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Assentados lucram com exportações

JB, Economia & Negócios, p. A20-A21
12 de Set de 2004

Assentados lucram com exportações
Cultivos alternativos, como de produtos orgânicos, ajudam na conquista de mercados no exterior e aumentam renda

Edna Simão

Os agricultores assentados pela reforma agrária estão ganhando o mercado internacional e contribuindo cada vez mais para os consecutivos recordes das exportações brasileiras. Organizados em associações, os trabalhadores estão vendendo café orgânico, palmito, mamão papaya, mel e até larvas de bicho-da-seda, principalmente para os mercados europeu e americano.
A tendência é de que as exportações dos assentamentos, que estão espalhados de Norte a Sul do país, aumentem ainda mais nos próximos anos devido à opção de muitos países por alimentos orgânicos. Alguns dos bons exemplos estão nos Estados de Rondônia, Piauí, Rio Grande do Norte e Mato Grosso do Sul. No assentamento de Palmares, Rondônia, 250 famílias fazem parte da Associação de Produtores Alternativos (APA), responsável pelos contratos de comercialização. Há quatro anos, o assentado Antônio Abílio Siqueira trabalha com agricultura sem agrotóxico em um pedaço de terra de 30 hectares.
- Estou produzindo o maior número de cultivos para não ficar nunca sem nenhuma fonte de renda. Depois de anos de luta, hoje vivo feliz - afirmou Siqueira, que recebeu recentemente visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O assentamento de Palmares fechou negócio com empresários franceses para a venda de 300 sacas de café orgânico este ano. O importador pagou R$ 438 pela unidade de 60 quilos (quatro vezes mais que a média do mercado interno).
- Esse contrato é nosso primeiro mercado aberto no exterior. Quando começamos, em 1992, achavam que éramos malucos - afirmou a presidente da APA, Marli Assis de Andrade.
Outro produto exportado por Rondônia é o palmito de pupunha. As 250 famílias associadas, das quais 30% são assentadas, produzem 40 toneladas do produto por ano. Deste montante, 40% são destinados ao mercado externo, o que representa algo em torno de R$ 300 mil por ano. A gerente administrativa e financeira da APA, Renilda Medeiros, contou que também está em fase de negociação a exportação de doces e geléias de cupuaçu para a Alemanha.
Localizada a 416 quilômetros de Teresina (PI), a Associação dos Apicultores da Microregião de Simplício Mendes (AAPI), criada em dezembro de 1994, envolve 813 famílias. Só este ano, a comunidade exportou 80 toneladas de mel para a Itália e EUA, em negócio que já rendeu ao país US$ 1,6 milhão. Em 2003, a comercialização de mel havia totalizado 60 toneladas. Segundo a gerente de produção de apicultura da AAPI, Valdete Daniel de Moura, a perspectiva para 2005 é aumentar as exportações para 200 toneladas. Isso será possível porque os assentados aumentaram os números de suas colméias de quatro para 10.
No assentamento de Santana, no Ceará, 80 famílias também produzem mel, para exportar para Europa. No ano passado, a produção foi de seis toneladas e a perspectiva para este ano é de que suba para 15 toneladas. Neste assentamento, está sendo desenvolvido um projeto piloto chamado Centro Rural de Inclusão Digital. Por meio deste projeto, as vendas para o exterior poderão ser feitas pela internet.
Já no Rio Grande do Norte, os assentados destinam toda a produção de mamão papaya para a Caliman Agrícola, que redireciona o produto para o mercado europeu. O vice-presidente da empresa, Francisco Lemos Faleiro, conta que a parceria com cinco assentamentos do Estado, que englobam 30 famílias, foi iniciada em 2000. A empresa entrou com a transferência de tecnologia e garantia de preços para a produção e os assentados com o compromisso de que o negócio seria de longo prazo. Em média, são produzidos de 3 mil a 3,5 mil toneladas de mamão papaya por ano, das quais 60% são exportadas.
- Esta parceria com os assentados serve para retirar o velho conceito de que sem-terra é bandido e que não quer trabalhar. Nossa experiência mostra que isso é bem diferente - afirmou Faleiro, acrescentando que a exportação dos produtos ajuda os agricultores assentados a melhorar sua renda.
Outro exemplo interessante de exportação está no Mato Grosso do Sul, onde assentados criam larvas do bicho-da-seda para vender para a empresa de fiação de seda Bratac, que depois as exporta para os EUA e países asiáticos e europeus.

JB, 12/09/2004, Economia & Negócios, p. A20-A21

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