Gazeta de Cuiabá-Cuiabá-MT
Autor: Rose Domingues
05 de Fev de 2003
Estudos mostram que o principal devastador é o proprietário, que não respeita as normas do Ibama
A Floresta Amazônica, que já cobriu 52% da área total de Mato Grosso, cerca de 469 mil quilômetros quadrados, hoje responde apenas por alguns trechos, que começam a leste da região norte, passam pelo centro-norte, entram pelo Vale do Jauru e contornam o Vale do Guaporé.
Ela também está presente em locais isolados a oeste, concentrada principalmente em aldeias indígenas e de preservação ambiental.
O professor e coordenador do projeto Pró-manejo, Versides Sebastião de Moraes, da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), não quis precisar o número, mas afirma que o desmatamento foi intenso nos últimos anos.
Um dos motivos para a atual situação é a intensificação da agropecuária. Na cabeça dos fazendeiros, segundo ele, a floresta é um empecilho para o desenvolvimento. Eles derrubam árvores e retiram a vegetação nativa para plantar pasto, cultivar soja, milho ou algodão, por exemplo.
Sob essa ótica, os vilões da história não são os serradores, mas o dono da terra, que almeja lucro rápido com a venda da madeira e o desenvolvimento da agricultura ou pecuária, sem se importar com as consequências sociais e ambientais disso.
Segundo Moraes, a conscientização vem sendo trabalhada a partir do advento do plano de manejo, com a medida provisória 2.166/1967.
A resolução regulamenta que em uma propriedade, 80% é área de floresta, e não pode ser desmatada. Para explorar economicamente a propriedade, o fazendeiro pode solicitar junto ao Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) um plano de manejo, que tem o aval técnico de um engenheiro e fiscalização.
Com isso, o impacto natural é o mínimo possível. Tudo é planejado, desde a abertura de estradas, retirada de árvores, intervalo das extrações e utilização de ferramentas de trabalho.
Mas ao vislumbrar seis meses de burocracia dos órgãos ambientais, o proprietário das terras prefere utilizar outros meios e simplesmente derruba tudo. Como consequência, o solo fica empobrecido, ao longo do tempo árido, o que pode provocar erosão e verdadeiros desertos, como aconteceu com o nordeste brasileiro.
Também há uma fragmentação dos habitats naturais. Muitas espécies de animais simplesmente desaparecem, o que muda todo o ecossistema da região. Segundo ele, a erosão e a poluição dos recursos hídricos são outros grandes malefícios.
Estradas colaboram para o fim da vegetação nativa
A abertura de estradas também foi um fator decisivo para o desmatamento da Floresta Amazônica no Estado. A pioneira foi a BR-364, que liga Mato Grosso a Rondônia. Outra incentivadora da devastação, porque vai de norte ao sul do estado, é a BR-163.
Elas escoam a produção e levam consigo a marca de um progresso que não poupa a cobertura vegetal, nem se preocupa com suas consequências.
A região mais atingida pela exploração desmedida foi o Vale do Jauru, na Grande Cáceres. Seguido pelo Vale do Guaporé, onde fica a primeira capital do Estado, o município de Vila Bela da Santíssima Trindade. Uma das localidades mais ricas em mogno, no passado.
O professor Versides Sebastião de Moraes também cita as proximidades de Rondonópolis, Primavera do Leste, Tangará da Serra, Sapezal, Campo Novo do Parecis e Alto Taquari, mais ao centro-sul.
Ele critica também a falta de política pública para incentivar não apenas a agricultura, mas o manejo orientado das florestas.
"Não sou contra a agropecuária. Mas, o manejo orientado da vegetação natural é muito mais lucrativo em todos os aspectos".
Pecuária é concorrente desleal
O problema da troca da área da floresta pela agropecuária passa pelas esferas ambiental, lucrativa e chega na social.
Uma das áreas citadas pelo professor Versides Sebastião de Moraes é a da Tecanorte, em Marcelândia, onde em apenas mil hectares são empregadas pelo menos 100 pessoas.
Já em uma fazenda de cinco mil hectares, onde se desenvolve agricultura ou pecuária, o número de funcionários não chega a seis pessoas.
"Há uma concorrência desleal entre a floresta e a agropecuária". Segundo ele, a perda com o desmatamento é ainda maior porque todo o potencial de extração manejado, que poderia dar lucro por pelo menos seis anos consecutivos, é simplesmente interrompido.
O mercado para absorver esse produto começa principalmente no sudeste do país e vai além, abrange também países como China, França, Itália e Estados Unidos. Segundo o professor, nesses países, as florestas nativas não existem mais, por isso o grande interesse no nosso produto.
Esse tipo de modelo econômico voltado para a agropecuária veio, segundo Moraes, do sul do país. A partir da vegetação exuberante, as pessoas acreditavam na fertilidade do solo. Só que sem a cobertura natural ele vai se empobrecendo e acaba virando uma região inclusive desértica.
"É preciso acabar com o estigma de que para haver desenvolvimento precisar derrubar árvores e plantar". O departamento de pró-manejo incentiva e capacita pessoas para trabalhar na área.
De fazendeiros a prestadores de serviços, todos são orientados para a execução do trabalho. O telefone para mais informações é 615-8634.
"Esclarecer é o primeiro passo para evitar o desmatamento e fomentar o desenvolvimento saudável do Estado",avalia o professor do departamento de engenharia florestal da UFMT.
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