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Artes de balata: do látex com originalidade

Diário do Pará - http://www.diariodopara.com.br
24 de Mar de 2010

A arte começa pela parte mais trabalhosa e menos divulgada, que é a retirada do látex da balata, árvore encontrada no Pará nas proximidades do Baixo Amazonas, mais precisamente nas cidades de Almeirim, Monte Alegre e Alenquer. Mesmo com toda a tecnologia do nosso século, para que o material seja retirado é necessário um trabalho braçal e aventureiro que dura cerca de sete meses. Os responsáveis pela coleta precisam subir acima das belas cachoeiras, ainda em dezembro, para ir ao encontro das árvores e só voltam para a casa depois do inverno amazônico, já no verão, durante o mês de julho, quando as águas baixam e abrem caminho. Coletado em caixas que chegam a formar blocos de cerca de 40 quilos, o látex é transportado rio abaixo, desde o alto da serra até Monte Alegre, oeste paraense, onde são comercializados.

Com textura semelhante ao couro, o procedimento é simples: basta aquecer o produto em água quente para que o mesmo se transforme em uma espécie de massa de modelar. Porém, o que impressiona é a criatividade e a habilidade dos artesãos ao fabricarem objetos de pequeno porte com os mínimos detalhes. Além da beleza dos artesanatos, a fabricação ganha pontos pela grande durabilidade de mais de 20 anos, se conservado em locais sem muita umidade. Cada artesão costuma produzir cerca de 800 a 1000 peças por mês. O processo é rápido, leva de 10 a 20 minutos, e o resultado é de chamar a atenção. Pode até parecer novidade, mas esta é uma arte milenar indígena que até hoje é realizada por pouco mais de uma dezena de artesãos no Estado. É o caso de Darlindo Pinto e Oscarino Braga, que ainda crianças aprenderam a fazer bonecos de balata. "Fui descobrindo sozinho os segredos desse artesanato com uns 10 anos de idade, vendo os outros fazerem. Estamos há 35 anos em Belém para divulgar o nosso trabalho. Nossos maiores clientes são crianças e pessoas de fora. Depois de 40 anos trabalhando com artesanato pude ver o nosso esforço inserido como cultura brasileira", disse Darlindo.

Em exposição fixa na Praça da República aos domingos e na Casa do Artesão do Espaço São José Liberto, os artesãos são unânimes em falar que esta é uma arte que veio de herança de gerações a gerações. "A nossa arte é um trabalho único, todo o processo é com o material bruto, não tem nada industrial, é algo passado de pai para filho. Tudo é manual. As nossas ferramentas de trabalho são uma tesoura velha, uma peça retirada de um relógio, um pedaço de caneta, uma faquinha e umas miçangas", explicou Oscarino.

Inspiração vem da Amazônia

Macacos, botos cor-de-rosa, cobras e índios são algumas das peças idealizadas pelos artesãos, que usam a imaginação para relatar através dos bonecos de balata o universo de cores e vida da Amazônia paraense. "A nossa inspiração é a nossa realidade, são as nossas plantas, árvores e animais. Quando resolvemos fazer um animal diferente, como o elefante, tem gente que briga. Mas é que pedem, né? Já pediram de tudo pra gente, pedras de xadrez, a imagem de Nossa Senhora de Nazaré, todo o presépio. O que pedirem a gente faz", ressaltou Oscarino.

Segundo Darlindo Pinto o cenário para esse tipo de artesanato é promissor. "Já conseguimos o reconhecimento do Ministério da Cultura, que incluiu a balata entre as manifestações de cultura tradicional, junto com a moda, o design e a arquitetura", informou ele, se referindo ao Programa de Promoção do Artesanato de Tradição Cultural, coordenado no Pará pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

O Programa permitiu a instalação de um polo de desenvolvimento do artesanato em balata em Monte Alegre, propiciando o acesso direto à matéria-prima e a oficinas de qualificação, visando difundir o trabalho dos balateiros. O projeto, com investimento de R$ 70 mil, foi iniciado em outubro de 2009, com vigência até outubro de 2010, administrado pela Associação Hortoflorestal de Monte Alegre.

A aceitação do artesanato em balata em outros Estados é boa, visto que os artesãos atendem a diversas encomendas de lugares como São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e, principalmente, Brasília. O próprio Oscarino Braga já esteve em Bressuire, na França, divulgando a arte com balata, que aprendeu com o irmão mais velho, Antônio. Os artesãos fizeram parte da abertura da Semana do Artesão do Espaço São José Liberto, realizado na semana passada.

Por que se orgulhar?

O artesanato de Balata é algo que impressiona pelos detalhes e pela fabricação 100% manual. Além disso, este tipo de arte é algo exclusivo do Pará, apesar da árvore ser encontrada em outros Estados da região Norte. A arte milenar indígena ajuda a divulgar a cultura amazônica, através de peças que são a cara da fauna e flora paraenses.

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