CB, Brasil, p. 9
14 de Mai de 2005
Ameaça que apavora mil cidades
Municípios espalhados pelo país enfrentam o problema das queimada como principal causa de danos à natureza. IBGE enxerga o nascimento de um novo Arco do Desmatamento, que vai do Acre até o Maranhão
Érika Klingl
O desmatamento e as queimadas prejudicam a vida dos moradores de cerca de mil municípios brasileiros, diz a pesquisa do IBGE em que os próprios prefeitos avaliam os danos ambientais. Ao contrário do que se poderia imaginar, esses municípios não estão concentrados na Amazônia. Espalham-se por todo o país. O desmatamento está entre os três maiores causadores de danos ambientais em 18 estados. As queimadas, em 14. Mas duas regiões específicas chamam a atenção dos pesquisadores: o oeste da Bahia e os estados localizados na margem norte do rio Amazonas.
O grande número de queixas de prefeitos de municípios do Amapá, do norte do Amazonas e de Roraima sobre devastação de vegetação nativa levou os técnicos do IBGE a suspeitarem da existência de um novo Arco do Desmatamento e das Queimadas. Ele se somaria à conhecida faixa que compreende o sudoeste do Acre, Rondônia, o norte de Mato Grosso, o sul e o leste do Pará e o oeste do Maranhão. "0 satélite ainda não deu o alarme, mas o gestor municipal já está detectando o nascimento de um novo arco", diz o pesquisador do IBGE Judicael Clevelário Júnior. Segundo ele, os motivos da devastação são os mesmos de sempre: extração de madeira, pecuária, plantio de soja e ocupação predatória.
Para o pesquisador, a sensibilidade dos gestores municipais nesse caso estaria antecipando um problema que, embora pequeno, pode rapidamente ganhar grande dimensão, fugindo ao controle e à fiscalização do poder público, como é o caso do que hoje ocorre ao sul e leste da Amazônia Legal, onde o controle de desmatamentos e queimadas ainda não foi alcançado. "Quanto mais cedo identificar melhor para corrigir o problema", alerta Clevelário.
Amazônia baiana
0 avanço da agricultura é o grande responsável pela devastação no oeste da Bahia. Se por um lado indica prosperidade econômica, por outro significa a ampliação das queimadas para apressar a preparação da terra a ser cultivada. As características da degradação ambiental no estado são tão acentuadas que o caso ganhou um apelido do pesquisador do IBGE. "E a Amazônia baiana", provoca. A região tem sido ocupada por agricultores do Sul e de Minas Gerais.
"Está ocorrendo a derrubada de grandes áreas, principalmente para o plantio da soja. E um processo rápido e muito parecido com o que ocorreu na Amazônia. Se não forem tomadas medidas agora, depois para controlar é muito complicado", adverte o pesquisador. As queimadas chegam até a beira dos rios da região. "As matas ciliares vão embora e as nascentes são destruídas. Os danos já chegaram a alguns afluentes do Rio São Francisco, como o Correntina", lamenta.
Os principais danos causados pelos desmatamentos e queimadas são a destruição da vegetação, a morte de animais, a extinção local de espécies, a perda de matéria orgânica no solo e a sua exposição à erosão. Além disso, contribuem também para o efeito estufa com a liberação de grandes quantidades de gás carbônico para a atmosfera e são também a causa de poluição do ar mais freqüentemente citada pelas prefeituras.
A pesquisa não se limita a apontar os problemas, mas também verifica como a ocorrência de interferências no meio ambiente recebe tratamento distinto nas regiões brasileiras. Se na Amazônia e no Pará o surgimento de queimadas é visto como sinal de degradação ambiental e fator de preocupação, em outras regiões do país as queimadas são associadas à chegada do progresso e ao desenvolvimento econômico.
Nestes casos, os gestores omitem as informações sobre queimadas com receio de que isso prejudique empreendimentos madeireiros, agropecuários e de mineração na região. Os casos mais significativos desta prática foram verificados ao longo da BR-163 (Cuiabá- Santarém), ao norte do Mato Grosso e a oeste do Tocantins.
Poluição agressiva
Engana-se quem pensa que a poluição do ar é fruto principalmente de fumaça de carros ou de fábricas. Pesquisa divulgada ontem pelo IBGE, com base em entrevistas com gestores, tenta derrubar esse mito. Para a maioria dos gestores, as queimadas e a poeira das vias não pavimentadas são os grandes responsáveis pela poluição do ar. 0 levantamento analisou as respostas dos 5.560 municípios brasileiros. A poluição do ar atinge 22% deles, sendo que as localidades que enfrentam o problema concentram quase metade da população brasileira, com 85 milhões de pessoas. 0 problema é mais freqüente entre as grandes cidades e atinge 75% dos 33 municípios com mais de 500 mil habitantes. Das cidades afetadas, 54% estão localizados no Sudeste.
Embora a industrialização tenha um peso forte na poluição das grandes metrópoles, as causas mais apontadas foram: queimadas (64%), a poeira levantada nas vias não-pavimentadas (41%), as atividades industrial (38%), agropecuária e pulverização de agrotóxicos (31%), além de veículos (26%). Em 70% dos municípios que se queixaram da poluição do ar, o problema é causado por dois ou mais fatores. Ipojuca (PE) foi a única que apresentou as nove causas de poluição: agropecuária, indústrias, queima de lixo, mineração, odores de lixo, queimadas, termelétrica, veículos e vias não-pavimentadas.
As queimadas predominam entre as cidades menores e atingem 61 % das localidades com até 20 mil habitantes. Entre os municípios de 20 mil a 100 mil moradores, este percentual sobe para 69%. Entre os municípios com mais de cem mil habitantes, as queimadas ficam em terceiro lugar no ranking de causas, atrás da atividade industrial e dos veículos automotores.
A pequena Jennyfe Fernanda, de 1 ano, assim como a maioria de crianças da sua idade, não pára quieta. Mas a menina muda a fisionomia rapidamente e começa a chorar toda vez que a mãe,Josiane Alves Rosendo, 20 anos, atravessa o campo de futebol que fica na frente de casa, na Estrutural, com ela no colo. Na verdade, ela ainda é muito nova para entender as conseqüências de morar ao lado de uma via sem -pavimentação, mas sente a dor da tosse que a terra no ar provoca. Jennyfe está gripada, já pegou pneumonia três vezes e foi internada recentemente. A mãe também gripada, reclama da situação em que vive, mas reconhece que não tem muita opção. "Moro com minha irmã e dois sobrinhos. Não tenho outro lugar melhor para criar minha filha', diz. (EK e HB)
Os desastres mais comuns
No Brasil, os desastres mais freqüentes são inundação, deslizamentos de encostas, secas e erosão. Apesar do dado ser do conhecimento de todos, assusta o número de municípios que enfrentam esses problemas. Entre 2000 e 2002, dos 2.263 prefeitos de cidades brasileiras, 41 % declararam ter sofrido algum tipo de alteração ambiental que afetou as condições de vida da população. Dessa, 16% registram deslizamento de encosta e 19% sofreram inundações.
CB, 14/05/2005, Brasil, p. 9
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