O Globo, O País, p. 12
02 de Jun de 2011
Ameaçados de morte acusam policiais do Pará
Fábio Fabrini
MARABÁ E NOVA IPIXUNA (PA) - Acusados de omissão em casos de ameaça à comunidade do assentamento Praialta-Piranheiras, policiais civis e militares do Pará também teriam participado de um atentado, ao lado de um fazendeiro, para expulsar moradores do local no fim do ano passado. Conforme denúncia da Comissão Pastoral da Terra (CPT), cinco agentes atearam fogo em barracos de um sem-terra e obrigaram outro a fazer sua mudança, com a família, num carro da polícia. As vítimas estão na lista de ameaçados de morte elaborada pela CPT. O caso foi levado à Polícia Civil, que nesta quarta-feira não apresentou resultados da investigação.
Maranhenses que passaram quase toda a vida trabalhando como "agregados" em fazendas alheias, Francisco Tadeu Vaz Silva, de 42 anos, e José Martins, de 57, o Zequinha, foram atraídos ao Praialta pelos ambientalistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, mortos na terça-feira da semana passada, para ocupar terras em processo de legalização pelo Incra. Instalaram-se em abril de 2010, com a condição de não derrubar a floresta para criar gado, plantar ou vender madeira. Desde então, começaram a sofrer intimidações de fazendeiros que reivindicam a posse dos terrenos férteis, banhados por um afluente do Rio Tocantins.
Fazendeiro teria oferecido R$ 3 mil pela desocupação
Em 16 de novembro, segundo o relato dos dois, quatro policiais militares fardados e um civil, todos lotados em Nova Ipixuna, teriam aparecido armados com o suposto dono das terras, identificado como José Rodrigues, dando um ultimato para que se retirassem.
- Os soldados chegaram às 11h, me chamando de pedófilo e mandando sair. Os meninos que estavam na roça começaram a tirar tudo, mas eles perderam a paciência e tocaram fogo na palha dos barracos. Gente pobre não tem nada mesmo. O cachorro morreu sapecado. Sorte que meus documentos não estavam aqui - conta José Martins, que perdeu no atentado a moradia, a casa de farinha, a cisterna e o galinheiro.
Na mesma manhã, os policiais bateram na casa de Francisco Tadeu, mandando-o sair em até 24 horas. O fazendeiro ofereceu R$ 3 mil, sendo R$ 2 mil à vista, pela desocupação imediata do lugar.
- Só aceitei por causa dos policiais. Se não concordasse, eles avisaram: sairia dali algemado. Fiquei com medo. Se fosse só o Zé Rodrigues mandando, ficaria - assegura o agricultor.
Fechado o "acordo", a família começou a pôr tudo no carro da polícia parado diante da porteira. Em seguida, foi levada para o povoado de Pajé, onde havia morado por seis anos, e reinstalada em um barracão. Francisco Tadeu relata que foi levado para a delegacia de Nova Ipixuna, onde assinou um documento para oficializar a "venda":
- A gente foi espremido no carro da polícia, até com o cachorro. Eles diziam que tinha de ser rápido, porque não podiam fazer mudança de sem-terra.
A sorte virou no dia seguinte, por obra de José Cláudio e Maria do Espírito Santo. Os dois levaram os agricultores à CPT para registrar a queixa. José Martins foi orientado a refazer o seu barraco de palha no mesmo dia, para evitar que um novo morador ocupasse o local; e Francisco Tadeu a não receber o dinheiro prometido, voltando imediatamente para casa. Foi a pedido dos ambientalistas que os agricultores entraram para a relação de ameaçados de morte.
- O negócio foi desfeito lá, mas depois fiquei com medo. Ainda mais depois que eles (os ambientalistas) morreram. Eles é que defendiam a gente aqui - afirma Francisco Tadeu.
O advogado da CPT, José Batista Afonso, remeteu a denúncia às ouvidorias agrárias do Pará e do governo federal. Semanas depois, oficiou o caso à Delegacia de Conflitos Agrários (Deca) de Marabá, com cópia das declarações das duas vítimas. Segundo ele, a ação foi "totalmente ilegal".
Os moradores do assentamento reconheceram os policiais, mas afirmam que eles não prestam mais serviço em Nova Ipixuna. A delegacia da cidade não soube informar ontem o paradeiro dos agentes. O delegado responsável, José Humberto Melo Júnior, disse desconhecer a denúncia apresentada pela CPT e que só agora, com a morte de José Cláudio e Maria do Espírito Santo, o caso está sendo investigado - as duas vítimas prestaram depoimento nesta terça-feira. O delegado alegou não ter como identificar os envolvidos.
Em cinco dias de fiscalização na região, o Ibama aplicou R$ 752,3 mil em multas. Cinco madeireiras em Nova Ipixuna foram fechadas. Uma delas já tinha sido multada 18 vezes entre 1997 e o ano passado. Segundo o Ibama, a Serraria Tico-Tico Ltda tinha sido embargada em junho do ano passado e ontem foi novamente lacrada porque estava funcionando irregularmente. Os fiscais do Ibama também destruíram fornos ilegais de carvão. Assentados associados a madeireiros também foram autuados.
Não há pista ainda
Corpo a Copro
Luiz Monteiro dos Santos
NOVA IPIXUNA (PA). Antes do assassinato, os ambientalistas José Claudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo foram alvo não só de ameaças, mas de um atentado. Em entrevista ao GLOBO, o cunhado de José Claudio, Luiz Monteiro dos Santos, relata que um homem parou em frente à propriedade do casal e disparou um tiro, cerca de um mês antesda execução, na semana passada. Os dois pensavam em deixar a comunidade, mas foram mortos antes.
O Globo: Antes do assassinato de José Claudio e Maria do Espírito Santo, houve um atentado. Como foi?
Luiz Monteiro dos Santos:
A dona Maria estava estendendo uma roupa, quando escutou um assovio. Aí, o cachorro foi andando para lá. Ouviu-se o disparo, um tiro. A irmã dela escutou. Falou com ela (por telefone): "Maria, saia do terreiro, estão atirando aí, vão te matar". Ela disse: "Não, já estou dentro de casa".
Isso foi quando?
Luiz dos Santos: Uns 30 dias antes de o Zé Cláudio falecer.
Depois desse episódio, eles pensaram em sair daqui?
Luiz dos Santos: Pensaram em sair, já não estava dando. Já estavam vendo que o negócio ia pegar.
Por que não saíram?
Luiz dos Santos: Já estavam ajeitando para ir embora. Quando ele foi organizar isso aí, foi o tempo em que o mataram na estrada. Ia largar aqui, deixar um rapaz tomando conta e ia embora.
Há pista de quem cometeu o atentado?
Luiz dos Santos: Não, não tem.
A polícia investigou?
Luiz dos Santos: Estão investigando, dizem que estão investigando.
Não teve nada de concreto ainda?
Luiz dos Santos: Não teve nada de concreto. (Fábio Fabrini
O Globo, 02/06/2011, O País, p. 12
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