O Globo, Opinião, p. 6
17 de Mai de 2008
Apoio crucial
As primeiras entrevistas e declarações de Carlos Minc como ministro convidado do Meio Ambiente - ele prefere deixar a batida final de martelo para uma conversa com o presidente Lula na segunda-feira em Brasília - e sua rápida, porém produtiva, passagem pelo secretariado de Sérgio Cabral no governo do Rio de Janeiro permitem uma aposta em mudanças positivas na administração de uma das mais difíceis áreas do governo federal. Tudo a depender da capacidade que terá Minc de superar obstáculos íngremes no governo e no PT, seu partido.
A primeira armadilha a ser superada pelo deputado estadual petista, com apenas 17 meses de experiência em funções executivas, é a que tenta relacionar sua escolha ao relaxamento das normas para concessão de licenciamentos ambientais. Sairia Marina Silva, a pedra no caminho do desenvolvimento nacional, substituída por Minc, uma espécie de adereço de mão apenas para fazer cena diante da necessidade de projetos do PAC e a agroindústria deslancharem sem amarras ambientais. Não interessa ao país essa troca, e Minc faz bem ao alertar que não servirá de "biombo verde de uma política predatória".
Ele deve, ainda, se preparar para incompreensões em torno da acertada bandeira da desburocratização, para dar velocidade à avaliação de projetos - seja para aprová-los ou rejeitá-los, sem manobras protelatórias como parece ter se tornado norma no Ibama. Sempre haverá quem o acuse, como ocorreu no Rio de Janeiro, de ser leniente e ter passado para o "outro lado". A burocracia tanto é "mãe da corrupção" como pode servir de instrumento de veto por motivação ideológica.
Há uma zona cinzenta de confusão sobre o papel dos organismos ambientais: eles existem para sempre barrar todo e qualquer projeto de risco ou, diante de investimentos cruciais para a sociedade, agir visando a minimizar danos e oferecer alternativas de menor custo ambiental? Realista, Minc, com a experiência de ter desburocratizado o setor no Rio de Janeiro e ajudado a aprovar em tempo recorde o Complexo Petroquímico do Rio (Coperj), projetado para Itaboraí, à beira da Baía de Guanabara, pergunta: "Como é que um governante vai dizer não para um investimento de R$ 1 bilhão?" Ou a um projeto-chave para o país?
Obrigado a transitar numa faixa estreita entre governadores, políticos e madeireiros sem sensibilidade ambiental e ecologistas radicais ativos no PT, duas correntes com representantes no governo, Minc precisará contar com o respaldo de Lula para mudar o eixo do Ministério do Meio Ambiente, retirando-o da posição que se colocou, ou foi colocado, de um bunker verde instalado em Brasília, algumas vezes refratário à realidade.
Para começar, o presidente deve voltar atrás e deixar com o novo ministro a condução do Programa Amazônia Sustentável (PAS), assim como atender à reivindicação de Minc de permitir a participação do ministério na formulação da política industrial e outras.
Entre tentativas de cooptação, de um lado, e, de outro, de "criminalização", Minc terá de provar que, assim como as origens amazônicas de Marina Silva não a descredenciavam a tratar da questão ambiental no país como um todo, sua história está longe de impedir que maneje de forma competente e realista o tema essencial da Amazônia.
O Globo, 17/05/2008, Opinião, p. 6
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