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Amazônia tem mais de 10 mil plantas com potencial medicinal

O Globo, Ciência/Saúde, p. 39
25 de Jan de 2009

Amazônia tem mais de 10 mil plantas com potencial medicinal
Do total, 300 foram catalogadas pelo instituto de pesquisas da região

Carlos Albuquerque

Açaí, araçá, araticum, babaçu, bacaba, bacuri, biribá, breu branco, buriti, buritirana, cacau, camu-camu, canarana, castanha-do-Brasil, cupuaçu, graviola, jambo, jenipapo, mamorana, mangaba, murici, pequi, pitanga, pupunha, sapota, taperebá, umbu, unha de gato, uxi e zingiber. Essas são algumas das mais de dez mil plantas da Amazônia - região de notória biodiversidade - que possuem princípios ativos que podem ser utilizados na área medicinal, de cosméticos e no controle de pragas. Dessas, 300 já foram catalogadas pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCT).
Esses dados também constam do Plano de Amazônia Sustentável (PAS), lançado pelo governo no ano passado, que faz uma análise detalhada do potencial desses produtos e tem, entre seus objetivos, segundo o ministro extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, "a construção de alternativas de produção economicamente viáveis e ambientalmente seguras para as populações de pequenos produtores".
Traduzindo: exploração sustentável de uma região que abriga outras 300 espécies de frutas comestíveis e uma rica fauna silvestre. Ao todo, a Amazônia possui cerca de 30 mil espécies de plantas superiores. Para o pesquisador Juan Revilla Cordenas, que trabalha no Inpa, em Manaus, tamanha riqueza precisa ser explorada de forma racional e profissional.
- A diversidade da Amazônia é conhecida. O que precisamos é transformar esse conhecimento em uma produção rentável, sem que isso signifique devastação ou prejuízo para as populações locais - diz ele, que é autor do livro "Plantas da Amazônia - Oportunidades Econômicas e Sustentáveis".
Produção pode gerar empregos e renda
Para o pesquisador, essa flora - principalmente as plantas de uso medicinal - pode ser tornar uma excelente atividade econômica para a população da floresta, gerando empregos e renda, desde que sua exploração seja feita de forma correta.
- O país tem todas as condições para transformar as plantas com atividade terapêutica em produtos farmacêuticos rentáveis de forma eficaz - assegura. - Temos a matéria-prima e as comunidades estão mais conscientes desse potencial. O problema é que tudo isto está só no papel. Precisamos passar para a prática, para a produção. Falta um pouco mais de confiança dos empresários para investir nesta área e esta confiança só pode ser dada pelo governo.
O pesquisador do Inpa lembra que o Conselho Nacional de Saúde aprovou, em 2005, um decreto que propõe o uso de plantas medicinais no Sistema Único de Saúde (SUS), com "segurança, eficácia e qualidade", segundo o documento.
- Mas daí em diante não aconteceu quase nada. Esse uso das plantas medicinais no SUS ficou no papel, não aconteceu muita coisa. Temos a lei, mas não estamos fazendo nada. Falta um diagnóstico, saber quem faz que tipo de pesquisa, quem está estudando o quê, para termos um panorama geral. É como se tivéssemos um grande armazém, cujos produtos estão estocados, esperando para vermos qual a sua utilidade.
Pau-rosa, um exemplo de sustentabilidade
Ele cita o caso do pau-rosa, espécie ameaçada de extinção, cujo óleo pode ser usado como perfume.
- O óleo do pau-rosa é um perfume completo. Digo isso porque para se fazer um perfume é necessário obter um coquetel de substâncias. O pau-rosa tem tudo isso. E também pode ser usado como um fixador. O interessante é que estamos estudando as folhas da árvore para extrair o óleo. Antes, usávamos as raízes e o tronco. Com as folhas, evitamos a derrubada e a renovação é maior. É um exemplo de exploração sustentável.
Cordenas ressalta, porém, que esse trabalho - aliar sustentabilidade com os direitos dos povos da floresta - inevitavelmente vai esbarrar nos interesses da indústria. Um tema delicado, reconhece ele.
- A indústria tem interesse na descoberta dos princípios ativos dessas plantas, através dos quais o seu valor pode ser reproduzido em laboratório. A partir daí a planta não é mais necessária - explica. - Quando a empresa está fora do Brasil, isso pode ser um problema. Mas a indústria brasileira pode fazer esse trabalho, de forma completa, desde que coloquemos nossos conhecimentos científicos a seu favor. O governo deve ser intermediário desse processo.

O Globo, 25/01/2009, Ciência/Saúde, p. 39

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