O Globo, Prosa & Verso, p. 2
Autor: FAULHABER, Priscila
07 de Fev de 2009
Amazônia, fronteira científica
Priscila Faulhaber
A Amazônia aparece, nos dias de hoje, como reserva de valor para o Estado e para a política internacional. Reserva de terra, água, energia e produtos renováveis. A região é relevante para a discussão sobre implicações das políticas desenvolvimentistas para a cultura da soja e do etanol, bem como exploração dos recursos naturais como madeira, através do desmatamento, que tem sido debatida em fóruns científicos de grande prestígio acadêmico. Não cabe aqui detalhamento das polêmicas entre preservacionistas e desenvolvimentistas, uma vez que focalizo nos aspectos políticos da participação científica.
Nos atuais processos de integração de mercados, as instituições científicas configuramse como tecido social que abrange múltiplas interações com redes de pesquisadores, agências públicas e privadas.
Os institutos de pesquisa na Amazônia aparecem, do ponto de vista da política científica, como unidades de intervenção regional, como lugar de territorialização de políticas concebidas a partir do campo científico, que envolvem a construção de representações sobre a natureza e a ocupação humana, num jogo no qual se encontram engajados investimentos e comprometimentos simbólicos e práticos.
A criação do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) pelo CNPq, em 1954, consubstanciou uma ação da política científica de Estado para a Amazônia em nível internacional, configurada, assim, como fronteira não só política e econômico-social, mas também científica. O INPA, hoje referência mundial em biologia tropical, incorporou o Museu Goeldi, instituição fundada em de 1866.
Com a democratização no Brasil, os pesquisadores passaram a ter uma participação mais formal e reconhecida institucionalmente nos processos sociais relacionados a suas pesquisas. O crescente interesse social, associado ao processo de democratização política, implicou composições e recomposições com os grupos dirigentes, no que se refere à preparação de elites capacitadas para ocupar cargos de direção da política científica e tecnológica, da institucionalização da pós-graduação e no sentido de articulação entre universidade, pesquisa e mercado de trabalho.
Tal democratização não é sinônimo de harmonia, produzindo acirramento de disputas por recursos e representações nas quais a questão regional é preponderante. E a ciência pode fornecer instrumentos para autodeterminação de novos atores - como os povos da região detentores de conhecimentos coletivos - que se destacam nesse processo.
Dessa forma, talvez seja possível modificar o sistema de dominação que se perpetua desde os tempos coloniais.
Priscila Faulhaber é pesquisadora do Museu Goeldi e do Museu de Astronomia. Os trechos acima são da palestra apresentada no Fórum Social, em Belém
O Globo, 07/02/2009, Prosa & Verso, p. 2
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