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Autor: Por: Conce Gomes
22 de Jan de 2026
A região do Planalto Santareno convive há anos com os impactos trazidos pela monocultura de grãos, principalmente a soja e o milho. Professores, funcionários e pais de alunos relatam que as escolas sofrem com a aplicação de agrotóxicos nas lavouras de grãos próximas às áreas escolares. Segundo denúncias feitas ao longo dos anos, houve casos em que alunos, professores e demais funcionários tiveram de se retirar das escolas devido a ardência nos olhos e dificuldades para respirar no ambiente afeto pelos agrotóxicos.
O caso mais grave aconteceu no dia 27 de janeiro de 2023, na Escola Vitalina Motta, em Belterra, quando a pulverização de agrotóxicos atingiu o ambiente escolar, causando danos aos estudantes e funcionários das escolas que precisaram se retirar do local às pressas.
No dia 6 de fevereiro de 2023, o Tapajós de Fato noticiou novo episódio de pulverização de agrotóxicos próximo a escola, que novamente levou à paralisação das atividades escolares.. Em 12 de junho de 2024, pela terceira vez alunos e professores foram contaminados pela pulverização.
Na ocasião, a professora Heloíse concedeu entrevista ao Tapajós de Fato afirmando que a pulverização paralisou o calendário escolar e estava ocasionando impactos no rendimento escolar dos alunos e provocando o esvaziamento das turmas.
Diante dos vários casos, um grupo de funcionários e responsáveis de alunos se uniram para denunciar formalmente o uso de agrotóxicos próximos à escola. Entre as principais vozes está a professora Heloíse Rocha, que atua há mais de dez anos na Escola Vitalina Motta.
"Desde 2023 venho denunciando diretamente a pulverização de agrotóxicos, mas somente em 2026 a SEMEB [Secretaria de Educação de Belterra] agiu com a minha transferência, com a tentativa de me silenciar.". afirma a professora em entrevista ao Tapajós de Fato.
As denúncias feitas pela professora Heloíse Rocha provocaram sua transferência da escola Vitalina Motta para a escola Frei Fabiano, entre o ano de 2025 e 2026. Segundo a professora, com a mudança de gestão da SEMEB, as novas locações aconteceram de forma abrupta e inesperada.
A professora afirma que foi informada da transferência no dia 10 de janeiro de 2026, de maneira informal por aplicativo de mensagens, pela diretora da escola, sem aviso prévio ou documento administrativo.
"Mudou a gestão, agora é uma gestão de contrato indicado pela Secretária de Educação. E aí, de forma surpreendente, as turmas foram mudadas. Eles juntaram turmas para que não houvesse carga horária para mim na Vitalina. E eu fui escolhida para sair dessa escola. Eu já tinha um trabalho consolidado na Vitalina. Então foi sem justificativa nenhuma. Eu compreendo isso como uma perseguição", conta Heloíse ao Tapajós de Fato.
A transferência ocorreu cerca de um mês após uma decisão judicial que suspendeu a pulverização de agrotóxicos nas áreas rurais próximas a Escola Vitalina Motta e de mais 15 escolas e 04 unidades básicas de saúde na região.
A decisão é parte da Ação Civil Pública movida pelo Ministério Público do Estado do Pará (MPPA) contra o Município de Belterra, o Estado do Pará, a Agência de Defesa Agropecuária do Pará (ADEPARÁ) e Renato Zambra, proprietário da Chácara Nossa Senhora da Conceição - localizada ao lado da escola.
Multa e recorrência de casos
Em 2023, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) multou Renato Zambra em mais de 1 milhão de reais por intoxicação dos alunos da Vitalina Motta. O órgão também determinou a imediata suspensão das pulverizações até que fosse providenciada uma barreira de vegetação entre a escola e a área de plantio.
De acordo com relatório de fiscalização feito pelo MPPA, a área de plantio fica a aproximadamente 40 metros da escola.
Com atuação há 11 anos como concursada no município, a docente faz parte de um pólo solo, que possui três escolas na região. A escola Frei Fabiano, para a qual Heloíse foi transferida, fica a cerca de dois quilômetros da Vitalina Motta.
Para a professora, a mudança de lotação está diretamente relacionada à atuação da docente no enfrentamento da contaminação por agrotóxicos no ambiente escolar. Ela afirma que mesmo com a transferência continuará a fazer as denúncias sempre que necessário.
Cenário preocupante
A contaminação por agrotóxicos no Plano Santareno tem sido cada vez mais recorrente e evidencia um cenário grave de impacto ao meio ambiente e à saúde.
Um levantamento recente feito pelo Tapajós de Fato e Repórter Brasil revelou que os casos de contaminação por agrotóxicos aumentaram 545%, nos últimos cinco anos nos municípios de Santarém, Belterra e Mojuí dos Campos.
Juntos, os três municípios respondem por 10% das intoxicações registradas no Pará. Segundo o levantamento, foram registrados 200 casos entre 2021 e 2025. Os dados são do Painel de Vigilância em Saúde das Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA), do Ministério da Saúde.
Outra estudo, realizado na Universidade Federal do Oeste do Pará, aponta que o número de doenças neurológicas associadas à exposição a agrotóxicos cresceu 600% em dez anos no município de Belterra.
O Tapajós de Fato procurou a Secretaria Municipal de Educação de Belterra para solicitar esclarecimentos sobre a transferência da professora, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto para manifestação institucional.
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