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A Amazônia precisa de empreendedores

O Globo, Razão Social, p. 4-5
Autor: BECKER, Bertha K.
18 de Jan de 2011

'A Amazônia precisa de empreendedores'
Há 40 anos pesquisando a região, geógrafa critica mecanismos como o REDD e defende a criação de indústria madeireira na floresta

Entrevista / Bertha Becker

Martha Neiva Moreira
martha.moreira@oglobo.com.br

A geógrafa Bertha Becker é a vitalidade em pessoa. Professora emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e consultora do governo federal para assuntos ligados à geopolítica da Amazônia, ela perdeu as contas de quantas vezes, este ano, foi e voltou da região. A última viagem foi para o Acre, em novembro. Aos 80 anos, o entra e sai de avião, barco e carro, não parece assustá-la. Pelo contrário, voltar às cidades amazônicas ainda causa a mesma sensação de fascínio que em 1970, quando pisou pela primeira vez na floresta levando seus alunos do Instituto Rio Branco. "Fiquei fascinada com aquela coisa imensa e desconhecida. Não quis mais largar a Amazônia", contou. Lá se vão quatro décadas de pesquisas, e uma certeza: a Amazônia precisa de uma revolução. Revolução que não acontecerá com a implantação de mecanismos modernos de preservação, como o Redd, como ela diz nesta entrevista. Mas pelas mãos de novos empreendedores que apostarem em explorar os recursos da floresta de forma consciente, gerando trabalho e renda para os moradores locais.

O Globo: Por que a senhora diz que a Amazônia precisa de uma revolução?

Bertha Becker: Porque a região é a mesma desde 1970, quando comecei a viajar para lá.

O Globo: Como era nesta época?

Bertha Becker: Isolada e tinha aspecto de periferia. Para se ter uma ideia, nem a Radio Nacional ouvia-se ali, apenas o programa "A Voz da América" (criado pelo governo dos Estados Unidos para outros países). A população era parada no tempo. As pessoas moravam em pequenas cidades com comércio incipiente e tinham uma produção de subsistência.

O Globo: O que mudou desde então?

Bertha Becker: Quase nada. A Amazônia continua isolada dentro dela mesma. Ainda é umlocal para ser ocupado para garantir a soberania nacional. Para se ter uma ideia de como isso é real, 68% dos assentamentos da reforma agrária estão lá. Os investimentos também não parecem apostar no desenvolvimento e na comunicação entre a população. Exemplo disso é o alto investimento que se faz em estradas de rodagem, quando deveriam apostar em hidrovias, que promove com eficiência a integração das cidades.

O Globo: Quais as conseqüências desta política de ocupação?

Bertha Becker: Muitas, mas principalmente o estímulo ao desmatamento. Desmata-se para tudo ali. São os pecuaristas, que recebem recursos para desenvolver uma indústria de pecuária de corte para exportação; é o desmatamento ilegal madeireiro; é o desmatamento para abrir estradas ao em vez de se aproveitar ao máximo a rede pluvial. É o desmatamento para cultivar alimentos. Enfim, é uma exploração dos recursos sem desenvolvimento para a região. Por isso digo que a Amazônia precisa de uma revolução.

O Globo: Que revolução?

Bertha Becker: Uma revolução do empreendedorismo, porque falta imaginação para gerir a floresta. A Amazônia precisa de empreendedores, pessoas criativas que descubram formas de utilizar os recursos sem destruir a mata. O desafio é a inovação. E o Brasil tem condições de fazer isso, pois fez uma revolução ao transformar cana de açúcar em etanol na Mata Atlântica; fez uma revolução do ponto de vista técnico para cultivar a soja no Cerrado; e fez uma revolução para explorar petróleo.

O Globo: Mas já existem empresas na região que conseguem explorar sem destruir?

Bertha Becker: Poucas, como a Natura, que ainda usa poucos recursos da floresta diante daquilo que poderia usar, e algumas pequenas empresas incubadas nas universidades. A maior parte das companhias que atuam ali são grandes corporações que exploram a região de forma predatória e exportam em bruto o que extraem, sem agregar valor, e, portanto, gerando menos emprego e renda para a população local do que poderiam gerar. A indústria que se quer na Amazônia não é mais a predatória, mas uma indústria de serviços ambientais inovadora.

O Globo: A Conferência das Partes sobre o Clima, realizada em dezembro, em Cancún, regulamentou o Redd. Ele não seria um serviço ambiental inovador?

Bertha Becker: Não gosto da ideia do Redd. Não quero apenas proteção para a floresta. Quero proteção gerando riqueza para a população, para que ninguém mais precise receber bolsa disso ou daquilo. O Redd é um incentivo à não-produção. A floresta tem muito mais riqueza do que apenas carbono. Pagar para não desmatar é pouco. Quero, ao contrário, produzir a partir das riquezas que a floresta oferece sem destruir. A Amazônia merece uma indústria de serviços ambientais do século XXI, que resgate o conhecimento tradicional e atualize-o; que faça um extrativismo avançado, com pesquisa associada; e processe os produtos da mata, trazendo desenvolvimento para as cidades.

O Globo: Qual seria o primeiro passo para que essa indústria possa surgir?

Bertha Becker: Atribuir valor econômico à floresta para que seus produtos possam competir no mercado com as comoditties.

O Globo: A senhora tem um modelo de exploração para a região que inclui a criação de uma indústria madeireira?

Bertha Becker: É um modelo que respeita o zoneamento natural da floresta, ou seja, as faixas de vegetação diferenciadas que ela tem em cada área. Ao Norte, há a floresta densa, mais fechada, que chamo de coração da floresta. Depois vem a floresta de transição e, ao Sul, já quase no Cerrado, a floresta aberta. Esta organização natural deve ser respeitada. O que proponho são estratégias de exploração diferentes para cada uma dessas faixas.

O Globo: Que estratégias?

Bertha Becker:Para a área de floresta densa, extrativismo não-madeireiro e modernizado. Esta área é rica em drogas, como fungos, microorganismos, plantas perfeitas para fabricação de fitoterápicos ou cosméticos. Nas áreas de floresta de transição e aberta haveria extração de madeira. Ridículo o Brasil não ter uma indústria de madeira moderna e consciente. Nós exportamos a madeira bruta e não há geração de emprego para quem mora na área. Junto com a exploração da madeira, teria áreas com grupos de agricultura familiar para vender para as cidades próximas. As cidades são importantes, pois nelas deveriam ser instaladas as fábricas para processar o que foi extraído da mata.

O Globo: A senhora disse que não gosta da expressão desenvolvimento sustentável. Por quê?

Bertha Becker: Porque acaba sendo mais um termo para algo que já existe: desenvolvimento, que deve considerar os aspectos social, ambiental, econômico, mas também o político pois não se pode promover mudanças sem decisão política.

O Globo, 18/01/2011, Razão Social, p. 4-5

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