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Aos 100 anos, a represa agoniza

OESP, Cidades, p. C6
25 de Ago de 2006

Aos 100 anos, a represa agoniza
Assoreamento, ocupação irregular e lixo destroem reservatório

Paulo Baraldi

Responsável pelo abastecimento de água de 20% da população da Grande São Paulo, a Represa Guarapiranga está comemorando 100 anos, mas o cenário não está para festas. O assoreamento provocado pela ocupação no entorno do manancial faz a represa parecer uma poça d'água em alguns pontos. De 80% a 90% das ocupações são irregulares, em sua maioria formada por favelas, segundo Celso Saes, coordenador do Pólo de Fiscalização Integrada, parceria dos governos municipal e estadual, que atua na região. Quando foi inaugurada, a represa tinha até 19 metros de profundidade. Freqüentadores dizem que hoje chega a três.

Há uma semana, o primeiro octocampeão mundial na classe Laser de Vela, Robert Scheidt, encalhou seu barco na represa. O atleta começou a treinar aos nove anos na Guarapiranga e diz que está "no limite para velejar de Star (categoria da regata) ali". A falta de chuva contribui para o problema. Nesta semana, a Guarapiranga registrou o nível mais baixo do ano.

"No máximo mais um mês e não conseguiremos colocar o barco na água", afirma Scheidt. Os barcos a vela possuem uma quilha (espécie de âncora) com pelo menos um metro de profundidade abaixo do casco. "No último final de semana, eu e o Bruno Prada (parceiro na categoria Star) pudemos perceber a formação de pequenas ilhas, tão baixo é o nível de água."

Em até dez dias, os três subprefeitos das regiões cortadas pela represa (Capela do Socorro, M'Boi Mirim e Parelheiros) vão apresentar um projeto ao prefeito Gilberto Kassab (PFL) para tentar conter o problema. Junto com um representante da Empresa Metropolitana de Águas e Energia (Emae), eles fizeram uma passeio de lancha pela Guarapiranga na quarta-feira. Querem barragens nos afluentes que deságuam no local para impedir a entrada da sujeira trazida das favelas.

Segundo Lacir Baldusco, subprefeito de M'Boi Mirim, na temporada de chuvas, as algas e o lixo se desprendem das margens e vão para o centro da represa. "Com o tempo, voltam para as bordas. Se os córregos não forem tratados, isso não vai ter jeito. É como enxugar gelo."

Com 639 km quadrados de área, a bacia da Guarapiranga abrange ainda os municípios de Itapecerica da Serra, Embu, Embu-Guaçu, Juquitiba, São Lourenço da Serra e Cotia.

Os clubes náuticos localizados nas margens da represa assistem à evasão dos sócios. O vice-presidente do Clube Náutico Paulista, Vicente Josil Esquillaro, conta que ancorava seu barco ao lado do restaurante do clube e fazia seus pedidos. Hoje, o restaurante está a uma distância de dois ou três metros da água. Segundo ele, o clube não fecha as contas no vermelho graças ao aluguel do salão de eventos.

Palco de grandes competições e responsável pela formação de importantes velejadores, entre eles o próprio Scheidt, o Yacht Club Santo Amaro não tem eventos programados para este semestre e fez poucos no anterior. O gerente Vagner Mallia disse que a situação é tão crítica que terá de demarcar um corredor para navegação. Ele quer fazer um convênio com outros clubes para facilitar o socorro a eventuais barcos encalhados.

OESP, 25/08/2006, Cidades, p. C6.

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