CB, Opinião, p. 19
Autor: ROLLEMBERG, Rodrigo
11 de Abr de 2007
Aquecimento global: desafios e oportunidades
Rodrigo Rollemberg
Deputado federal (PSB-DF)
O mundo tomou conhecimento assustado do alerta feito pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), em Paris. O planeta está se aquecendo pela ação do homem, e as conseqüências serão catastróficas, colocando em risco a própria sobrevivência da humanidade. A grande responsabilidade pelo aquecimento é dos países desenvolvidos, que emitem grandes quantidades de gases de efeito estufa (dióxido de carbono, metano e óxido nitroso) desde o início da Revolução Industrial.
Embora nossa responsabilidade pelo aquecimento atual seja pequena, em função de que nossas emissões são recentes, o Brasil já é o quarto emissor de gases de efeito estufa do mundo. Grande parte (75%) advém da alteração do uso do solo, sobretudo desmatamentos e queimadas na Amazônia e no cerrado. Nos países desenvolvidos, a maior parte das emissões são provenientes da utilização de combustíveis fósseis. Já no Brasil, 60% de nossa matriz energética é suprida por fontes renováveis, sendo que 90% da eletricidade brasileira é gerada por usinas hidrelétricas. Isso nos dá uma grande vantagem comparativa.
Primeiro porque, para reduzir drasticamente nossas emissões, não precisamos mudar nossa matriz energética. Segundo, porque ao conter o desmatamento, estaremos reduzindo drasticamente nossas emissões e preservando a biodiversidade, grande riqueza do futuro. Terceiro, porque seremos os grandes produtores de bioenergia para o mundo. Esse cenário mundial traz preocupações, grandes desafios e enormes oportunidades para o Brasil.
Existe um temor fundamentado de que o aumento da procura por álcool e biodiesel provoque alteração de preços desses produtos no mercado mundial e, conseqüentemente, uma enorme pressão de expansão da fronteira agrícola em novas áreas de cerrado e floresta amazônica. Isso nos colocaria na contraditória posição de fornecedores de biocombustíveis e destruidores da floresta e do cerrado.
Contudo, o Brasil possui algo em torno de 50 milhões de hectares de pastagens degradadas, que devem ser recuperadas e transformadas em fronteira ideal para elevar a produção de alimentos e biocombustíveis consorciados com a intensificação da pecuária de corte e de leite. A Embrapa já desenvolve tecnologias de integração lavoura-pecuária que precisam ser aperfeiçoadas, difundidas, financiadas e implantadas em larga escala. Por seu lado, o Congresso Nacional precisa rediscutir o Código Florestal, ampliando as taxas de preservação (reservas legais) sobretudo em áreas de cerrado e de floresta amazônica.
Sei que o tema sempre desperta enorme polêmica; porém, mais do que nunca, precisamos construir novos paradigmas. Já é hora também de implantarmos mecanismos de incentivos financeiros aos produtores que preservem áreas maiores que as previstas em lei. No cenário mundial, o Itamaraty deve defender uma postura firme de criação de um fundo internacional que financie o desmatamento evitado. Internamente, o Brasil deve intensificar os investimentos em biotecnologia e buscar alternativas de desenvolvimento sustentável, especialmente para a região amazônica.
Em visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pesquisadores daquela instituição, que coloca o Brasil no seleto grupo de países que desenvolvem tecnologias para o conhecimento do clima, duas propostas apresentadas chamaram a atenção de um conjunto de parlamentares: a elaboração de um grande inventário nacional das vulnerabilidades provocadas pelo aquecimento global nas áreas de saúde, agricultura, zona costeira, biodiversidade, energia, etc. para identificar áreas de risco; e a constituição, já iniciada pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, de uma rede brasileira sobre mudanças climáticas, estimulando a pesquisa integrada nas áreas de climatologia, agricultura, saúde, economia, ecologia, engenharia, demografia, visando à geração de conhecimentos para informar o processo de tomada de decisões e para implantação de políticas públicas de mitigação e adaptação às mudanças climáticas.
Estamos diante de uma situação sem precedentes na história da humanidade que nos coloca diante de novos desafios políticos e filosóficos. Precisamos agir com rigor e grandeza. E precisamos agir rápido.
CB, 11/04/2007, Opinião, p. 19
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