OESP, Vida, p. A24
08 de Abr de 2007
Ambiente tira o sono das crianças
Educadores e psicólogos alertam para a ansiedade que informações sobre mudanças climáticas podem causar
Mara Bergamaschi
A mãe mal chega do trabalho e Gabriel, de 7 anos, se atira em seus braços, aos prantos."Mãe, vai acontecer uma coisa horrível: uma infecção global, que vai acabar com o mundo quando eu crescer." Luciana, de 5 anos, repete sempre uma pergunta para sua terapeuta nas sessões semanais: "Você acredita que a água vai acabar mesmo?". Reunidos para jogar videogame, três garotos de 10 anos usam a mesma palavra para dizer o que sentem quando ouvem falar em aquecimento global : medo.
As situações reais descritas acima - somente o nome das crianças é fictício - são exemplos do impacto que as informações e imagens sobre mudanças climáticas estão causando nas crianças. Pavor , ansiedade e até pânico são reações relatadas por pais, educadores, psicólogos e pesquisadores da área ambiental. No Rio, as crianças usam ainda uma imagem para resumir a catástrofe que as aguarda no futuro: a cidade sendo invadida pelo mar, sob tempestades e raios.
"Se não tivermos cuidado, esse tema poderá ter um efeito tão avassalador sobre as crianças, que ainda misturam realidade e fantasia, quanto tiveram as imagens da queda das torres gêmeas para as crianças americanas", diz a especialista em educação Regina de Assis, presidente da Multirio - empresa pública que produz conteúdo audiovisual para professores e alunos da rede municipal do Rio. "Nos Estados Unidos, as pesquisas já mostraram os prejuízos que o alarmismo, neste caso decorrente de uma situação real, causou ao mundo infantil", acrescenta. "Escolas e meios de comunicação precisam conduzir a adesão à causa ambiental de maneira construtiva, e não temerária", resume.
Tarefa não muito fácil diante da imensa e caótica quantidade de informações sobre aquecimento global divulgadas a todo momento. Além de amedrontados, os alunos, inclusive das séries mais avançadas do ensino fundamental, estão confusos.
"Eu acho que os países frios vão congelar, mas em outros lugares vai fazer muito mais calor", opina Thiago Salomone, de 10 anos, estudante da quinta série da rede particular. "Não sei se vai fazer mais frio ou mais calor, mas a água vai acabar", afirma, de olhos arregalados. "A água de beber vai acabar, mas a água do mar vai aumentar, e invadir as cidades de praia", diz Rubens Menezes, de 11 anos, aluno da rede pública.
QUESTIONAMENTO
"Temos de levar os alunos a questionar as notícias que chegam, muitas vezes alarmantes, e a propor soluções em forma de ações e mudanças de hábito", defende Ana Cláudia Martinez, orientadora pedagógica do ensino fundamental da Escola Parque, reconhecida por privilegiar a formação da cidadania. Na avaliação de Ana Cláudia, "faltam informações seguras, desvinculadas de interesses, e que não pequem pela disparidade ou por dados incompletos". Segundo ela, já houve casos na escola de crianças de primeira a quarta série do ensino fundamental que ficaram aflitas - uma delas até chorou - em sala de aula. "Mas todas estão interessadíssimas neste assunto", diz Ana Cláudia.
O efeito desse turbilhão sobre o comportamento infantil já é percebido também nos consultórios psicológicos. "Na faixa de 5 a 7 anos, elas ainda não têm domínio simbólico para elaborar tudo isso", explica Inês Ribeiro, psicanalista com 40 anos de experiência.
Segundo ela, sensações de ansiedade, medo, culpa e impotência podem atingir crianças dessa idade, sobretudo as mais sensíveis. "Os pais têm de estar junto para ajudá-las a processar com equilíbrio todo o exagero que está aí", opina.
A psicanalista diz notar ainda "sinais de comportamento compulsivo", como crianças controlando o consumo de água da casa. Isso muitas famílias já conhecem. "Ninguém pode demorar no chuveiro para não gastar água e agora nem posso acender meu incenso para não 'pôr em risco' a camada de ozônio", relata Isabela Achkar Farah, funcionária da PUC-Rio, que tem em casa o "xerife" Igor, estudante da primeira série.
LIVROS
Uma edição de 1 milhão de exemplares de livros paradidáticos destinada aos professores do ensino fundamental e médio em todo o País será lançada em breve pelo Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas em parceria com a Agência Espacial Brasileira (AEB).
"O objetivo do livro é orientar as escolas para que não prevaleça uma visão apocalíptica nas discussões sobre aquecimento global", explica o secretário-executivo do Fórum, Luiz Pinguelli Rosa. "As novas gerações têm muito a fazer ; não podem ser paralisadas pelo medo'', acrescenta Pinguelli.
Outras iniciativas estão sendo feitas pela Prefeitura do Rio e pelo governo do Estado. No âmbito da prefeitura, além da distribuição nas escolas e na mídia das produções audiovisuais da Multirio - como os episódios da série "Aventuras Cariocas" que discutem mudanças climáticas a partir dos ecossistemas da cidade -, projetos especiais estão sendo preparados.
O prefeito César Maia escalou o presidente do Instituto Pereira Passos (IPP), Sérgio Besserman, ex-presidente do IBGE, para conduzir o debate sobre aquecimento global na rede municipal. O prefeito quer que o documentário premiado com o Oscar Uma Verdade Inconveniente, do ex-vice-presidente americano Al Gore, seja exibido para todos os professores e pelos alunos do ensino médio.
A recém-criada Superintendência de Clima e Comércio de Carbono do governo do Rio também poderá lançar publicações. A professora Sílvia Muylaert, assessora da superintendência, disse que será analisada a proposta de editar um livro para crianças das escolas estaduais, em convênio com a Organização Meteorológica Mundial.
Novo relatório mostra futuro quente e sombrio
O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), que reúne 2.500 cientistas de todo o mundo, divulgou anteontem o relatório sobre impactos do aquecimento e medidas de adaptação. Milhões de pessoas, principalmente as mais pobres, sofrerão com falta de água e comida, eventos climáticos extremos e incidência maior de doenças. Todos os continentes e oceanos já sentem alterações, que serão ampliadas até 2100 à medida que a temperatura aumente. Algumas mudanças são benéficas em primeiro momento, como um aumento de área cultivável no Hemisfério Norte. Mas, num planeta muito quente, as desvantagens superam as vantagens.
OESP, 08/04/2007, Vida, p. A24
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