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Antropólogos indígenas do Alto Rio Negro lançam livros sobre conhecimento do povo Tukano

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Autor: Elaíze Farias |
25 de jun de 2019

No meio científico no qual ingressaram a partir de 2010, os indígenas João Paulo Barreto, Gabriel Sodré Maia, Dagoberto Azevedo e João Rivelino Barreto, da etnia Tukano, precisaram lidar com os inúmeros conceitos acadêmicos do mundo do "branco" durante sua passagem pelo mestrado e pelo doutorado no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Amazonas (PPGAS-UFAM).

Eles não foram alheios ao rigor acadêmico, mas decidiram criar seus próprios conceitos, com base nos ensinamentos dos ancestrais de seu povo e nas suas histórias de vida. Assim, romperam com uma tradição de séculos e assumiram o papel de sujeitos de seus estudos. Deste engenho intelectual, surgiu a tríade: Bahsese, Bahsamari e Kihti-uküse. Os fundamentos destes conceitos estão nas dissertações de mestrado dos quatro indígenas Tukano (autodenominados Yepamahsã), naturais da região do Alto Rio Negro, norte do estado do Amazonas, que acabam de ser publicadas pela Editora da UFAM e pelo Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI), grupo ligado ao PPGAS.

O lançamento da coleção "Reflexividades Indígenas", que reúne as quatro obras, acontece nesta quarta-feira (26), às 15h, na sede do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi (rua Bernardo Ramos, 97, Centro de Manaus).

Um dos livros tem o título "Agenciamento do mundo pelos Kumuã Yepamahsã: o conjunto dos Bahsese na organização do espaço Di ´ta Nuhku", e é de autoria de Dagoberto Azevedo. O outro, "Formação e transformação de coletivos indígenas do noroeste amazônico: do mito à sociologia das comunidades", é de João Rivelino Barreto. Os demais livros da coleção são: "Waimahsã - peixes e humanos", de João Paulo Barreto; e "Bahsamori - o tempo, as estações e as etiquetas sociais dos Yepamahsã (Tukano)", de Gabriel Sodré Maia.

Um quinto livro, produzido conjuntamente, também faz parte da programação de lançamento. O título é "Omerô - Constituição e circulação de conhecimentos Yepamahã (Tukano)", de autoria dos estudantes indígenas, não-indígenas e professores do NEAI.

Em entrevista à Amazônia Real, João Paulo Barreto diz que as obras são baseadas nos ensinamentos e nos conhecimentos dos mais poderosos especialistas do Alto Rio Negro - Kumu, Yai e Bayá - e transmitidos através da interlocução entre os autores e seus familiares, particularmente pais e avós.

Barreto destacou que os conhecimentos dos indígenas do Alto Rio Negro (e, por extensão, dos povos indígenas do Brasil) têm sua "própria lógica e importância". O mesmo pode-se dizer, segundo ele, da organização desses conhecimentos em uma narrativa, na qual está descrita toda a estrutura étnica de seu povo e de seus respectivos clãs: construção de sociedade, relações interpessoais, relações com os espaços físicos, regras e funções sociais, tabus e proibições alimentares, etc.

"Quando surgiu a possibilidade de nós, estudantes indígenas, entrarmos na universidade, tivemos a chance de promover uma reflexibilidade sobre nosso conhecimento. Não era apenas aprender os conceitos ocidentais da antropologia ou de qualquer outra área. O nosso desejo sempre foi mostrar que nosso conhecimento está além das narrativas míticas. Está além da literatura que foi construída desde os primeiros contatos com naturalistas, com os missionários e com os antropólogos", disse Barreto, que nasceu na comunidade São Domingos, no rio Tiquié, afluente do rio Negro, na fronteira com a Colômbia.

Ele diz que a proposta dos antropólogos indígenas é tomar o caminho inverso do que antropólogos que os precederam fizeram. Sendo assim, eles propõem uma troca de conhecimentos entre os indígenas e não-indígenas, desde que seja no mesmo nível de importância.

