O Globo, Economia Verde, p. 26
Autor: VIEIRA, Agostinho
16 de Abr de 2013
Apertem os cintos
Os reais efeitos das mudanças climáticas ainda são um mistério, mas cientistas preveem aumento nos preços do cafezinho e do pão francês, prejuízos para a produção de chocolate e até voos mais turbulentos.
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
É fato que a temperatura do planeta está aumentando. Sobre isso não há dúvida. Os insuspeitos dados da NASA mostram um aquecimento superior a 0,8"C desde 1880 até hoje. Pouco? Certamente não. O problema é que mais de 60% deste crescimento aconteceram nos últimos 40 anos. Está subindo rápido. Os especialistas estimam que até o final do século o clima ficará entre 2"C e 6"C mais quente.
Se nada for feito até lá, é óbvio que teremos um mundo diferente do que temos hoje. Mas quão diferente ele seria? Não há muita esperança com relação às ilhas do Pacífico, mas as imagens de Londres, Nova York e Rio embaixo d`água ainda estão restritas aos filmes de ficção. O mesmo vale para uma Groenlândia plena de florestas ou uma Amazônia desertificada.
Não há provas de que isso venha a acontecer.
Alguns estudos científicos, no entanto, dão bons indícios de como as nossas rotinas podem mudar. Itens que fazem parte do nosso dia a dia tendem a desaparecer ou, pelo menos, ficar mais caros. É o caso de vários produtos agrícolas muito conhecidos e admirados. A produção de vinhos, por exemplo, na região de Bordeaux, na França, poderia cair até 60% por conta do clima mais quente e úmido.
A tradicional média e o pão com manteiga também podem ficar mais caros. Pesquisadores ingleses calculam que 40% das atuais áreas de plantio de café seriam afetadas nos próximos 70 anos. O trigo, principal matéria-prima do nosso pãozinho francês, seria uma das commodities mais prejudicadas. Não desapareceria, mas ficaria com o preço sensivelmente maior. O mesmo vale para o chocolate. Só que este tende a se tornar um produto de luxo. Feito para um pequeno grupo de privilegiados.
Na semana passada, cientistas britânicos chamaram a atenção para um efeito que já pode ser sentido hoje. E não é nada bom. Os voos de avião ficaram mais turbulentos nos últimos 50 anos e devem balançar mais nos próximos 50. O estudo considerou apenas a turbulência de céu limpo, aquela que não é visível a olho nu e não pode ser detectada por satélite. Ela está relacionada às correntes atmosféricas que ganhariam força com as mudanças climáticas. Ou seja, esqueçam o vinho e o cafezinho. Chocolate? Nem pensar. Tratem de apertar os cintos.
O Globo, 16/04/2013, Economia Verde, p. 26
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