O Globo, País, p. 5
10 de Dez de 2018
Ambientalistas criticam nomeação de Salles
Ambientalistas criticam escolha de novo ministro do Meio Ambiente
Já os representantes do agronegócio elogiaram a indicação do presidente eleito Jair Bolsonaro
Sérgio Roxo
SÃO PAULO - Movimentos ambientalistas criticaram a escolha do advogado Ricardo Salles para comandar o Ministério do Meio Ambiente no governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro (PSL). A avaliação é que o novo titular da pasta, devido ao seu histórico, vai se subordinar aos interesses dos ruralistas e trabalhará para desmontar a estrutura de proteção de áreas verdes no país.
-Ao aceitar o cargo, o novo ministro parece realmente estar disposto a fazer o trabalho anti-ambiental que Bolsonaro prometeu na campanha, que é acabar com as áreas protegidas, diminuir o combate ao crime ambiental e liberar ainda mais o uso de agrotóxico no país-afirmou o diretor de políticas públicas do Greenpeace, Márcio Astrini. O ambientalista acredita que o novo governo vai enfraquecer o ministério.
- Para o Bolsonaro, a lógica é diminuir o ministério em importância e capacidade. Diminuir a ponto de fazer do ministério uma espécie de subsede do ministério da Agricultura. Nesse sentido, o novo ministro parece ser a pessoa adequada para o cargo porque ele é uma escolha dos ruralistas. Ele é muito próximo aos ruralistas.
O diretor do Greenpeace destaca que Salles não tem ligação histórica com o ambientalismo e só obteve destaque na área por causa da ação de improbidade administrativa movida pelo Ministério Público de São Paulo. No processo, o futuro ministro é acusado de, quando era secretário do Meio Ambiente no governo de São Paulo, ter fraudado mapas do Plano de Manejo da Área de Proteção Ambiental Várzea do Rio Tietê.
-A única coisa que a gente sabe dele é uma denúncia por adequar ilegalmente uma área ambiental para beneficiar empresas.
No lugar certo
Em nota, o Observatório do Clima seguiu na mesma linha do Greenpeace e disse que o novo ministro tem o perfil adequado para o programa prometido por Bolsonaro para a área ambiental. "O ruralista Ricardo Salles é o homem certo no lugar certo. O presidente eleito, afinal, já deixou claro que enxerga a agenda ambiental como entrave e que pretende desmontar o Sistema Nacional de Meio Ambiente para, nas palavras dele, 'tirar o Estado do cangote de quem produz'. Nada mais adequado do que confiar a tarefa a alguém que pensa e age da mesma forma", diz a nota do observatório, uma rede de 37 entidades formada para discutir as mudanças climáticas no Brasil.
Na nota, também é destacado que Salles foi diretor da Sociedade Rural Brasileira e, como secretário do Meio Ambiente em São Paulo, "promoveu o desmonte da governança ambiental do Estado". "Ao nomeá-lo, Bolsonaro faz exatamente o que prometeu na campanha e o que planejou desde o início: subordinar o Ministério do Meio Ambiente (MMA) ao Ministério da Agricultura. Se por um lado contorna o desgaste que poderia ter com a extinção formal da pasta, por outro garante que o MMA deixará de ser, pela primeira vez desde sua criação, em 1992, uma estrutura independente na Esplanada. Seu ministro será um ajudante de ordens da ministra da Agricultura".
O Observatório do Clima ainda vê risco de os mercados internacionais se fecharem para o agronegócio brasileiro devido aos retrocessos ambientais. "O ruralismo ideológico, assim, compromete o agronegócio moderno - que vai pagar o preço quando mercados se fecharem para nossas commodities."
Menos pior
Para Edmo Campos, professor aposentado de oceanografia da USP e co-autor do Relatório de Avaliação do Clima do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, a indicação de Salles foi recebida com alívio. Sua preocupação maior era que Bolsonaro nomeasse para a pasta Ricardo Felício, professor de geografia da USP e conhecido por negar o aquecimento global.
