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Arca de Noé para as sementes

CB, Cidades, p. 20
14 de Jul de 2008

Arca de Noé para as sementes
Amostras de arroz, feijão e milho serão enviadas a banco mundial de alimentos na Noruega

Pablo Rebello
Da Equipe do Correio

O arroz e feijão de todo dia junto com o milho, outro item importante na alimentação do brasileiro, terão sobrevivência garantida para as gerações futuras. Pelo menos no que depender da conservação das sementes desses alimentos, que ficarão protegidas a uma temperatura de -20oC em uma instalação subterrânea na Noruega à prova de ataques nucleares, terremotos e diversos desastres naturais. Trata-se do Fundo Global de Diversidade Agrícola, uma caixa-forte construída no interior de uma montanha em uma ilha do arquipélago Svalbard, inaugurada em fevereiro, que tem o objetivo de funcionar como uma "Arca de Noé" para espécies vegetais.

O chefe-geral da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, José Manuel Cabral, recebeu na última terça-feira (01/07) o contrato firmado com o Fundo Global que estabelece o compromisso entre os dois países. O Brasil vai participar do empreendimento com exemplares de diferentes tipos de arroz, feijão e milho, que serão enviados para a caixa-forte diretamente de Brasília até o final do ano. No entanto, ainda está em estudo a seleção do material que será mandado para o banco de sementes. "Eles não querem que haja repetição. Por isso, precisamos definir com antecedência o que será mandado para garantir que outro país já não tenha enviado aquele determinado tipo de semente para lá", justificou Cabral.

A escolha das espécies a serem enviadas levou em conta a segurança alimentar da população. "Escolhemos primeiramente alimentos de grande importância para o brasileiro. Até para testar o sistema e conferir se esse armazenamento se dará de forma fácil ou difícil", explicou. Cabral lembrou que a questão da conservação de vegetais cultivados pelo homem remonta a um passado distante. "Quando os índios aprenderam a cultivar a terra, eles passaram a carregar as sementes sempre que uma mudança de habitat para um local desconhecido se mostrou necessária", detalhou.

Fertilidade
O material selecionado sairá da Embrapa Arroz e Feijão, em Goiânia (GO), e da Embrapa Milho e Sorgo, em Sete Lagoas (MG). A seleção levará em conta informações passadas pelo próprio Fundo Global como possíveis envios à Noruega de amostras para análise. Todas as sementes serão inspecionadas em Brasília para checar suas condições de fertilidade antes de saírem do país.

A viagem para Noruega ocorrerá em embalagens com tamanhos predeterminados a serem enviadas via Correio. Dentro de cada uma das caixas, estará uma quantidade ainda não estabelecida de pacotes especiais com as sementes. Cada pacote possui três camadas. A interior é de papel, a do meio, de plástico e a exterior, de alumínio. Essas camadas servem como garantia de conservação das sementes até que cheguem ao seu destino. A função principal delas é evitar que o material seja prejudicado pela umidade.

As caixas devem chegar lacradas na caixa-forte em Svalbard e serão colocadas dessa maneira no interior das instalações. Nenhum funcionário do Fundo Global terá permissão para checar o conteúdo enviado. Isso só poderá ser feito pela pessoa ou empresa que enviou o produto. "O banco de sementes funciona como um banco real. Dois motivos que nos levaram a participar desse empreendimento. Primeiro, pela segurança que o lugar oferece. Em segundo, pelo baixo custo de armazenamento. Para eles, é muito mais barato baixar a temperatura de -5oC para -20oC. Nos nossos bancos de germoplasma, precisamos baixar a temperatura, normalmente, de 30oC para -20oC", revelou Cabral.

O sucesso dessa primeira etapa determinará se a Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia terá uma participação mais ativa no empreendimento. Existe uma expectativa elevada no órgão, que estuda um possível envio de frutas e hortaliças no futuro. Contudo, a estatal não tem planos de mandar material de forma indiscriminada para o exterior. Mesmo porque a legislação brasileira impõe diversas restrições quanto ao intercâmbio de matérias-primas do país.

O contrato assinado pela Embrapa e pelo Fundo Global, por exemplo, precisou passar por duas modificações antes de ser finalizado. A primeira mudança diz respeito a possíveis problemas jurídicos que ocorram durante a transação. No contrato original, essas questões seriam resolvidas nas cortes norueguesas e, com o ajuste, se tornaram assunto a ser decidido na Justiça brasileira. A segunda mudança estabelece que a renovação do acordo, que tem validade de 10 anos, precisa ser renegociada quando o prazo do documento expirar. No original, a renovação seria automática.

Congelar para o futuro

Caixas-fortes de sementes mantidas em temperaturas de -20oC não são exclusividade dos noruegueses. A Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, sediada em Brasília, possui um banco próprio para esse tipo de armazenamento. O maior da América Latina, segundo os pesquisadores que trabalham no local. Lá, encontram-se mais de 105 mil amostras de 400 diferentes espécies de plantas nativas e de outros países. Quantidade que não ocupa nem metade das quatro salas refrigeradas destinadas à guarda das sementes. No total, o banco de germoplasma tem capacidade para armazenar 240 mil amostras.

Mas nem todas as sementes suportam temperaturas tão baixas. Motivo pelo qual a Embrapa também trabalha com outros dois tipos de armazenamento: in vitro ou em nitrogênio líquido. No primeiro caso, a conservação ocorre em pequenos tubos com substratos nutritivos. Mas, quando as amostras são guardadas assim, é preciso checar a qualidade do material em períodos curtos de tempo. Normalmente de três em três meses. É o que ocorre, por exemplo, com a banana, batata e mandioca.

As amostras ainda podem ser congeladas com nitrogênio líquido, a uma temperatura de -196oC. Um exemplo desse caso é o café. A Embrapa possui estudos para checar quais as temperaturas ideais para conservar diferentes tipos de semente e quanto tempo leva até que esses materiais comecem a perder suas características originais (como cor, sabor e tamanho). A Embrapa conta ainda com 170 bancos de materiais genéticos distribuídos por todo Brasil e coordenados diretamente de Brasília.

CB, 14/07/2008, Cidades, p. 20

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