Dagoberto Azevedo, junto com Gabriel Sodré Maia, foi o primeiro estudante indígena do país a escrever toda sua dissertação de mestrado na língua nativa, o tukano. Agora, o trabalho científico está transformado em livro, traduzido para a língua portuguesa. Nascido na comunidade Mahawi´í Tuhkuro, no rio Tiquié, Azevedo conta que a publicação dos livros alcança um dos objetivos do grupo de mestrandos e doutorandos do PPGAS da UFAM.

"Apesar de termos nossas dissertações no banco de dados da universidade, estamos dando um outro passo, que são os livros. Antigamente, os conhecimentos eram no falar, apresentado oralmente. Hoje, temos a escrita. E estamos nós próprios falando. Alguns perguntam: 'quais os teóricos que estão embasando seus conceitos'? Eu digo: 'são nossos próprios especialistas'. São nossos Kumu, Yai e Bayhá", salientou Azevedo, em entrevista à Amazônia Real.

A floresta fala

Ao entrarem na universidade, os quatro antropólogos indígenas observaram que o vasto campo de conhecimento de seus ancestrais não poderia se limitar a uma fonte de informação meramente descritiva. Para Gabriel Maia, os especialistas indígenas podem, sim, ser vistos como detentores de saberes, capazes de "discutir simetricamente" com outros conhecimentos e sem divisões classificatórias, método comum na formação ocidental.

"Não é como a física, a educação ou a química. Para nós, não tem classificação. Quem quiser adentrar em cada gavetinha, pode. Mas quando a gente fala, dentro de um curso, 'no conhecimento indígena, a mata tem vida', nós indígenas estamos dizendo que temos respeito pela floresta e que há seres responsáveis por essa floresta. Os outros podem dizer: 'esses caras estão malucos!'. Mas é o nosso conhecimento", diz Gabriel Maia, nascido na aldeia Pato, no rio Papuri, no distrito de Yawaretê.

Para Gabriel Maia, os estudos feitos por eles consistem, também, em um modo de visibilizar a identidade indígena, que permanecerá, mesmo com a dinâmica de transformação da sociedade e do avanço da modernidade.

"Nossos antepassados tinham outro conhecimento, outra formação. Se formaram na profissão deles. Nós, na academia, somos mestres e doutores. Mas não vamos atuar no que eles atuam. Um Yai bem formado, bem preparado, é capaz de olhar como um raio-x. Somos de outra geração. E na futura geração, não serão mais nem acadêmicos, nem especialistas, nem essa formação específica de ouvir conhecimentos de madrugada. As futuras gerações só vão conhecer a partir da escrita em português e em tukano. Isso amplia o conhecimento e valoriza a identidade. Quem nasce agora, já nasce falando português. Ele continua Yepahmahsã, mas com outras mentalidades e tecnologias", explica Gabriel Maia.

Maia complementa: "Se a gente entrar no perfil de um acadêmico, um mestre ou um doutor, só visando as teorias ocidentais, nós estaremos escondendo nossa identidade. Por isso, decidimos levar nosso conhecimento indígena para discutir simetricamente, porque está na hora de discutir simetricamente. A oralidade está sendo transformada em livros agora, porque no mundo acadêmico o que prevalece não é a oralidade, é a escrita. Estamos batendo a porta das grandes universidades, mostrando o que o conhecimento indígena está querendo dizer ao mundo", explica o antropólogo.

Aéreo, terra-floresta e mundo aquático
Os conceitos Bahsese, Bahsamari e Kihti-uküse formam o que os indígenas chamam de rede cosmológica Tukano. Não há uma tradução literal dessas palavras para o português.

