O Globo, Economia Verde, p. 29
Autor: VIEIRA, Agostinho
05 de Set de 2013
Amigo, inimigo ou problema?
Agostinho Vieira
oglobo.globo.com/blogs/economiaverde
Apesar de toda a ousadia e dos anos de experiência, a Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos (NSA) ainda não chegou a uma conclusão sobre o Brasil.
Eles bisbilhotaram e-mails, telefonemas e torpedos de vários brasileiros, inclusive os da presidente Dilma, mas continuam em dúvida. Em um dos documentos revelados pelo "Fantástico" surgiu a pergunta: "Amigos, inimigos ou problemas?".
Na lista de espionados, além do Brasil, apareciam Egito, Índia, Irã, México, Arábia Saudita, Somália, Sudão, Turquia e Iêmen. Entendo o problema dos agentes da NSA, somos realmente um povo diferente, complexo, difícil de entender. Para os americanos, como diz a música do Caetano, "branco é branco, preto é preto e a mulata não é tal". Enquanto aqui a indefinição é o regime, lá "bicha é bicha, macho é macho e dinheiro é dinheiro". E esse, na verdade, é o nome do jogo: dinheiro.
Não dá para aceitar ou acreditar que todo esse aparato humano e tecnológico tenha como único objetivo a luta contra o terror. Assim como não era aceitável a tese de que os navios de guerra estacionados na costa brasileira em 1964 nos defendiam contra o perigo comunista. Naquele tempo e agora a luta é por mercados. Os interesses giram em torno do pré-sal, das compras governamentais, das grandes obras de infraestrutura e do gás. Inclusive o gás de xisto, nova menina dos olhos dos EUA.
Este, inclusive, seria um dos principais temas do encontro entre Dilma e Obama, em Washington, no final de outubro. Se é que ele vai mesmo acontecer. Os americanos esperam vender equipamentos e tecnologia para a exploração dessa polêmica fonte de energia no Brasil. Não foi por acaso que três secretários de Estado americanos, entre eles o de Energia, estiveram andando por aqui no mês passado.
O gás de xisto tem sido um dos grandes responsáveis pela recuperação econômica dos EUA nos últimos anos. Ele é mais barato que o carvão e que o petróleo, e as reservas em solo americano são abundantes. Além disso, emite menos gases de efeito estufa que os outros dois combustíveis. No entanto, os danos ambientais que ele pode provocar ainda não estão suficientemente identificados.
Esse tipo de gás fica impregnado nas rochas e a extração depende de uma técnica delicada, conhecida como "fracking". Ela injeta, com alta pressão, grandes quantidades de água, explosivos e produtos químicos. Nesse processo podem ocorrer vazamentos, contaminação de aquíferos e até pequenos terremotos. Aliás, quem gosta do tema deve ver o filme "Terra Prometida", de Gus Van Sant, escrito e interpretado por Matt Damon. Ele estará no Festival do Rio.
Os franceses já decidiram que não haverá exploração de gás de xisto no seu território. Eles aceitam invadir a Síria junto com os americanos, mas não querem correr o risco de contaminar as suas águas. Mas o maior problema deste gás não está nos problemas que pode vir a causar, mas nos efeitos indiretos que já está causando. Como as emissões de CO2 são menores, essa exploração adia ou aborta qualquer discussão mais séria sobre modelos de produção, estilo de vida e consumismo.
Há 20 anos, na Rio-92, o presidente George Bush, o pai, anunciou que "o estilo de vida norte-americano não estaria aberto a negociações". Nada mudou. O novo relatório do Painel Intergovernamental de mudanças climáticas (IPCC) que será apresentado no final do mês virá com uma certeza ainda maior de que o aquecimento global está muito mais próximo de 3"C ou 4"C do que de 2"C. As consequências serão terríveis, principalmente para os países mais pobres.
Imagine que o presidente Obama consiga provar para o mundo que o gás de xisto não causa mais danos do que benefícios. Imagine também que, com essa certeza, ele resolva trocar as usinas a carvão por modelos movidos a gás. Seria uma ótima notícia, certo? Certo. Mas ainda assim estaríamos longe de qualquer coisa parecida com uma economia de baixo carbono. Indispensável para que a humanidade tenha um futuro minimamente sustentável.
De volta ao Caetano, "os americanos representam boa parte da alegria existente no mundo". Verdade. Mas são responsáveis também por um padrão de consumo e de desperdício que não pode ser mantido e nem replicado. Um americano equivale a 20 chineses, já dizia Al Gore. Eles lideram o ranking histórico de emissões de CO2 e pouco fazem para reverter esse quadro. Torço para que o futuro me desminta. Mas hoje, se perguntarem: "Os EUA são amigos, inimigos ou problemas?". Eu sei o que responder.
E-mail: economiaverde@oglobo.com.br
3"C
O próximo relatório do IPCC, que será divulgado no fim do mês, virá com uma certeza maior de que o Aquecimento Global está muito mais perto de 3"C ou 4"C do que 2"C. As consequências serão terríveis, principalmente para os países mais pobres.
O Globo, 05/09/2013, Economia Verde, p. 29
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