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Apagão atinge dez Estados e o Distrito Federal

OESP, Economia, p. B3
20 de Jan de 2015

Apagão atinge dez Estados e o Distrito Federal
ONS diz que uma das causas do problema foi o pico de consumo, mas ministro Eduardo Braga afirma que falha foi numa linha de Furnas

André Borges, Anne Warth, Tânia Monteiro, Eduardo Rodrigues - O Estado de S. Paulo

BRASÍLIA - O cenário complicado do setor elétrico ganhou mais um ingrediente nesta segunda-feira, 19, com um apagão que afetou pelo menos dez Estados e o Distrito Federal. As explicações do governo para o problema, que ocorreu à tarde, foram demoradas e apontaram algumas divergências.
Em nota, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), informou que o problema foi provocado por "restrições na transferência de energia" das Regiões Norte e Nordeste para o Sudeste, "aliadas à elevação da demanda no horário de pico". O ministro de Minas e Energia, Eduardo Braga, no entanto, afirmou que o problema foi provocado por uma falha numa linha de transmissão da estatal Furnas, mas sem relação com um pico de consumo.
"Houve um problema de equipamento. Se não houvesse essa falha técnica, não teria a queda de energia. Na semana passada, houve um pico de consumo e o fornecimento não foi afetado", disse Braga. Questionada pelo Estado, Furnas informou que não havia registrado nenhum problema em suas operações de geração, e também não mencionou a ocorrência em sua linha de transmissão.
O apagão, que começou por volta das 14h30, durou mais de uma hora e chegou a parar uma linha do Metrô de São Paulo. Foram afetadas diversas regiões de São Paulo, Rio, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além do DF.
A falta de energia deixou a presidente Dilma Rousseff muito preocupada, segundo assessores do Planalto. Dilma havia se reunido pela manhã com Braga para discutir a concessão de subsídios ao setor. Por telefone, passou a tratar do apagão. "A presidente ficou muito irritada", disse um auxiliar. Dilma "cobrou explicações plausíveis" para o ocorrido, que considerou "muito grave".
Apesar de afirmar que a causa do problema foi a falha na transmissão, Braga disse que só o ONS poderia esclarecer o que aconteceu. "Estamos pedindo esclarecimentos técnicos (ao ONS). Queremos entender como a falha do equipamento afetou a frequência do sistema", disse Braga.
De acordo com o ONS, o pico de consumo na tarde desta segunda-feira provocou variações na rede elétrica nacional. Essa instabilidade derrubou a geração de 11 usinas em operação no País, entre elas a termonuclear Angra I, no Rio de Janeiro.
Para restabelecer a normalidade no abastecimento e evitar um blecaute geral, o ONS optou por reduzir a carga de distribuidores do Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Essa ação, de acordo com o operador, afetou menos de 5% da carga total do sistema.
Explicações. O governo Dilma vem sofrendo com apagões desde o primeiro mandato. Dilma foi informada sobre o novo caso quando estava reunida com os chamados "ministros da Casa". O tema se transformou no principal assunto do encontro. Dilma passou a ligar para Eduardo Braga, exigindo explicações sobre o ocorrido. E determinou a busca de soluções para evitar problemas semelhantes. A presidente não quer nem ouvir falar em contenção de consumo de energia. A maior preocupação de Dilma é a persistência do intenso calor em todo o País e a alta de consumo de energia. Dilma determinou a mobilização de todos os técnicos do governo para evitar novas "falhas".

Sinais de crise já vêm desde 2012

CENÁRIO: André Borges

O governo pode culpar São Pedro o quanto quiser, mas é consenso entre os especialistas na área que a crise que tem contaminado todo o setor elétrico poderia ter sido atenuada, caso medidas de redução do consumo tivessem sido tomadas. À parte a lambança financeira que tomou conta do setor, a crise operacional da geração de energia já dava sinais claros de seu potencial de estragos ainda em 2012.

Depois de encarar o fantasma do apagão em 2013, sem ter adotado medidas firmes ou campanhas que motivassem uso racional de energia, o governo mergulhou no período eleitoral no ano passado. Medidas de racionamento, que já eram tratadas como tabu pela cúpula do setor elétrico, passaram a ser termos proibidos no governo. Com os reservatórios minguados e as usinas térmicas no limite das operações, o País atravessou o ano sem cortes de energia, como prometeu o governo, mas a fatura dessa estratégia arriscada chegou.

Os grandes reservatórios das hidrelétricas passaram boa parte de 2014 colaborando com a maior parte da geração do País. O entendimento dos especialistas é de que a preservação das barragens poderia ter sido maior se medidas de racionalização de consumo tivessem saído do papel. Não se trata de punir o consumidor que usa mais energia. Antes disso, há espaço para premiar o usuário que reduz o consumo: quanto menos kW utilizado, por exemplo, maior a taxa de desconto na conta de luz. O governo, no entanto, ainda insiste que medidas desse tipo não são necessárias e aposta suas fichas na "bandeira tarifária", que elevou a conta em R$ 3 para cada 100 kWh consumido. Na prática, o efeito da medida sobre o consumo diário do cidadão é questionável. Para as distribuidoras de energia, a cobrança pode até elevar o caixa em algumas centenas de milhões de reais. Para o consumidor, é muito pouco para convencê-lo a desligar o ar condicionado, às 14h, depois de voltar do almoço, debaixo de um sol escaldante.

OESP, 20/01/2015, Economia, p. B3

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