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Artesanato garante fôlego a povoado

OESP, Viagem e Aventura, p. V10
14 de Jun de 2005

Artesanato garante fôlego a povoado
Delicadas peças feitas com capim dourado, sucesso no Brasil e na Europa, saem das mãos das mulheres de Mumbuca

MUMBUCA - Mumbuca, no interior do Tocantins, é daqueles povoados bucólicos em que a modernidade não ousou pisar e que o século 21 jamais ouviu falar. A viagem ao Jalapão passa necessariamente por lá, e vale a pena. Habitado por cerca de 200 pessoas, terceira geração de negros escravos da Bahia, mantém-se graças à extração do capim dourado, utilizado como matéria-prima para a confecção de bolsas, chapéus, cestas e objetos de decoração vendidos no mundo inteiro. Não há um único telefone, as mulheres é que mandam e os homens, dedicados à agricultura de subsistência, abaixam a cabeça. "Aqui, primo junta com prima, é normal", conta a moradora Antônia Ribeiro da Silva. "É o jeito, não vem ninguém de fora pra casar com a gente", afirma.
Uma comunidade que estaria condenada à miséria caso a valiosa matéria-prima não se decidisse a nascer por aquelas bandas. "Foi Deus quem determinou assim. Ele olhou cá embaixo e viu que o povo carente ia morrer de fome se não tivesse alguma coisa para atrair dinheiro. Por conta dessa visão, mandou o capim para nós do Jalapão", acredita Noêmia Ribeiro da Silva, presidente da Associação do Capim Dourado e mais conhecida como Doutora. "Sei lá porque, nem estudei direito. Deve ser por causa da minha inteligência", tentou explicar o apelido.

UMA VEZ POR ANO

Vários municípios do Jalapão manuseiam e vendem o capim dourado. As moradoras de Mumbuca, porém, são pioneiras - e também consideradas as mais perfeccionistas na técnica. O cuidado tem de ter início já na extração, segundo Doutora. "O segredo é retirar o capim no dia certo. Ele dá só uma vez no ano, entre setembro e outubro. Mas não é qualquer dia que tira, tem a data certinha para ele ficar vistoso", conta. "Se a colheita for boa, dá para armazenar material para o ano todo."

Numa política de boa vizinhança, cada família colhe a quantidade que achar necessária. Em suma, não existe propriedade privada. "Minha casa é de todo mundo. É só entrar e pegar o que carece", revela Doutora.

A habilidade no artesanato herdaram de Dona Miúda, personagem lendária na região e registrada como Guilhermina Ribeiro da Silva, atualmente com 76 anos. Quase todos Ribeiros, todos Silva. "Aqui é tudo uma família só", justifica José Ribeiro, o Paizinho, cunhado de Noêmia, marido e primo de primeiro grau de Antônia, neto de Dona Miúda.

VENDAS

Dona Miúda foi a primeira a pensar em transformar em algo rentável o que até a década de 60 era utilizado somente entre os moradores de Mumbuca. Caminhava dias para vender suas peças. Mateiros, a cidade mais próxima, fica a 28 quilômetros de distância.

Em pouco tempo, os comerciantes passaram a crescer os olhos nas obras de arte feita nas humildes casas de sapê. A produção, com 75 artesãs cadastradas, atinge 250 peças por mês, em média. "Vem gente demais comprar. Se tivesse mais pra vender, vendia", conta Antônia, que também é vereadora em Mateiros. É a primeira pessoa a se aventurar na política no povoado, mas reclama: "O salário da Câmara é fraquinho. Ganho R$ 700 lá e quase o mesmo trabalhando só um pouquinho com peças de capim dourado."

A comercialização é feita na sede da Associação do Capim Dourado, na entrada do povoado. "Vem gente do Brasil inteiro e até do exterior", conta a dona da loja, Gesiene Tavares da Silva. Os paulistas são os grandes compradores. Bolsas custam, em média, R$ 25 - em São Paulo, chegam a custar R$ 200 e até mais em países da Europa. "Quem revende ganha mais dinheiro que nós. Mas, tudo bem, não temos necessidade de muito, nem teríamos em que gastar", brinca Gesiene. Em meses bons, "dá uns R$ 5 mil de lucro", afirma a proprietária.

OESP, 14/06/2005, Viagem e Aventura, p. V10

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