Diário Catarinense-Florianópolis-SC
17 de Fev de 2002
"Os índios foram o público da primeira missa celebrada no Brasil. Eles foram solidários com os cristão no primeiro momento. Mas, no decorrer da história, a recíproca não foi verdadeira. A começar pelo fato de que a religiosidade indígena não foi respeitada". A opinião é do coordenador geral de Direitos Indígenas da Funai, Marcos Terena. Agora, a seu ver, a Igreja tem uma grande possibilidade de corrigir os erros do passado - principalmente no que se refere ao pecado social cometido contra os povos.
Para a antropóloga Maria Fátima Roberto Machado, supervisora do Museu Rondon da UFMT, esta reflexão pode começar pela atuação das missões religiosas em território indígena. "Espero que a Campanha da Fraternidade consiga abrir um diálogo entre as próprias missões, que hoje agem de forma isolada, e competindo entre si. É preciso haver mais fraternidade entre elas". Ela considera que a autocrítica da Igreja Católica, que levanta a questão indígena como bandeira para este ano, é fundamental para que possa repensar sua história - de forma a não repetir os mesmos erros.
Catequizar índios e impor uma crença que não cabe em sua cultura pode parecer assunto para livros de História. Mas não é. Em Mato Grosso, existem inúmeras missões católicas e protestantes atuando em áreas indígenas, e, muitas vezes, não se tem muita clareza do tipo de trabalho que desenvolvem por lá.
"No estado, ainda existem missões religiosas com postura não muito democrática", alerta Maria Fátima Machado. Dentre as atividades religiosas cravadas nas aldeias, é entre os protestantes que a nuvem de mistério permanece mais pesada. "É uma caixa preta", comparou a antropóloga. "Ninguém sabe nada sobre a atuação delas".
Os protestantes vêm ganhando cada vez mais espaço, antes predominantemente católico. Segundo Maria Fátima Machado, a educação é usada como porta de entrada para a inserção dos religiosos dentro das aldeias. Uma vez inseridos, começam as ameaças: "Eles usam os índios como agentes de dominação religiosa", alertou - acrescentando que a sociedade não tem o menor controle sobre esse processo.
Esse descontrole, segundo ela, acontece na contramão da legislação federal, que estabelece os limites da ação religiosa em território indígena. "Não estou certa de que as missões respeitem esta lei", opinou. A seu ver, é preciso avaliar o papel das igrejas - já que o risco de dominação cultural não é pequeno.
Esse risco, para a antropóloga, surge com uma dupla face: de um lado, a missão tem um lado puramente religioso, mas, por outro, há um aspecto que caracteriza como "empresarial" - é a "empresa da salvação", que busca "vender" a redenção para os índios. E quem comprar esse "bem" pode estar fazendo secar suas próprias raízes.
Esse processo pode, em muitos casos, ter ganho corpo sobre as próprias necessidades dos índios. A falta de recursos leva à carência de atendimentos - inclusive na educação. A educação é o que os religiosos oferecem aos povos aonde chegam. Os povos os aceitam em seu território, mas "compram", no mesmo pacote, uma ideologia que não cabe em seu universo cultural. E a cultura rui pelas bases. Quando esse circuito se fecha, o que era a perspectiva de atendimento de uma necessidade transforma-se em ameaça
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