CB, Cidades, p. 36-37
14 de Abr de 2005
A arca do Noel
Comerciante que vende 82 espécies de animais pela internet recebeu 153 bichos dos zoológicos de Brasília e de Goiânia. Entre eles, estão três mamíferos que constam como mortos nos arquivos do Zôo do DF
Ana Beatriz Magno
Da equipe do Correio
Os zoológicos de Brasília e de Goiânia entregaram 153 animais de seus acervos para o empresário Noel Gonçalves Lemes entre junho de 2002 e abril de 2004, segundo documentos obtidos pela Polícia Federal e pelo Ministério Público nos arquivos dos dois zôos.
A Promotoria do Meio Ambiente do Distrito Federal e a Delegacia de Repressão aos Crimes contra o Meio Ambiente consideram as transações ilegais e investigam o envolvimento de funcionários dos zoológicos e do empresário com o tráfico internacional de animais.
A promotora Kátia Christina Lemos, a mesma que há duas semanas pediu a interdição do zoológico de Brasília, ouviu anteontem o diretor-executivo do IBAMA-DF, Francisco Palhares, responsável legal pela fiscalização do Zôo.
Palhares terá 30 dias para entregar ao MP uma lista com toda a movimentação de animais do zoológico entre 2000 e 2005. Em depoimento gravado e assinado, ele reconheceu a ilegalidade das transações com o criadouro de Noel.
Noel Gonçalves Lemes é proprietário de uma empresa especializada no comércio de espécies da fauna silvestre e exótica. A firma tem registro de "criadouro comercial" no Ibama e é uma das maiores do ramo no país.
O site da empresa oferece ao cliente 82 espécies diferentes. São 36 tipos de aves, sete de répteis e 39 de mamíferos. Alguns são raríssimos. Caso do tigre siberiano, felino com alto risco de extinção. Há também exemplares brasileiros, como antas e veados catingueiros.
Detalhes da página eletrônica ilustram as laterais dessa reportagem. Na setinha "animais disponíveis", o interessado se informa sobre cada um dos bichos. O site só não informa o preço nem o telefone nem o endereço da firma. Para isso, o cliente tem que mandar um e-mail.
"Sou apaixonado por animais, mas não me apego a eles porque minha empresa vive de vendê-los", resume Noel, na varanda de sua fazenda, a 504 quilômetros de Brasília, na cidade de Quirinópolis, no sudoeste goiano. A equipe do Correio Braziliense foi até lá. "Não vou falar nada sobre minha empresa. Sou honesto e ponto final. Não tenho que falar mais nada para vocês" , disse.
A equipe do Correio encontrou nas terras do empresário vários animais das mesmas espécies doadas pelos zoológicos, mas o empresário se recusou a informar a origem dos bichos. Tampouco contou se já havia vendido algum deles e quanto costuma cobrar por cada um.
"O criadouro é uma espécie de supermercado de animais abastecido por zoológicos públicos", resume o delegado federal Roberto Alves Castro, responsável pelo inquérito na Superintendência da PF em Goiânia. "Nossa suspeita é de que esse esquema está conectado ao tráfico internacional de animais e é muito maior do que imaginávamos".
Ouro por cimento
Dos 153 animais cuja documentação está com as autoridades do MP e da Polícia Federal, sete mamíferos foram doados pelo zoológico de Brasíllia diretamente para Noel. O empresário não deu nada em troca.
Já os 146 exemplares do zôo goiano têm guias de permuta. São documentos importantes porque mostram a rota das transações.
Num único dia, 14 de abril de 2004, o empresário recebeu 50 animais de 15 espécies diferentes. Em troca, forneceu material de construção e mão-de-obra para a reforma de um banheiro no zoológico goiano.
Não há qualquer explicação sobre o valor da reforma, a quantidade de mão-de-obra e tampouco notas fiscais do material.
Na lista dos 50 animais entregues ao criadouro em 14 de abril do ano passado está um antílope Adax que, segundo a própria guia de permuta, havia sido repassado à Goiânia meses antes pelo zôo de Brasília.
"Estou no cargo há apenas três meses. Já comecei a apurar as denúncias", diz Fernando Silveira, diretor do zôo de Goiânia, onde uma CPI na Câmara dos Vereadores também se debruça sobre o caso.
"É um absurdo. A lei só permite permuta entre instituições afins", resume o delegado. "Zoológico tem finalidade pública, cultural, educativa e científica. Algo muito diferente da finalidade de um criadouro comercial", emenda a promotora Kátia Christina Lemos. "Os animais dos zoológicos são patrimônio público".
