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A ameaça dos ecoterroristas

Veja, Ambiente, p. 66-67
11 de Ago de 2004

A ameaça dos ecoterroristas
Defensores dos animais trocam protestos pacíficos por táticas violentas

Gustavo Poloni

As polícias dos países europeus e dos Estados Unidos estão enfrentando uma nova ameaça terrorista. Os grupos investigados não levam nomes árabes como Al Qaeda ou Ansar al-Islam. Eles se identificam, em inglês, com alcunhas como Frente de Libertação Animal ou Pare o Laboratório de Primatas. Seus militantes aterrorizam funcionários de laboratórios científicos ou de redes de restaurantes para defender o fim dos experimentos com animais ou impedir as pesquisas e a venda de alimentos transgênicos. Invadir as empresas para destruir suas instalações ou libertar os animais também são táticas dos terroristas ecológicos. As autoridades não sabem como lidar com eles. É difícil enquadrar no Código Penal atos como o envio de embrulhos cheios de estrume para escritórios ou o hábito de entrar no quintal das casas para assustar os filhos dos gerentes dos laboratórios. Na Inglaterra, onde os grupos de defesa dos animais têm sido mais ativos, o governo estuda maneiras de coibir a ação dos ecoterroristas. Os mais radicais e violentos reúnem-se anonimamente em sociedades secretas. Ninguém sabe ao certo quem são seus membros. Empresários ingleses estão oferecendo quase 50 milhões de dólares a quem fornecer pistas que levem à prisão desses militantes. É o dobro do que o governo americano prometeu pela cabeça do ditador iraquiano Saddam Hussein.
O ecoterrorista típico é vegetariano, jovem, não usa nenhum tipo de produto de origem animal, incluindo couro e seda. Principalmente, considera perda de tempo participar de manifestações pacíficas. Sua indumentária inseparável é o capuz, para proteger a identidade. O alvo mais recente foi a Universidade de Oxford, na Inglaterra, que começou a construir no início do ano um laboratório de pesquisas sobre as causas de doenças imunológicas e do metabolismo, como leucemia, artrite, câncer e diabetes. Orçado em mais de 30 milhões de dólares, será um dos mais modernos do país quando a obra for finalizada, em dezembro de 2005. O laboratório de Oxford tornou-se alvo dos ecoterroristas porque seus cientistas utilizam cobaias animais. O grupo de defesa dos animais Pare o Laboratório de Primatas da Universidade de Oxford (Speak) não vê os avanços científicos como boa notícia. Os ativistas da organização passaram a ameaçar os executivos e os acionistas das empresas contratadas para a construção do laboratório. "Eu sei onde você mora" e "Vou tornar sua vida um inferno" foram algumas das ameaças enviadas por carta, fax e e-mail. Em seguida, os ecoterroristas incendiaram a fábrica e destruíram os caminhões de uma das fornecedoras de cimento da obra. Desde que os ataques começaram, em março, pelo menos quatro empresas já abandonaram o projeto e a construção do laboratório foi interrompida.
Os grupos ecoterroristas diferem em suas táticas. A Frente de Libertação Animal (ALF) invade laboratórios, circos e zoológicos para libertar os animais dos cativeiros. "Nossos ativistas abrem as gaiolas e levam o maior número possível de bichos para um lugar seguro", disse a VEJA Robin Webb, um dos 2.000 militantes da ALF. Ataques com bombas incendiárias às empresas que fazem pesquisas com animais também são comuns. O grupo Pare a Crueldade contra Animais em Huntingdon (Shac) costuma atear fogo nos carros estacionados em frente à casa de cientistas que trabalham em laboratórios que utilizam animais. Outra estratégia consiste em mandar cartas para os vizinhos acusando os pesquisadores de pedofilia. "Queremos que nossos ativistas se profissionalizem", declarou a VEJA Natasha Avery, porta-voz do grupo. Com esse objetivo, em setembro o Shac vai realizar na Inglaterra um seminário de quatro dias para 300 ativistas de todo o mundo. Na pauta, aulas de alpinismo para escalar paredes de fábricas, navegação, defesa pessoal e noções de direito penal. É de fazer inveja à Al Qaeda.

Veja, 11/08/2004, Ambiente, p. 66-67

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