VOLTAR

Ambientalistas querem saída de Marina Silva

OESP, Nacional, p. A11
13 de Nov de 2005

Ambientalistas querem saída de Marina Silva
Governo usaria nome da ministra para fingir que defende o verde

Leonencio Nossa

Os ambientalistas estão inconformados com a situação da ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. O sertanista Sydney Possuelo afirma que Marina deveria se afastar do cargo. O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) relata que amigos já pediram a ela a saída da pasta, pela falta de apoio do presidente à causa de defesa da floresta. O representante do Greenpeace, Sérgio Leitão, diz que só a ministra pode responder se o Planalto está aproveitando o nome e o prestígio dela para dar a impressão que defende o verde. Todos reclamam, no entanto, que o governo desenvolve e promove ações nas áreas de infra-estrutura e agricultura sem preocupações ambientais.
Na avaliação de Possuelo, Marina está "emprestando" o nome a um governo que quer o desenvolvimento "a qualquer custo" e até hoje não apresentou projeto para a proteção da Amazônia. "Ela deveria se afastar, a gente não pode emprestar o nome e a história de luta a um negócio que não funciona, a um governo que não combate a destruição das florestas", afirma. "Com Marina no ministério, sem poder de fato, o governo dá uma falsa esperança aos defensores do meio ambiente."
Gabeira diz que, para "inglês ver", Lula anunciou, nos EUA, antes de tomar posse, o nome de Marina no ministério. "Ele já pensava em usar o prestígio dela no exterior. Muitos amigos gostariam que ela abandonasse o governo em nome da coerência. Ninguém queria que fosse cúmplice do que está aí."
Sempre que é questionado sobre a derrubada das florestas, Lula lembra a história e a reputação de Marina e minimiza os ataques. Foi assim no programa Roda Viva, da TV Cultura, segunda-feira. Lula afirmou que está "comprometido" com a manutenção das florestas. Elogiou Marina e disse que houve redução de 40% nas queimadas. Na verdade, o ministério tem expectativa dessa diminuição. "No Brasil, não tem ninguém mais comprometida com a questão ambiental como a companheira Marina. Mas o ministério e o Ibama estavam desativados", disse o presidente.
As queixas dos ambientalistas incluem falta de ações de combate ao desmatamento na Amazônia, transposição do Rio São Francisco sem atender normas ambientais e incentivos de bancos oficiais a produtores de soja e pecuaristas.
"O governo privilegia a agenda econômica de curto prazo em detrimento da ambiental. E faz um ciclo invertido. O BNDES, por exemplo, financia máquinas para derrubar a floresta", critica Leitão. Para ele, o papel do ministério cria conflitos com outros setores do governo.
Assessores do Ministério do Meio Ambiente dizem que se formou uma "jurisprudência" na afirmação de que a ministra é uma "coitadinha" que só perde na queda de braço com outros ministros. E ressaltam que Marina criou 9 milhões de hectares de áreas de conservação na Amazônia e as ações da Polícia Federal e do Ibama teriam aumentado em relação a governos anteriores.

Alerta contra uso político da seca no AM
CÉTICO: Foi com certo ceticismo que o sertanista Sydney Possuelo, de 65 anos, acompanhou toda a repercussão na imprensa da estiagem dos rios amazônicos. Em entrevista ao Estado, a primeira desde que sofreu enfarte no mês passado, ele avalia que a seca é um alerta para a destruição da natureza em diversos regiões, mas chama a atenção para o uso político do período de estiagem por autoridades.
"É sempre bom para um prefeito ter um rio seco para declarar estado de emergência", afirma. "O importante é entendermos que o ribeirinho sempre foi esquecido, na seca ou no inverno da Amazônia."
Segundo Possuelo, a seca é explorada politicamente por municípios, que expõem, às vezes, o problema com uma gravidade de tamanho maior que o real. "As autoridades declaram estado de emergência para receber recursos imediatos. Nunca se ataca o problema com profundidade, garantindo de fato melhores condições de vida na região. O amazônida precisa de apoio, sim. Mas políticos canalhas se aproveitam da situação."
Ele conta que vários estudos indicam uma redução do lençol freático em áreas da Amazônia. "É preciso avaliar tudo o que ocorre de estranho no mundo, desde ondas gigantes a longas estiagens. Pelo menos são alertas muito graves." L.N.

OESP, 13/11/2005, Nacional, p. A11

As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.