-Foi a escolha menos pior. Colocou uma pessoa que não tem histórico (de trabalho pelo meio ambiente), mas pelo menos não tem um histórico negativo- afirmou.
O pesquisador torce para que Salles convença Bolsonaro a manter o Brasil no Acordo de Paris.
-Acho que tentar fazer no Brasil o que o (Donald) Trump está fazendo nos Estados Unidos é ruim. Eu torço para que essa escolha, que não foi das piores, ajude o governo a manter uma linha não tão divergente em relação que estava sendo feito até então. Temos que continuar fazendo parte dos acordos internacionais.Ambientalistas criticam escolha de novo ministro
Ruralistas elogiam escolha
O presidente da União Democrática Ruralista (UDR), Luiz Antônio Nabhan Garcia, que ajudou a elaborar propostas para área da agricultura e do meio ambiente durante a campanha do presidente eleito Jair Bolsonaro, elogiou a escolha de Ricardo Aquino Salles para comandar o Ministério do Meio Ambiente (MMA).
- O setor produtivo recebeu muito bem essa indicação. Todo mundo gostou, e não só o setor rural, mas empresários de modo geral. Embora Salles seja linha dura, é um linha dura com o que é legal, com o que é certo. Não mistura viés ideológico.
Nabhan também aproveitou a indicação para criticar a atuação de Organizações Não Governamentais (ONGs) internacionais no Brasil, crítica muitas vezes repetida por Bolsonaro.
- O que conheço do Ricardo Salles é que ele fará uma gestão sem pressão e sem viés ideológico, sem ceder para interesses comerciais escusos que estão aí. Existe um posicionamento do presidente Bolsonaro em que muitas dessas ONGs não vão ficar aí colocando dedo e mandando. O Brasil tem que ser governado por quem foi eleito e não por ONG. O papel das ONGs é outro, não é fazer o que essas ONGs fizeram durante décadas em gestões anteriores, como na de Fernando Henrique, Lula e Dilma, onde se fazia o que as ONGs mandavam - afirmou Nabhan, sem entrar em detalhes.
- Sugiro ao ministro Salles que não ceda a pressões de interesses internacionais - concluiu.
Para o diretor da Sociedade Rural Brasileira, Frederico D'Ávilla, que também é vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja e Milho de São Paulo (Aprosoja-SP), a indicação de Salles também agradou.
- Ele foi um excelente secretário, tem experiência e tem conhecimento técnico e é um seguidor fiel da lei. Vejo com muito bons olhos e acho que vai dar paz e segurança para o Brasil crescer em todas as áreas, de infraestrutura, agrícola, portuária. Acho que vamos ter um avanço muito grande. Ele vai ter um trabalho hercúleo de depurar o ministério, porque ficou muito tempo ideologizado. Muitas pessoas que estão lá têm um viés ideológico e de interesses internacionais bastante escuso.
D'Ávilla lembrou a atuação de Salles enquanto secretário Estadual do Meio Ambiente em São Paulo.
- Só de mudar a doutrina já melhora bastante. Aqui em São Paulo, por exemplo, quem era correto, sensato e de bom senso foi alçado a cargos de chefia, e quem era restritivo, ideológico, cheio de carga política da História, foi realocado. Ele colocou bastantes peças no lugar.
D'Ávilla também comentou o que poderá ser a relação do novo ministro com ambientalistas:
- O ambientalista que tem bom senso, entendimento correto das mudanças climáticas, da lei, e etc. não vai ter problema nenhum. Agora, quem é ideológico e tem verdades absolutas inclusive no campo acadêmico, esse pessoal aí, como mudou o eixo de poder, né?, vai ter que se adequar.
Assim como Nabhan, D'Ávilla também integrou a equipe de campanha de Bolsonaro que formulou propostas para o agronegócio.
O Globo, 10/12/2018, País, p. 5
https://oglobo.globo.com/brasil/ambientalistas-criticam-escolha-de-novo…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.