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Associações de moradores ajudam a salvar floresta

OESP, Nacional, p. A15
30 de Abr de 2006

Associações de moradores ajudam a salvar floresta
Projetos voltados à população, como criação de abelhas em Manacapuru, levam ao desenvolvimento sustentável

Roldão Arruda

Um dos desafios dos governos da região amazônica é encontrar projetos de desenvolvimento econômico que permitam às pequenas comunidades do interior sobreviver e melhorar sua qualidade de vida sem destruir a floresta. Sabe-se que sem o envolvimento dessa população, que soma quase 21 milhões, dificilmente o equilíbrio ambiental será mantido.
Na pequena comunidade conhecida como Livramento, às margens do Lago Paru, no município de Manacapuru, a 59 quilômetros de Manaus, os moradores estão prestes a dar a largada numa experiência que no futuro poderá garantir-lhes o nome de microempresários. Estão criando abelhas jandaíra - e tudo se encaminha para que, até o final do ano, as primeiras remessas de mel estejam nas prateleiras de supermercados do sul do País.
A jandaíra, parecida com a abelha europa, mas sem ferrão, é comum na região. Seu Antonio Soares Santos, que tem 56 anos e é dono de uma das poucas terras tituladas da comunidade, conta que, nas derrubadas para fazer roçado, sempre se encontram colméias em troncos ocos. "A gente guarda o lugar, volta à noite, quando elas estão em casa, tora o tronco e escorre o mel", diz.
Costumam levar o tronco para perto de casa, onde as abelhas continuam produzindo o mel, cujos efeitos medicinais são sempre lembrados. "É bom para a tosse", diz Maria Gomes da Silva, vizinha de seu João.
Há dois anos os moradores de Livramento e de comunidades vizinhas começaram a receber estímulos para se unir em associações e replicar as colméias, criando apiários comunitários. O apiário da Livramento, que reúne 7 famílias, já conta com 50 caixas, obtidas a partir de cinco troncos que tinham.
Eles são orientados por técnicos em meliponicultura e em conservação ambiental, num programa que une o governo do Amazonas, a Petrobrás e a prefeitura local. Manacapuru é uma das oito cidades na rota do Coari-Manaus - uma trilha de 383 quilômetros de tubos que está sendo fincada na floresta para levar a Manaus o gás da reserva da Petrobrás em Urucum.
Para compensar o impacto da obra, a estatal está financiando programas de desenvolvimento das comunidades. Eles vão da melhoria das escolas da região à orientação para manejo de jacarés, peixes e abelhas.
Interessados em boa produção, os moradores estão observando melhor as abelhas. "Às 5 horas da manhã é aquele estrondo na colméia, todas elas saindo para trabalhar", diz seu Antonio. "Gostam muito da flor da goiabeira e com elas não tem essa de sestar ao meio-dia não senhor: trabalham o dia inteiro."
Uma das principais preocupações deles agora é com a energia elétrica, que vão utilizar no processamento do mel. Na comunidade Rei Davi, um pouco mais adiante, nas margens do mesmo Paru, com um conjunto de 40 casas, os moradores contam que receberam a visita dos técnicos do programa federal Luz para Todos em julho do ano passado.
Foi um alvoroço quando viram a instalação dos postes, fios e as caixas de força. "Até comprei uma freezer", diz Alcimar Souza, o líder comunitário que coordena o apiário local. Um vizinho dele, Manoel Silva, mais conhecido por Lourenço, porque nasceu no dia São Lourenço, também se entusiasmou e comprou uma TV.
Até agora, porém, nenhum equipamento saiu da caixa. Misteriosamente, a energia elétrica parou a três quilômetros dali e os postes e os fios estão prestes a comemorar aniversário sem função nenhuma. "Se o programa diz Luz para Todos, porque não chega aqui?", pergunta o presidente da comunidade, Antonio Fernandes. "Nós não somos todos?"

OESP, 30/04/2006, Nacional, p. A15

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