sandálias jesuítas na rua. A visita à América do Sul inclui encontros com representantes da sociedade civil, visitas a um hospital pediátrico e à capela de um bairro pobre.
E Francisco sabe onde pisa. No Equador, a taxa de pobreza absoluta caiu de 40% para 20% entre 1999 e 2010. No entanto, mesmo com as políticas de inclusão social, 12% das famílias ainda controlam 90% de todas as empresas do país.
- Dou graças a Deus por estar de volta à América Latina e a todos que abriram as portas do coração - disse, ainda no aeroporto. - Podemos encontrar no Evangelho as chaves que nos permitem enfrentar os desafios atuais, valorizando as diferenças, fomentando o diálogo e a participação sem exclusões, consolidando e garantindo um futuro melhor para todos, prestando atenção especial aos nossos irmãos mais frágeis e às minorias mais vulneráveis, que sem dúvida estão em toda a América Latina.
O Papa ofereceu ao presidente do país, Rafael Correa, "o compromisso e a colaboração da Igreja, para pôr o povo equatoriano em pé com dignidade". De acordo com teólogos que acompanham os passos de Francisco, a mensagem parece emoldurada para a periferia de todas as cidades por onde passará esta semana, onde se acumulam os indígenas, fazendeiros falidos e jovens sem emprego, o público mais sujeito a envolver-se em crimes como o tráfico sexual.
- Estes são países esquecidos - afirmou, em entrevista à rede CNN, o reverendo jesuíta argentino Gustavo Morello. - Ninguém sabe o que está acontecendo lá.
BIODIVERSIDADE EM DESTAQUE
Estima-se que três milhões de pessoas ouvirão o Papa na missas campais de Guayaquil, hoje, e Quito, amanhã. Os dois dias foram declarados feriados. Na quarta-feira, o Pontífice parte para La Paz.
Francisco fez as malas três semanas depois de divulgar a encíclica "Laudato Si", dedicada exclusivamente ao meio ambiente. Nela, exorta governantes a ouvir o "choro da Terra e o choro dos pobres", que, segundo ele, são os mais afetados pelas mudanças climáticas.
O Papa sublinhará o discurso verde no Equador, país de rica biodiversidade, dividida entre a floresta amazônica, a Cordilheira dos Andes e as Ilhas Galápagos. Sua fala pode ser encarada como um puxão de orelhas em Correa, que prometeu abrir um trecho anteriormente protegido da Amazônia para a exploração de petróleo, para irritação de ambientalistas e indígenas.
A tensão política, no entanto, não está restrita ao campo. Nas últimas semanas, milhares de pessoas da classe média ocuparam as ruas das maiores cidades do país, em protestos contra o aumento dos impostos e a novas regulações que afetam o sistema de saúde. O governo também instalou outdoors com declarações do Papa, o que os críticos viram como uma tentativa de sugerir que Francisco endossa as medidas presidenciais.

O Globo, 06/07/2015, Sociedade, p. 23

http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/papa-francisco-pede-dialogo-…

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