OESP, Metrópole, p. C10
09 de Out de 2011
Após dois dias fechado, Center Norte volta a lotar
Paulo Sampaio
Teve banda de música, fotógrafo, distribuição de pirulitos e de balões de gás (hélio). O shopping Center Norte fez de tudo para atrair a clientela no primeiro sábado de funcionamento após ficar dois dias fechado. O local foi lacrado pela Prefeitura de São Paulo após a constatação que há "risco potencial" de explosão causado pelo acúmulo de gás metano no subsolo.
Aparentemente, o fluxo de pessoas, que chega a 120 mil em cada dia do fim de semana, estava normalizado ontem. "Pra mim, havia algum exagero em tudo que se noticiou sobre a explosão. Se não, pensa bem, eles teriam de interditar toda a Vila Guilherme, o Parque do Trote, até o Deic (Departamento de Investigações sobre Crime Organizado). Tudo foi sendo ocupado em cima de lixão", acredita coordenadora de telemarketing Andréa Strafaci, de 39 anos, há duas horas circulando pelo shopping.
O local havia sido interditado para cumprir a exigência de instalação de um sistema de 11 drenos para tirar o gás do subsolo. Na quarta-feira, técnicos da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) constataram que o sistema funcionava. Na quinta, a companhia suspendeu a multa diária de R$ 17.450.
A assessoria do Center Norte informou que tudo tinha voltado ao normal. Mas, apesar de os corredores estarem cheios, alguns vendedores diziam que o movimento caiu um pouco. "Ainda não está como era, mas a gente sente que, em relação ao sábado passado, por exemplo, quando ''soltaram a bomba'', melhorou bem. Naquele dia, a gente vendeu R$ 50 mil, quando em um dia normal vende R$ 90 mil", diz uma vendedora da loja Luigi Bertoli. Ontem, por volta das 16h, eles já tinham chegado a R$ 33 mil.
Levando em conta que o pico do movimento, segundo o shopping, é às 19h, tudo levava a crer que a meta seria atingida.
Na praça central, enquanto a banda toca Cantaloupe Island, sucesso consagrado pelo pianista Herbie Hancock, o dono da agência Vitamina A, Fernando Fraccarolli, de30 anos, contratada para animar o público até terça, das 14h às 20h,comemora."As crianças são as que mais gostam."
Como a ocupação do Tietê causou a contaminação do shopping
Há cinco décadas, uma obra de retificação transformou sinuosos 56 km de rio em 26 km. E as lagoas que afloraram depois dela foram cobertas por lixo
Diego Zanchetta
Um projeto que nasceu há 120 anos para ser a maior obra de São Paulo explica a contaminação do Center Norte, que levou ao fechamento do shopping na semana passada. Concluída nos anos 1960, a retificação do Tietê tornou o trajeto sinuoso do rio, de 56 km, quase uma reta dentro da cidade, de 26 km.
Mas as lagoas que afloraram nas várzeas após a mudança foram cobertas por toneladas de lixo.
É sobre essa montanha de entulho, em um terreno que era completamente alagado até 1946, que foi erguido o segundo maior empreendimento comercial da capital, aberto em 1984. O estacionamento, onde hoje cabem 12 mil carros, o maior do Brasil, era uma margem inabitada onde pescadores tiravam dourados de 7 kg até o início dos anos 1930.
O caso mostra mais um resultado inglório da batalha que a capital travou para tentar domesticar seu principal curso d'água.
Para resolver o histórico problema das enchentes, o engenheiro João Rudge, dono da área que é hoje o bairro da Casa Verde, apresentou à Câmara Municipal, em 1891, a retificação do rio como solução para "dominar as várzeas alagadas do Tietê".
O projeto logo ganhou apoio de vereadores e de quase toda sociedade paulistana. A população clamava por algo que acabasse com as constantes cheias do Tietê.
As inundações do rio alcançavam na época das chuvas todo o bairro de Santana, a Rua 25 de Março, o quarteirão onde hoje está o Parque da Água Branca e parte da Mooca. O terreno onde está o shopping já ficava inundado o ano todo.
Por falta de verba e de vontade política, o projeto não vingou por 50 anos. Só quando a Light viu que a retificação poderia aumentar a produção de energia em sua estação de Santana do Parnaíba é que a mudança do curso começou a sair do papel.
A possibilidade de construir novas edificações em 33 milhões de metros quadrados inundáveis e a diluição do esgoto com a maior vazão de água em trecho reto também embasaram a iniciativa.
"Não é questão apenas de hidráulica e valorização das terras.
Deve ser motivo, também, para o aformoseamento da cidade", argumentou o então prefeito Francisco Prestes Maia em sessão na Câmara no dia 19 de fevereiro de 1963.
Resultados. O trecho mais sinuoso do leito ficava justamente entre a Vila Maria e a Freguesia do Ó. E foi nessa parte que ocorreram as intervenções mais agressivas para que o caminho do Tietê se adaptasse aos anseios da cidade por mais energia e menos enchentes. Mais de 3milhões de metros quadrados inundados foram aterrados nesses seis quilômetros.
Passados 50 anos da retificação, o Tietê continua transbordando e a concentração de esgoto no rio só aumentou. Para piorar, as cavas alagadas que surgiram nas várzeas após a obra foram exploradas por mineradoras que tiravam areia do rio para usar na construção de novos prédios, em uma cidade que dobrava de população a cada 20 anos.
A partir do fim dos anos 1960, essas cavas viraram buracos onde a população e empresas de bairros como Vila Maria e Vila Guilherme depositavam restos de comida, entulho e todo tipo de lixo industrial. Só no início de 1975 é que foi desativado e aterrado o Lixão do Carandiru, sobre o qual foi construído anos depois o Center Norte, o conjunto habitacional Cingapura, o Lar Center e outras edificações.
Prefeitura e Cetesb,porém, dizem só ter descoberto que o shopping foi construído sobre o antigo lixão em 2004, após denúncia de vereadores.
Bastava, porém, consultar os arquivos de jornais ou algum livro do historiador Benedito Lima de Toledo para descobrir o problema. / Colaborou Rodrigo Brancatelli
OESP, 09/10/2011, Metrópole, p. C10
http://www.estadao.com.br/noticias/geral,apos-reabertura-shopping-cente…
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