O Liberal-Belém-PA e Estado de S. Paulo-São Paulo-SP
27 de Set de 2004
Eles são uma minoria dentro de uma minoria e têm histórias muito parecidas. Quase todos nasceram em lugarejos afastados da cidade, tiveram uma infância pobre, enfrentaram preconceito e dificuldades para estudar, mas hoje são, ou estão a caminho de se tornar, mestres ou doutores. São os índios que, com muito esforço e dedicação, concluíram a faculdade e agora fazem ou já têm pós-graduação. Não passam de duas dezenas, mas são a voz e o orgulho de seus povos.
Segundo dados da Fundação Nacional do Índio (Funai), há no Brasil 400 mil indígenas, de 215 etnias, que falam 180 línguas. Desses, apenas 1.300, ou 0,32%, conseguiram ingressar num curso superior. O número dos que foram adiante é menor ainda. Menos de 20 chegaram ao mestrado e apenas 2 alcançaram o doutorado. Um deles é o terena Rogério Ferreira da Silva. Desde fevereiro de 2003, ele está no programa de doutorado da Universidade Estadual de Londrina (UEL), no Paraná, mas vem desenvolvendo seu trabalho de tese na Embrapa Agropecuária Oeste, unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), que fica em Dourados, em Mato Grosso do Sul.
Pertencente a uma nação de agricultores natos, foi natural a escolha de Rogério pela faculdade de Agronomia, concluída em 1995, na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). "Desde criança até os 17 anos eu trabalhei na roça com meus pais", conta. "Presenciando todos os problemas enfrentados por nós e pela aldeia busquei uma alternativa que considerava mais promissora: o caminho dos estudos acadêmicos. Meu objetivo era e ainda é adquirir conhecimentos e buscar soluções dos problemas da nossa comunidade", explica.
Luta - Objetivo semelhante impulsionou a também doutoranda Maria das Dores de Oliveira, índia pancararu. Ela faz doutorado em lingüística, na Universidade Federal de Alagoas (Ufal), onde se graduou em Pedagogia e História. "Eu sempre quis estudar", diz. "Pois percebi desde cedo que quanto mais eu soubesse mais eu poderia lutar pelo meu povo e ajudar outros povos indígenas com o meu trabalho e com a minha voz."
Lutar pelo seu povo e dar voz a ele parece mesmo ser a grande motivação dos indígenas que decidem fazer pós-graduação. "A situação da minha gente é que me levou a ser sociólogo e lingüista", diz, por exemplo, o índio xoclengue Nanblá Gakran, graduado em Ciências Sociais pela Universidade do Vale do Itajaí (Univale), de Santa Catarina, e mestrando de lingüística na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). "Depois de concluir o mestrado, vou voltar para minha aldeia, em Ibirama (SC), para trabalhar no resgate da língua da minha tribo."
Para a paresí Francisca Novantino Pinto de Angelo, estudar é o único caminho para os índios conseguirem conquistar o respeito da sociedade brasileira. Ela é formada em História pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) e agora faz mestrado em Educação na mesma instituição. "A educação escolar para nós é o instrumento de defesa dos nossos direitos", explica. "Com ela a gente busca melhorar as condições de vida do povo indígena, assim como compreender os códigos complexos da sociedade ocidental para colocá-los a nosso serviço."
Por isso, eles não se rendem diante dos obstáculos. Um dos maiores, sem dúvida, é o preconceito. Nascida na periferia de Cuiabá, em 1960, Francisca não escapou dele. "Tudo o que consegui foi com muita dificuldade, sofrendo preconceito, discriminação e resistências", diz. "Tive de enfrentar a desconfiança e o descrédito. Só pude alcançar os meus objetivos com o apoio do meu povo e a certeza do retorno para a comunidade indígena direta ou indiretamente."
O xoclengue Gakran também sofreu com a discriminação. "O preconceito é demais", diz. "Como somos uma das únicas etnias a manter nossos nomes indígenas nos documentos, sofri muito. Era e ainda é difícil arranjar trabalho ou alugar uma casa. Aqui em Campinas mesmo, uma mulher deixou de alugar uma casa para mim depois que soube que eu era índio."
O terena Silva também teve de vencer a falta de dinheiro ao longo do caminho até o doutorado. Nascido em 1969 na aldeia Cachoeirinha, no município de Miranda, em Mato Grosso do Sul, aos 17 anos ele deixou a tribo, onde estudou até a 8ª série, e foi para um colégio técnico em Cuiabá, cursar o equivalente ao ensino médio. Depois de muita luta, ele fez mestrado e doutorado com a ajuda da Funai.
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