O Globo, Ciência, p. 28
17 de Jun de 2010
Ameaça às baleias
Encontro na próxima semana discute fim da moratória de 24 anos à caça do animal
Claudia Sarmento Correspondente - Tóquio
As baleias podem estar mais ameaçadas do que nunca. A próxima reunião anual da Comissão Baleeira Internacional (CBI), que começa semana que vem no Marrocos, tem em pauta o fim da moratória de 24 anos à pesca do cetáceo. A proposta a ser debatida - e que conta com o apoio de Japão, Islândia e Noruega - acaba com o programa científico, mas estabelece uma cota total de pesca de 1.800 baleias por ano, incluindo duas espécies ameaçadas de extinção. Ambientalistas temem que, se o plano for aprovado, a caça indiscriminada será retomada.
Apesar de todas as críticas internacionais, o Japão está fazendo campanha para derrubar a moratória.
E, segundo o jornal "Sunday Times", o país está travando um jogo sujo nos bastidores para conquistar os votos necessários: estaria comprando os delegados de países pobres e pequenos para conseguir derrubar a proibição e retomar a pesca comercial dos mamíferos.
Repórteres do jornal britânico se fizeram passar por representantes de um fictício ambientalista milionário e ofereceram dinheiro para que representantes de países como São Cristóvão e Nevis, Grenada, Ilhas Marshall, Kiribati, Guiné e Costa do Marfim votassem contra a proposta defendida pelo Japão. Durante as negociações, eles gravaram declarações de funcionários públicos revelando o "apoio financeiro" que teriam recebido do governo japonês.
O delegado de Guiné revelou aos jornalistas disfarçados que seu país recebe 7.900 libras anuais do Japão para fazer parte da CBI e a comitiva oficial tem todas as despesas pagas nas viagens, além de uma diária de US$ 300 para cada um. A diária de um ministro seria superior a US$ 1 mil.
Até prostitutas seriam oferecidas como suborno
O Ministério da Relações Exteriores do Japão negou as denúncias, afirmando que o país não cobre nenhuma despesa de membros da CBI, mas outros delegados confirmaram a ajuda japonesa. Em conversa com o "Sunday Times", o delegado da Tanzânia, Geoffrey Nanyaro, insinuou que, durante visitas pagas a Tóquio, até prostitutas são oferecidas. A reportagem não surpreendeu ambientalistas, que já haviam denunciado práticas ilegais cometidas pelo governo japonês em sua luta para manter a caça às baleias.
- É mais um exemplo de corrupção envolvendo a indústria baleeira, financiada com o dinheiro do contribuinte - disse ao GLOBO Junichi Sato, diretor do Greenpeace no Japão, que denunciou um esquema de contrabando de carne de baleia permitido pelo governo japonês. - O jornal chamou a atenção para algo que o Greenpeace já sabe há anos: o governo do Japão é capaz de ir muito longe para manter o seu chamado programa científico de caça às baleias, escondendo o desperdício e a desonestidade para mantê-lo.
Sato e outro membro do Greenpeace, Toru Suzuki, estão sendo julgados sob a acusação de roubo e invasão de propriedade e podem pegar até dez anos de prisão. Seu caso teve repercussão internacional e a condução do julgamento foi criticada por grupos de direitos humanos, mas a imprensa japonesa não dá muito destaque ao assunto.
País nunca respeitou proibição, segundo Greenpeace
O Japão nunca respeitou a moratória da pesca e afirma que caça baleias somente para fins científicos, mas Sato e Suzuki mostraram, em sua investigação, como a carne é vendida pela própria tripulação dos baleeiros.
Desde que a moratória internacional foi aprovada, em 1986, foram mortas 35 mil baleias. Por isso, os ambientalistas temem que a liberação oficial de uma cota anual seja o sinal verde para a caça indiscriminada.
A Austrália é o maior opositor do Japão na CBI e seu ministro do Meio Ambiente, Peter Garrett, lidera uma campanha para impedir a retomada da pesca comercial através do estabelecimento de cotas anuais.
- No momento em que os líderes se preparam para a próxima reunião da CBI, a denúncia do "Times" é mais uma razão para que governos não aceitem as políticas japonesas e trabalhem para encontrar uma solução que, finalmente, proteja as baleias e não a indústria - disse Sato.
O Brasil tem se posicionado a favor da manutenção da moratória à caça do animal e deve manter a posição na próxima reunião.
O Globo, 17/06/2010, Ciência, p. 28
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