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Ameaça aos peixes da bacia do Paraíba do Sul

O Globo, Rio, p. 13
20 de jun de 2006

Ameaça aos peixes da bacia do Paraíba do Sul

Fernanda Pontes

Um estudo realizado na Represa do Funil, na divisa Rio/São Paulo, a pedido da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa (Alerj), identificou novos problemas que ameaçam o Rio Paraíba do Sul, o mais importante do estado. Além da presença de metais pesados acima dos limites estabelecidos por normas internacionais, houve uma redução de 45,5% do total de espécies nativas de peixes. Por outro lado, aumentou em 44,4% o número de espécies exóticas, que foram introduzidas no rio pelo homem. O resultado da pesquisa será enviado ao Ministério Público.
As análises, realizadas de janeiro a maio deste ano, foram feitas por técnicos que estudaram as populações de peixes, analisaram o entorno do reservatório e a qualidade da água. O que mais preocupa técnicos da comissão, presidida pelo deputado Carlos Minc (PT), é a presença de metais pesados oriundos de indústrias e empresas localizadas principalmente no estado de São Paulo. Foram encontrados mercúrio e cádmio em três das cinco amostras de fígado de traíras.
- Ninguém come fígado de traíra, mas, se continuarmos nesse ritmo, a carne do pescado também poderá ser contaminada - disse Minc.
Das 22 espécies nativas de peixes analisadas na Represa do Funil em 1983, apenas 12 foram encontradas na última pesquisa. Entre elas, o cascudo-preto, que está ameaçado de extinção, e o bagre. Outras nove oriundas de locais como a Bacia do Amazonas, por exemplo, podem ser facilmente pescadas nas águas do reservatório. Segundo os técnicos, as novas espécies são introduzidas porque têm um valor de mercado superior.
- O problema é que a proliferação desses peixes ajuda a eliminar as espécies nativas, provocando o desequilíbrio da fauna local - disse o engenheiro químico José Roberto de Souza Araújo, coordenador da pesquisa.
Desmatamento das margens deixa peixes sem comida
Outro problema que vem contribuindo para a diminuição da população de peixes é a falta de preservação do entorno do reservatório. A faixa marginal de proteção, de cem metros de extensão, não é respeitada. As áreas deveriam ter sido reforestadas, mas são ocupadas por construções irregulares.
- Se a região do entorno fosse reflorestada, teríamos mais larvas de insetos, que servem de alimento para os peixes - explicou o biólogo Gustavo Wilson Nunan, que participou da pesquisa.
Localizada nos municípios de Itatiaia e Resende, na divisa com São Paulo, a Represa do Funil é de responsabilidade de Furnas Centrais Elétricas. A superintendente de gestão ambiental da empresa, Norma Pinto Villela, afirmou que o monitoramento da qualidade da água e de peixes vem sendo feito desde 2001. Ela confirmou que várias espécies nativas desapareceram do reservatório e outras exóticas são encontradas. Mas disse ainda que o reforestamento do entorno só pode ser feito na área que pertence a Furnas.
- Já tentamos fazer um cinturão verde, oferecendo mudas, mas muitos terrenos do entorno são particulares. Nem sempre os proprietários querem deixar de cultivar alimentos para reforestar - diz Norma.
Entre as ações sugeridas no relatório está a proibição temporária da pesca de espécies ameaçadas. Também foi pedida à Feema a fiscalização de pisciculturas e pesque-pagues e o cumprimento do termo de ajustamento de conduta ambiental por parte de Furnas.

O Globo, 20/06/2006, Rio, p. 13

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