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Ameaça a Kyoto

CB, Opinião, p. 18
04 de dez de 2003

Ameaça a Kyoto

Está sob risco de permanecer como letra morta o protocolo assinado em Kyoto (Japão, 1997) em favor da redução gradual do aquecimento da Terra. A Rússia parece disposta a ignorá-lo em nome de interesses econômicos. A tendência ameaçadora, anunciada por assessor qualificado do presidente Vladimir Putin, surpreendeu os países-membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática reunidos em Milão (Itália). A convenção expressa o compromisso de deter o efeito estufa firmado por 160 países na Rio-92.

Eventual boicote da Rússia impedirá a entrada em vigor do acordo estabelecido em Kyoto. O país responde pela liberação na atmosfera de 17,4% dos gases tóxicos emitidos pelas potências econômicas. Se confirmada a ameaça russa, a ratificação do tratado não contará com a adesão mínima das nações responsáveis por 55% das emissões globais.

Putin com certeza colheu estímulo político para deixar em suspenso sua posição no exemplo legado pelo presidente George W. Bush. Em 2001, o inquilino da Casa Branca despertou indignação mundial ao declarar que os Estados Unidos abandonavam o Protocolo de Kyoto. As instalações industriais, a queima de combustíveis fósseis e dejetos tóxicos de outros equipamentos levam os EUA a despejar no ar dióxido de carbono e metano correspondentes a 36,1% dos produzidos nas economias desenvolvidas.

Kyoto é a esperança mais consistente de que a saturação pelo carbono seja reduzida em 5,2% a partir de 2012, com ponto de referência nos níveis registrados em 1990. Se a iniciativa alcançar fim catastrófico, caso a Rússia reforme sua antiga conduta favorável a Kyoto, será difícil conter um fenômeno que ameaça a própria vida na Terra. A radiação solar, depois de refletida sobre o planeta, continuará impedida de devolução adequada ao espaço uma vez represada pelo cobertor dos gases-estufa.

As advertências da comunidade científica mundial sobre a gravidade do problema, em virtude da progressiva eliminação da camada superior de ozônio, soam na consciência de certos governantes como cantilena enfadonha de utopistas desocupados. Tais estadistas nada projetam com a visão voltada para as gerações vindouras. Só conseguem enxergar o aqui e o agora. Na perspectiva dos atuais interesses econômicos, não há espaço para cogitações sobre o futuro.

Como o presidente Putin não retroagiu por ato formal de seu compromisso anterior, resta esperar que, atento ao clamor internacional, ratifique o pacto celebrado no Japão. Afinal, o estadista verdadeiro recusa governar com o olho centrado apenas no próprio umbigo.

CB, 04/12/2003, Opinião, p. 18

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