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Árvores da Amazônia sofrem alterações aceleradas

OESP, Geral, p. A11
11 de Mar de 2004

Árvores da Amazônia sofrem alterações aceleradas
Acúmulo de CO2 na atmosfera estaria alterando a floresta mesmo em áreas preservadas

HERTON ESCOBAR

Pela terceira vez em um mês, pesquisas brasileiras sobre a Amazônia são destaque em uma das principais publicações científicas do mundo. Depois de dois artigos consecutivos sobre o funcionamento do clima na região, publicados na revista Science, cientistas descobriram que o acúmulo de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera está alterando a cobertura vegetal, mesmo em trechos totalmente preservados da floresta. O trabalho, publicado hoje da revista Nature, combina duas décadas de pesquisa de campo, por investigadores brasileiros e americanos.
Segundo os autores, a dinâmica de mortalidade e "recrutamento" de novas árvores está sendo acelerada em cerca de 50% nas áreas estudadas, com uma subseqüente alteração da composição florestal. A população de árvores maiores e de crescimento mais rápido está aumentando, enquanto a de árvores menores e de crescimento mais lento - que não conseguem competir por luz e nutrientes - está diminuindo. O CO2, usado na fotossíntese, funciona como um fertilizante natural para todos os vegetais, mas apenas as espécies mais altas, que chegam à copa da floresta, são beneficiadas. "Não adianta nada ter mais CO2 se você não tem luz", explica Alexandre Oliveira, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo, que coordenou um dos projetos que compõem o estudo.
O outro tem como autor principal William Laurance, do Instituto Smithsonian de Pesquisa Tropical, no Panamá. Trabalhando separadamente, mas em cooperação, as duas equipes estudaram o desenvolvimento de 15 mil árvores em 300 quilômetros quadrados de floresta preservada ao norte de Manaus (AM).
Os resultados indicam que a taxa anual de mortalidade de árvores, que normalmente é de 1% a 3% para florestas tropicais, está aumentando e, na reposição, as espécies maiores estão prevalecendo. O CO2 ainda não foi formalmente condenado como culpado, mas é o maior suspeito. "Essas mudanças poderiam ter conseqüências tanto globais quanto locais", escrevem os pesquisadores. "Apesar dos esforços para criar reservas florestais, o estudo mostra que até os ecossistemas mais preservados são afetados pelas atividades humanas", disse Laurance ao Estado.
Nos últimos 200 anos, a concentração de CO2 na atmosfera aumentou 30%. Para reverter essa tendência, a Amazônia é vista como um importante reservatório de carbono, estocado em sua imensa massa vegetal. Com a nova composição, entretanto, a floresta poderá ter seu papel reduzido, alerta Oliveira. "As árvores maiores têm madeira menos densa e, portanto, estocam menos carbono", explica. "No final, a floresta absorve menos CO2." O próximo passo é estudar regiões maiores e descobrir se o fenômeno se repete em toda a Amazônia.

OESP, 11/03/2004, Geral, p. A11

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