CB, Política, p. 4
07 de Dez de 2015
Ameaça de retrocesso
Para especialistas, a insegurança política e os problemas na economia emperram ações urgentes em áreas como saúde, educação e meio ambiente
NATÁLIA LAMBERT
A possibilidade de o país parar por meses e a instabilidade política gerada pelo processo de impeachment preocupam representantes de setores estratégicos no país, entre eles educação, saúde e meio ambiente. O clima de apreensão maior está na saúde por causa da necessidade de se controlar a proliferação do Aedes aegypti em todo o país. Além da dengue e da chikungunya, o mosquito é vetor de transmissão da febre zika, que está provocando uma geração de bebês com microcefalia, especialmente no Nordeste brasileiro.
O presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva, Gastão Wagner, defende que o processo de impedimento da presidente não pode interferir nas ações do Ministério da Saúde, pois a pasta é o motor do Sistema Único de Saúde e a situação já está grave o suficiente. Wagner ressalta que há uma certa autonomia de custeio nos pagamentos aos hospitais, mas ele teme irregularidade nos repasses dos ministérios da Fazenda e do Planejamento. "Já está complicado de conseguir novos investimentos e expandir a rede, imagine se a pasta parar até a crise política acabar. O dano à sociedade é muito grande."
Para Wagner, a maior preocupação é com o atual surto de microcefalia causado pelo zika vírus. O especialista comenta que, mesmo com o sistema de saúde funcionando a pleno vapor, o desafio de combate ao mosquito é imenso. "Temos que mudar o padrão de enfrentamento em relação à dengue e às outras doenças, porque o sistema de controle está fracassado. Se instituirmos um padrão letárgico no enfrentamento, a tendência é de que essa tragédia aumente." A diretora-executiva do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), Ana Maria Costa, concorda que o momento é de muita preocupação e uma possível parada é temerária. "Não podemos dizer às pessoas 'olha, ninguém fica doente até os políticos se resolverem, tá?'. As coisas não funcionam assim."
Especialistas também temem que aconteça um retrocesso na educação. O professor da Universidade Católica de Brasília Célio da Cunha comenta que, nos últimos anos, o setor teve uma evolução em termos de orçamento e obteve muitas conquistas com programas como o Ciência sem Fronteiras e o Pronatec. "Toda essa crise afeta esses programas e iniciativas que estavam contribuindo com o desenvolvimento da educação. Até superarmos isso, tudo fica prejudicado."
Célio defende que o momento é de união de gestores da educação em todas as instâncias: federal, estadual e municipal. "Teremos que fazer um esforço muito grande para manter o nível adequado de desenvolvimento. Um esforço acima de qualquer interesse político. Será preciso organizar melhor o sistema e usar uma inteligência diferenciada. Podemos reagir com o sentimento de nacionalidade e compensar esse momento fazendo um enfrentamento da crise."
Terras
Em relação aos povos indígenas e tradicionais, o sócio-fundador do Instituto Socioambiental Márcio Santilli demonstra preocupação em relação aos conflitos agrários. Santilli ressalta que o país vivencia uma paralisia há cinco anos em relação à demarcação de terras indígenas, de territórios quilombolas, à criação de áreas de proteção ambiental e isso gera uma situação perturbadora para os envolvidos. "Esse tempo tende a aprofundar essa paralisia a estimular a eclosão de conflitos represados. Quando não há horizonte de superação, de solução, as pessoas passam a querer resolver os problemas por conta própria e isso é temerário", comenta.
CB, 07/12/2015, Política, p. 4
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