OESP, Vida, p. A16
Autor: CORRÊA, Marcos Sá
04 de Jan de 2007
Aquecimento global no paraíso argentino
Marcos Sá Correa
Aos olhos de um brasileiro, o mundo em Mendoza parece virado pelo avesso. Ali, verde é sinal de gente. Ou seja, quanto mais verde, mais gente, como na história do escritor Marq De Viliers com sua tia sul-africana. "Aqui você sabe onde tem uma fazenda por causa da clareira", ela comentou, depois de rodar com o sobrinho pelas estradas canadenses. "Lá em casa, você sabe quando está diante de uma fazenda porque, onde ela estiver, tem árvore."
Não foi à-toa que De Viliers escreveu Water, um livro pioneiro sobre a crise geral de falta d'água neste planeta encharcado. Ele cresceu numa fazenda na África do Sul, vendo o moinho de vento bombear do fundo da terra cada gota que mantinha no chão estéril o oásis particular de seu avô. Adulto, morando em Maynooth, no Canadá, encantou-se com a nascente que encontrou de mão beijada no terreno.
Em Mendoza, no oeste da Argentina, o forasteiro aprende depressa a reconhecer de longe a próxima cidade, no meio do deserto ofuscante, pela mancha verde que brota à sua frente, cintilando sob o céu sem nuvem. Pode contar com ruas profusamente arborizadas e chafarizes jorrando nas praças. Mas nem é preciso passar do perímetro urbano para apreciar as marcas do trabalho humano. Por suas bordas correm estradas sob as copas de plátanos centenários, que cobrem o asfalto como túneis.
E tome campos de girassol, pomares, olivais e vinhedos a perder de vista. Toda porteira parece ter alguma coisa para vender, de cereja madura a compota feita em casa. Tudo isso sem um pingo de chuva, sob um sol de rachar, porque o verão é tempo de estiagem na região que produz, aos pés do Aconcágua, não só os melhores vinhos da Argentina, com as marcas de água mineral mais famosas do país. A luz no deserto pode ser estonteante. A poeira marca no ar seco a passagem de carros pelas estradas de terra muito depois de eles sumiram no horizonte. E ao meio-dia não se vê um cachorro em beira de cerca.
Mas as cidades só param para a sesta. Faltam vagas nos hotéis e há filas nos restaurantes.
Mendoza vive da extração de petróleo. E foi o vinho que a botou no mapa do turismo internacional, coisa que, por sinal, ela não deixa ninguém esquecer em nenhum momento, desde que, desembarcando no aeroporto, o recém-chegado percebe que as parreiras ao lado da pista foram postas onde estão especificamente para saudá-lo. Mas seu grande produto está fora da cidade, dos parques que ocupam metade da malha urbana e das vinícolas.
O grande negócio de Mendoza é a água que desce dos Andes na primavera, enchendo os reservatórios que se aninham nos vales entre as montanhas para garantir o abastecimento de 1 milhão de habitantes e a irrigação da agricultura. Outras cidades podem ter a ilusão de bastarem a si mesmas. Mendoza, não. Nela não dá para ignorar o contraste do deserto circundante com "extraordinários oásis de cultivo", cantado nos guias turísticos. Para isso está a seu lado a cordilheira, com um pico de quase 7 mil metros, "o mais alto das Américas". Basta olhar para oeste, que os Andes explicam o resto.
AMEAÇA
Neste ano, mesmo de longe, dá para ver a distância com olhos leigos que sobra menos neve nos cumes do que seria de esperar num começo de verão. Poderia ser uma alucinação provocada pelo calor, se os pesquisadores da mudança climática não estivessem por lá colhendo dados sobre o degelo das geleiras andinas, onde tradicionalmente o verão esculpe "penitentes" - blocos de gelo com vários metros de altura. Eles retardam o processo de degelo durante o verão. Mas ultimamente estão se liquefazendo como nunca.
"Como mudará a distribuição de 'penitentes' como resultado da possível variação climática?", perguntam os autores de um desses estudos. Resposta: nem eles sabem. Só têm a certeza de que está na hora de saber, "dada a importância da água de degelo para a economia e as populações do Chile e da Argentina". E, apesar dos agouros, não deixa de ser um alívio notar que alguém aqui neste continente ainda trata de assuntos sérios.
Marcos Sá Correa, Jornalista e editor do site O Eco www.oeco.com.br
OESP, 04/01/2007, Vida, p. A16
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