Bahsese é uma espécie de ponte entre a comunicação do especialista indígena (em geral o Kumu e o Yai) com os waimahsã, seres que habitam os ambientes da natureza e que mantêm permanente diálogo e vínculo como os humanos. O Bahsamari compõe as expressões musicais, rituais de cantos, danças, instrumentos musicais e eventos festivos que acontecem em determinadas épocas. Kihti-uküse forma o conjunto de narrativas históricas dos demiurgos (criadores do mundo e dos seres) e dos heróis culturais.

Estes conceitos, conforme os indígenas explicam, não estão separados e é exatamente por este motivo que devem ser estudados conjuntamente.

"Os quatro livros são complementares. Dividimos os temas em três grandes espaços cosmos: espaço aéreo, terra-floresta e espaço aquático. Essa noção é fundamental. Minha dissertação dedica-se ao espaço aquático: detalhes, seres que habitam, relações", diz João Paulo Barreto.

"Temos que estar atentos às mudanças de constelação para os cuidados e noção de saúde-doença. É disso que o livro do Gabriel fala. Já o Dagoberto estuda a terra-floresta e os seres que habitam nela. São conjuntos explicativos sobre como enxergamos esses espaços. A nossa coleção é complementar. O João Rivelino, por exemplo, trata da hierarquia social, sua arte de diálogo, do nosso povo", diz Barreto. Seu principal interlocutor e informante foi e continua sendo seu pai, Ovídio Barreto, Kumu que atende no Centro de Medicina Indígena.

Órfão de pai e avô ainda muito jovem, Dagoberto Azevedo afirma que seu diálogo e aprendizado com os conhecedores do Alto Rio Negro aconteceram em fóruns de discussão e eventos organizados na sua região de origem. Muitos desses encontros aconteceram em programações coordenadas por organizações não-governamentais (Ongs).

"No tempo cronológico, os primeiros conhecimentos sobre nossa história começaram com missionários salesianos. Depois, chegaram as Ongs, que incentivaram [os indígenas] a escrever. Veio o antropólogo, fazendo as revisões e as versões dele na língua portuguesa. Aí chega a gente, os filhos deles [especialistas indígenas], nossos parentes, nas universidades. Resultado disso são esses livros da pessoa que vivenciou. A nossa literatura ficava um pouco escondida nas publicações das Ongs e missionários. A gente precisava dar outro salto da produção de nossos conhecimentos", conta Azevedo.

Os autores dos livros que serão lançados integram um grupo maior do Núcleo de Estudos Amazônia Indígena (NEAI) da UFAM, que é formado, no total, por 12 estudantes, além dos coordenadores, os professores Gilton Mendes e Carlos Machado Dias. A maioria deles ingressou no PPGAS da UFAM por meio de cotas e de políticas afirmativas.

João Paulo Barreto, porém, prefere descrever a entrada dos estudantes indígenas como "uma oportunidade de pensar, debater e desafiar". Ele diz que tão logo os primeiros estudantes indígenas entraram para o mestrado em Antropologia da UFAM, foi criado um colegiado para discutir a presença deles na universidade e para apresentar as demandas ao programa e a "reivindicar o direito à diferença".

"Toda academia tem suas regras. Estamos utilizando a antropologia como instrumento para promover o debate sobre os nossos conceitos. Isso, na medida em que somos falantes da nossa língua e de outra cosmologia; na medida, também, em que é possível entender outras lógicas. Daí, podemos dialogar", diz Barreto.

Programação:

Lançamento da coleção "Reflexividades Indígenas"

Dia: 26 de junho de 2019

De 15 às 17h - Coquetel de lançamento dos livros da coleção "Reflexividades Indígenas"

De 17h às 22h - Festa e Forró indígena (Cuximauawara).

Endereço: Rua Bernardo Ramos, 97, Centro Histórico (próximo ao Paço Municipal, passando o Museu da Cidade de Manaus.)

Contato: 9 9378-1555 ou 9 9285-4030

Os livros podem ser comprados durante o evento e depois ficarão disponíveis para a venda na sede do Centro de Medicina Indígena Bahserikowi.

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