O Globo, Sociedade, p. 49
Autor: OLIVEIRA, Flávia
17 de Ago de 2014
Antes que seja tarde
Governos têm de envolver brasileiros na crise da água, que afeta abastecimento, geração de energia e produção de alimentos
Flávia Oliveira
É espantosa a resistência dos governos em incluir a população brasileira no debate sobre a escassez de água. A oferta é crítica tanto para geração de energia quanto para o abastecimento humano, em particular, em São Paulo. Periga chegar na produção de alimentos. Mas não há sinal de campanha pela racionalização do consumo. Obcecadas pelo calendário eleitoral, autoridades federais e estaduais veem desabar o nível de armazenamento de reservatórios e represas, sem esboçar reação. Desprezam o potencial de eficiência disponível numa sociedade acostumada ao desperdício. Quando agirem, poderá ser tarde.
O volume de chuvas do início de 2014 foi o terceiro pior desde os anos 1930, informou a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), no fim do primeiro trimestre. Os reservatórios das hidrelétricas do sistema Sudeste/Centro-Oeste, o mais importante do país, terminaram abril com 38% da capacidade. Foi o terceiro ano seguido de queda. Estavam com 88% de armazenamento em 2011; 72%, em 2012; e 63%, no ano passado. No Sistema Cantareira, que abastece de água quase 8,5 milhões de habitantes de São Paulo, o total armazenado, na última sexta-feira, estava em 13,2%, já incluído volume morto.
A falta de chuvas já instaurou crise federativa entre Rio e São Paulo; azedou as relações entre ANA (órgão regulador das águas), Aneel (energia) e Cesp; fez as termelétricas responderem por um quarto da demanda do país por energia. Dois anos atrás, forneciam 8%; as hidrelétricas, 91%.
O conjunto de fatores torna mais urgente a adoção de medidas para reduzir o consumo de água e luz. E os brasileiros parecem desejá-las. Na virada do mês, pesquisa do Ibope para a Associação Brasileira dos Comercializadores de Energia (Abraceel) informava que 83% dos entrevistados apoiariam campanha para economizar energia. Estima-se que, no país, 10% da eletricidade gerada são desperdiçados. Na água, o uso irresponsável eleva o consumo em 25%. São usuários que varrem calçadas com mangueira, se alongam no banho e escovam os dentes com a torneira aberta.
Numa rara iniciativa em prol da eficiência energética, a Light escalou a atriz Dira Paes e o humorista Marcius Melhem como protagonistas de uma campanha para reduzir o consumo de energia. Dar escala a esse tipo de ação faria bem não apenas ao sistema elétrico, mas também ao bolso dos consumidores, que têm à espreita reajustes de dois dígitos nas tarifas, por causa do uso contínuo das térmicas desde 2013.
No Brasil, falar de água é tratar também de comida e energia. Na semana passada, a petrolífera Shell e o Cebds, conselho de desenvolvimento sustentável, promoveram seminário sobre a interdependência das três áreas com representantes do setor privado, da sociedade civil e da academia. O país sempre se orgulhou da matriz energética predominantemente hídrica, mas, num cenário de mudanças climáticas e de escassez de água para abastecimento humano e cultivo de alimentos, é fundamental diversificar as fontes de geração.
As opções são múltiplas (eólica, solar, gás natural, biomassa, energia nuclear), mas pouco compartilhadas com a sociedade. As decisões políticas seguem arroubos conjunturais ou pressões setoriais. É urgente a discussão democrática sobre o aproveitamento e a preservação do recurso natural mais valioso deste século. A população brasileira precisa saber da crise da água em todas as dimensões. E decidir.
O Globo, 17/08/2014, Sociedade, p. 49
http://oglobo.globo.com/sociedade/antes-que-seja-tarde-13631520
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