OESP, Vida, p. A20
21 de Set de 2007
Amazônia ficou ainda mais verde na seca de 2005
Áreas ainda cobertas por árvores se tornaram mais verdejantes, porém cientistas dizem que fenômeno não se manteria numa crise permanente
Carlos Orsi
A seca que atingiu a região amazônica em 2005, considerada a pior dos últimos 60 anos, não reduziu, mas reforçou o verde da floresta. A constatação, feita por meio de imagens de satélite, indica que a floresta foi capaz de aproveitar o aumento da radiação solar decorrente do tempo seco - há menos nuvens para bloquear a luz do Sol - sem sofrer tanto com a falta de chuva. Isso não significa, no entanto, que a Amazônia seja imune à mudança climática trazida pelo aquecimento global.
"O padrão observado, de recuperação intensa, não contradiz o modelo de savanização", diz o pesquisador Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. Ele é um dos autores do trabalho que relata o aumento do verde, publicado hoje na revista Science (www.sciencemag.org). Savanização é o processo de substituição da floresta por uma vegetação semelhante à do cerrado, causada pelo aquecimento global.
"A hipótese da savanização foi concebida com base em premissas de um estado de clima mais quente e seco que persistiria, e o ecossistema estaria em equilíbrio com esse clima", explica Rocha. A seca de 2005 durou meses, enquanto um equilíbrio entre vegetação e clima levaria décadas para se estabelecer.
Rocha especula que o aumento do verde em 2005, medido com base na área coberta de folhas e na quantidade de clorofila, mostra uma capacidade de reação da floresta a médio prazo que poderia funcionar como ponte para transformações estruturais de longo prazo.
Quanto à fonte da água que manteve as árvores vivas durante a seca, Rocha diz que "hoje já há evidências de que as árvores da floresta tropical úmida na Amazônia acessam a água até pelo menos 10 metros de profundidade nos períodos de estiagem". Esse processo, diz o pesquisador, é auxiliado pelo solo na Amazônia, que tem capacidade de retenção de água.
No entanto, não há garantias de que esses reservatórios subterrâneos possam resistir indefinidamente. "A persistir o padrão de secas sucessivas, a lógica é pensar que o reservatório disponível se esgote. Há um limite", diz Rocha. "Podemos pensar o mesmo se o clima se tornar de fato mais sazonal, com uma estação seca mais prolongada e quente."
O pesquisador lembra que os dados foram levantados em uma única seca excepcional: não se sabe o que aconteceria se o fenômeno tivesse se repetido em 2006. Os cientistas fazem ainda a ressalva de que o clima não é única ameaça que a floresta enfrenta em períodos de seca. O artigo destaca o "aumento dramático" da vulnerabilidade a ações de desmatamento e a incêndios nas épocas de chuva escassa.
FHC diz que Kyoto é passado
Fabiana Cimieri
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou ontem que o Protocolo de Kyoto está ultrapassado porque países antes considerados subdesenvolvidos, como Brasil e China, estão se desenvolvendo e hoje se encontram entre os dez maiores poluidores. O ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia classificou como "míope" e "equivocada" a postura do governo brasileiro de não aceitar estabelecer metas de redução da emissão de gases do efeito estufa, conforme desejam os países europeus.
Os dois participaram ontem do segundo e último dia da Conferência Internacional Rio+15, num hotel no Rio. Fernando Henrique mandou uma mensagem gravada. Lampreia participou de um painel sobre os próximos 15 anos do Protocolo de Kyoto, que termina em 2012.
"Qualquer acordo internacional limita a soberania. Mas, se um país africano dizimar outro com um gás químico, não existe isso de ninguém falar nada. Dizer que faz o que quer porque é o dono da casa é uma atitude autocrática", disse Lampreia. Em sua opinião, não existe mais o conceito de soberania, tal como ele era entendido, em questões globais como meio ambiente e direitos humanos.
OESP, 21/09/2007, Vida, p. A20
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