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Análise: Brasil de Bolsonaro na ONU não existe

Valor Econômico - https://valor.globo.com/brasil/noticia
Autor: RAMOS, Adriana; CHIARETTI, Daniela
21 de Set de 2021

Análise: Brasil de Bolsonaro na ONU não existe
"Na maioria do discurso, ele mentiu. Quando foi sincero, foi vergonhoso", aponta Adriana Ramos, coordenadora do Instituto Socioambiental, o ISA

Por Daniela Chiaretti, Valor - São Paulo 21/09/2021

Durante nove minutos, o presidente Jair Bolsonaro falou na abertura da Assembleia das Nações Unidas de um Brasil que não existe a não ser no mundo paralelo de sua base eleitoral. Sua fala distorceu dados e manipulou informações. É um Brasil onde os povos indígenas vivem em paz, a democracia foi o mote das manifestações de Sete de Setembro e o país recuperou credibilidade externa.
Bolsonaro disse que o desmatamento na Amazônia caiu 32% em agosto em relação a agosto de 2020. Os dados do Inpe indicam isso. É verdade. A questão é que o patamar de desmatamento é muito alto e que comparar um mês com outro não diz nada. O que importa no desmatamento é a tendência, a direção da curva, o que está acontecendo no chão em seis meses. Neste campo, o desempenho do governo Bolsonaro até agora é internacionalmente conhecido com recordes de floresta vindo abaixo. O que vai acontecer nos próximos meses depende de comando e controle e de combate à ilegalidade da grilagem, no garimpo, entre os madeireiros e no tráfico. Bolsonaro foi repetitivo. Disse o que já havia dito em abril, que adiantou a meta de neutralidade de emissões de gases-estufa do Brasil de 2060 para 2050. Não falou sobre a questionada meta de reduções de gases-estufa para 2030, que permite ao país emitir mais do que antes acordado. É verdade que o Brasil tem uma boa legislação ambiental, como fez questão de afirmar. O que não disse é que seu governo tem se esforçado para alterá-la ou descumpri-la. O Código Florestal foi um pacto discutido com a sociedade, aprovado em 2012 e normatizado em 2014. Não está de pé. A agricultura de baixo carbono, o famoso plano ABC, foi criado em 2010, no segundo governo Lula. É uma ótima iniciativa e é verdade que o valor reservado a ele no Plano Safra aumentou agora mais de 100%. O problema é que é apenas 2% do total. Está longe de ser a prática predominante. Ao falar dos povos indígenas, Bolsonaro disse que vivem "livres" em áreas do tamanho da Alemanha e da França juntas.
Não disse que não demarcou nem um centímetro de terra indígena e que nem o fará, como sempre repete. Há duas semanas seis mil índios acamparam dias em Brasília, lutando pelo fim da tese ruralista do Marco Temporal. Bolsonaro defende a ideia e optou por não mencionar o caso na ONU.
Não precisa - as imagens do acampamento indígena na Esplanada rodaram o mundo.
Disse que 600 mil índios querem usar suas terras "para agricultura e outras atividades". Em primeiro lugar, as terras não são dos índios, são da União. Em segundo, fala sem nenhuma base do que a grande maioria dos índios quer.
"O discurso, com dados sem fundamento, foi voltado para reafirmar suas posições domésticas, inclusive a defesa do tratamento precoce (à covid) e a justificativa de não ter tomado vacina", diz Adriana Ramos, coordenadora do Instituto Socioambiental, o ISA.
"Ou seja, na maioria do discurso, ele mentiu. E quando foi sincero, foi vergonhoso", sintetiza ela.

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