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Árvores à venda no país

O Globo, Amanhã, p. 16-17
23 de Out de 2012

Árvores à venda no país
Área degradada de 200 hectares no Mato Grosso será recuperada pelo projeto Curupira. Estoque de mudas já conta com 3 mil exemplares

Rafaella Javoski
rafaella.javoski@oglobo.com.br

Diz a sabedoria popular que o homem só tem uma vida realizada após ter um filho, escrever um livro ou plantar uma árvore. Para dar uma forcinha nesse último quesito e ainda contribuir com a recuperação do meio ambiente, três sócios criaram o Projeto Curupira de reflorestamento. Lançado há dois meses, o projeto é uma espécie de supermercado de árvores, já que os participantes podem comprar espécies e monitorar a cesta de compras à distância.
A área de plantio está localizada no Mato Grosso, numa região desmatada para criação de gado entre o Cerrado e a Floresta Amazônica. Três mil árvores já foram plantadas na área pertencente ao projeto, que conta com 200 hectares. Com a recuperação deste terreno, estima-se uma neutralização anual de emissão de dióxido de carbono em torno de 5 mil toneladas, levando em conta que cada árvore tropical neutraliza uma média de 25 kg de gás carbônico (CO2) anualmente.
Do total já plantado, metade das árvores foi vendida para um grupo de 60 clientes. Para pessoas físicas é cobrado o valor de R$ 40 e o comprador passa a ser dono da árvore por um período de dez anos. Empresas também podem participar, só que o preço por árvore é bem mais barato (R$ 0,50) e o contrato de concessão dura apenas três anos.
Os compradores contam com 56 opções de espécies como tarumã, aroeira, cajueiro, jatobá, ingá e urucum. Os mais procurados, principalmente pela popularidade em todo o país, são os ipês, nas cores amarelo e roxo. O plantio é feito no período que vai de outubro a dezembro devido ao ciclo de chuva. E caso alguma das unidades morra, outra árvore da mesma espécie é plantada no lugar.
Para escolher o nome do projeto, o grupo recorreu às histórias do folclore brasileiro:
Curupira, um dos mais populares e espantosos entes fantásticos das matas brasileiras e, sobretudo, um protetor das florestas. O personagem é representado por um anão, cabeleira vermelha, pés ao inverso, calcanhares para a frente. Segundo a lenda, Curupira é tolerante exclusivamente com aqueles que caçam para se alimentar.
Um dos idealizadores do projeto, o administrador Wellington Machado ressalta que, mais do que cooperar com o reflorestamento, o programa contribui para a recuperação da biodiversidade, já que diversos animais voltam ao seu habitat. Alguns exemplos são a arara-canindé, coruja-buraqueira, Benedito-de-testa-vermelha e araçari-miudinho-de-bico-riscado.
O objetivo é atingir 5 milhões de unidades em diferentes territórios, e assim criar áreas com vários níveis da cadeia alimentar, conforme explica Machado:
- A recuperação de uma área muito pequena é também benéfica à natureza, mas não consegue cobrir toda a cadeia alimentar. Para abrigar uma onça, por exemplo, é necessário que haja pelo menos 20 hectares - aponta ele, acrescentando que uma preocupação do grupo foi instalar a novidade em um terreno onde a agricultura é permitida, e não em áreas protegidas por lei, já que eles esperam de fato fazer a recuperação dos espaços.
Algumas espécies são plantadas em estufas e posteriormente transferidas para o campo. A cada movimentação seu dono recebe um e-mail com o link para um post no portal, onde é possível também ver uma foto. Os proprietários podem ainda convidar amigos e montar a sua floresta. Uma equipe atua no cuidado e manutenção diariamente. Cada árvore recebe uma etiqueta eletrônica, além de uma identificação por rádio frequência.
- É possível presentear alguém com uma árvore ou dar um apelido. Além disso, o espaço também é aberto para visitação - conclui.
Atualmente com mil árvores, a empresa Sofit, que atua com softwares para controle de frotas, é uma das compradoras, e cada novo veículo cadastrado ganha uma árvore. A parceria foi iniciada em setembro e já é considerada bem sucedida pelo diretor de marketing da empresa, Ionan Fernandes. Ele destaca que seus clientes também se interessaram pelo projeto e têm feito a divulgação do resultado para as empresas.
- Eles escolhem as espécies que preferem e acompanham de perto o crescimento das árvores. Muitos deles já tinham interessante em participar de um programa ligado ao meio ambiente, mas não davam o primeiro passo. Agora comentam inclusive com os funcionários para que também possam participar. Esse é o feedback mais interessante que temos - comemora ele.
A Sofit tem com o projeto um contrato de três anos, com renovação automática. Fernandes aponta que a identificação da companhia com o Curupira se deu pela possibilidade de colaborar com a conscientização a baixo custo, além do conceito de rede social que o projeto proporciona. Ele destaca ainda o fato de cada árvore ser única, com uma etiqueta que a identifica e a diferencia das demais.
Os parceiros do projeto, pessoas física ou jurídica, costumam se informar quantas mudas são necessárias para zerar emissões.

O Globo, 23/10/2012, Amanhã, p. 16-17

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