Serra Azul
Noel Gonçalves Lemes, gerente aposentado do Banco Real, de botinas, chapéu, recebeu a equipe do Correio sem sorrisos e despediu-se na porteira com um revólver na cintura.
"Se você fotografar, eu te mato", avisou ao fotógrafo Edilson Rodrigues. "Não vou contar para vocês que bichos tenho. Os que vocês estão vendo e que sabem o nome, sorte de vocês".
Até onde a vista alcança ( o propietário não permitiu a entrada no galpão de répteis nem na área do lago de ariranhas), o criadouro é um lugar impressionante.
Um camelo pasta em frente à varanda do empresário. Macacos-aranha pulam nas grades de duas jaulas. Nos currais, muitos veados, antílopes, waterbucks, algumas antas e lhamas esperam compradores. Boa parte do negócio, no entanto, é "feito pela Internet", como admitiu o empresário ao Correio Braziliense.
Sua sofisticada página na internet chamou a atenção dos investigadores. O endereço eletrônico não termina com ponto br, mas sim com ponto com. Significa que o site está hospedado num servidor nos Estados Unidos e que está livre da legislação brasileira. As autoridades só podem retirá-lo da web com autorização americana.
Mortos-vivos
O zoológico de Brasília está enrascado com a Polícia Federal e o Ministério Público não apenas pelas doações. Mas também pela maneira como foram feitas.
Doou sete mamíferos de grande porte para o criadouro. Noel recebeu um casal de gnus, três waterbucks, um cervo-nobre e um cervo-dama.
Todos foram doados vivos no dia 26 de setembro de 2002. No entanto, o Ministério Público descobriu certidões de óbito de três desses bichos com data posterior à transação.
A responsável técnica do Zoológico, a veterinária Deborah Scheidegger Soboll assina os documentos . Atesta que um cervo- nobre e um waterbuck morreram 10 de outubro de 2002. A veterinária também chancela o atestado de óbito de outro waterbuck no dia 20 de outubro.
"O óbito é uma forma do animal desaparecer. Seria como uma queima de arquivo, pode sair e entrar no país sem qualquer controle", resume o delegado Roberto Alves.
Desde que as primeiras notícias sobre as irregularidades foram publicadas no Correio em dia 28 de março, o diretor do zoológico, Raul Gonzalez Acosta, diz que procurou os atestados e que não os encontrou. Em documento para o Ministério Público, chegou a afirmar que eles não existem.
"Eu procurei e não achei. Tenho certeza que esses atestados não existem", insistiu Raul. "Se quiserem eu pego os animais de volta. Conheço o Noel". "Como que ele vai pegar animais que, segundo os livros de registros do zoológico que ele dirige, já morreram ?", indaga a promotora.
Uma fauna de presentes
A seguir, o calendário de negociação dos 153 animais que saíram dos Zôos de Brasília e Goiânia para o criadouro particular de Noel Gonçalves Lemes. Os documentos estão com a Polícia Federal. No caso das permutas, a documentação não informa o valor dos serviços prestados pela empresa de Noel. Tampouco apresenta a nota fiscal dos produtos doados em troca dos animais
Abril de 2004
O Zôo de Goiânia doa para o criadouro
50 animais de 15 espécies diferentes, entre eles um casal de Adax que meses antes o Zôo de Brasília repassara para Goiânia
Em troca O Zôo de Goiânia recebeu
Mão-de-obra para a reforma de um banheiro
Material de Construção
Três cervicapra
Junho de 2003
O Zôo de Goiânia deu para o criadouro ...
32 animais de 12 espécies diferentes, inclusive um veado catingueiro, bicho típico do cerrado e na lista dos animais que correm risco de extinção em troca O Zôo de Goiânia recebeu
Material de construção
Computador
Placa de computador
Licenciamento de veículo do Ibama
Julho de 2003
o Zôo de Goiânia doa para o criadouro
8 animais de três espécies diferentes em troca o
Zôo de Goiânia recebeu
Material de construção
Junho de 2002
O Zôo de Goiânia doa para o criadouro
56 animais
Em troca O Zôo de Goiânia recebeu
1 televisão
1 freezer
Setembro de 2002
Do Zôo de Brasília dOA para o criadouro
Sete mamíferos (três waterbucks, um casal de gnus, um cervo nobre e um cervo dama)
Em troca o Zôo de Brasília recebeu
Nada. O Zôo de Brasília optou por doar os animais ao invés de permutá-los. Três dos animais doados vivos em 26 de setembro, têm atestados de óbitos com data posterior à transação e assinados pela responsável técnica do zôo (documentos acima)
CB, 14/04/2005, Cidades, p.36-37
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