O Eco
25 de Jul de 2011
"A Amazônia é um tesouro cheio de piratas"
Aretha Francis
Pode ser que o diretor Damia Puig tenha acabado de chegar, mas o jovem diretor de Barcelona dedicou seus últimos dois anos para aproximar-se do processo de construção da hidrelétrica Belo Monte, no Xingu (Pará). As imagens que captou resultaram no documentário À Margem do Xingu - Vozes Não Consideradas, cuja estreia coincide com a chegada das máquinas que ameaçam destruir a região.
Puig e sua equipe ganharam o prêmio do júri popular durante o recém terminado IV Festival de Cinema de Paulínia, que aconteceu de 7 a 14 de julho, e foi mais bem recebido pelo público do que pela crítica que, em geral, aborda o fato de ele ser um estrangeiro falando sobre o tema. Paulínia, cidade do interior de São Paulo, foi apenas o arranque inicial. Agora os produtores preparam a exibição do documentário para os povos da Amazônia, pelo resto do país e por festivais internacionais. Querem oferecer uma última oportunidade a essas vozes não consideradas e que lutam contra o tempo para evitar a construção da hidrelétrica.
Você estava preparado para as críticas ao tratar de um tema tão polêmico como esse?
Bom, o primeiro artigo que li diz que muitos espectadores abandonaram a sala no dia da projeção, dando a entender que [o filme] não havia sido bem recebido - naquele momento ainda não se sabia que o documentário ganharia o prêmio do Júri Popular. Dá para saber como muitos meios de comunicação irão te julgar quando se toca em temas tão ligados ao governo. Chegamos preparados porque é a primeira vez que se trata deste tema, fizemos um trabalho independente sem nenhuma grande produtora por trás, dessa forma pudemos falar de tudo com liberdade.
Começar explicando essa historia em São Paulo, tão longe da realidade da Amazônia... é mais difícil?
Sim. No Brasil a colonização é diferente, aqui os estados ricos colonizam os estados pobres. Lá [na Amazônia] as pessoas estão muito dispersas, não tem as oportunidades que existem em grandes cidades como São Paulo. Estão em evidente inferioridade econômica, sendo fácil extorqui-los. E é o que acontece. É muito difícil explicar a realidade da Amazônia daqui, o centro econômico do Brasil.
As criticas também se referem ao fato de o diretor do documentário não ser brasileiro.
Em cinema há o mau costume de pensar que o diretor faz o filme sozinho, mas não é assim que funciona. Trabalhamos em 50 pessoas no documentário, a maioria do país.
Você não era familiar com o tema antes de começar esse trabalho. Depois de dois anos de proximidade com a Amazônia, como a define?
O que sempre digo é que a Amazônia é um tesouro cheio de piratas. E com o novo Código Florestal? Desmatadores ilegais ganhando impunidade. Há piratas de dentro e de fora. Onde há muita riqueza sempre há instabilidade.
Qual a relação entre os papeis dos políticos, indígenas e empresas?
Os indígenas fazem muito barulho, têm aparecido na mídia. Então o que o governo fez foi conquistar alguns deles, dividindo os povos. Para o Estado os indígenas são apenas um obstáculo ao desenvolvimento pretendido. Eles preservam a riqueza natural, enquanto o governo apoia empresas que querem fazer especulações na floresta.
Mas se a cidade está distante da realidade amazônica, eles também estão muito longe, não?
Totalmente. Eles vivem em lugares onde, muitas vezes, não chega eletricidade. Para ir à escola têm de andar três quilômetros, se encontram com crianças de outros sítios e vão juntos. Chegam aqui e isso não se parece em nada com o Brasil que eles conhecem. Depois há políticos que os compram com televisões.
Qual o objetivo do documentário?
O objetivo é que o assunto tenha a maior divulgação possível. Que as pessoas estejam próximas a essas imagens. Em Paulínia os que mais foram entrevistados não fomos eu ou o produtor, mas os protagonistas da história que estão nos acompanhando. E é esse o objetivo, dar voz aos não considerados. Até agora, todos os festivais para os quais oferecemos o filme nos receberam de portas abertas, então estamos otimistas.
O documentário só mostra os que são contra o projeto. Não há vozes a favor representadas?
Você tem que fazer um esforço extra de produção para falar com os defensores da hidrelétrica. Nós tentamos, mas ninguém queria aparecer sendo a favor, o que para mim é muito estranho. Até mesmo no IBAMA, na primeira vez que fomos lá, ninguém quis nos atender. Existe uma instituição que é ambiental e que se nega a te atender pra falar justamente sobre o tema?
Você passou por algum momento de perigo enquanto estava gravando?
Nossa equipe de produção não, mas a maioria dos protagonistas estão ameaçados de morte, alguns tiveram de abandonar suas comunidades. Há que se considerar que, se o ataque fosse direcionado a uma equipe europeia, a repercussão seria maior. É mais fácil ir contra pessoas de lá, eles sim vivem ameaçados. Os jornalistas que trabalham lá e são contra o projeto passam por maus momentos. Existem artimanhas de todo o tipo, desde infiltrar pessoas em ONGs para desestabiliz´s-las e filtrar informação, até seguir pessoas para intimidá-las. Visto de fora parece um filme, mas quando se está dentro o pior que você já tenha imaginado parece pouco.
E como será o futuro?
Já é um caos. As máquinas e os trabalhadores começaram a chegar. Vão acabar com um ecossistema único porque o projeto da hidrelétrica não é rentável, assim ao final o projeto terá de ser maior. São processos pensados a curto prazo, no modo de pensar dos políticos, por termo de mandato. Isso dá dinheiro e as consequências são de longo prazo. Destruir um rio como o Xingu é acabar com uma forma de vida que se desenvolveu por milhões de anos.
Saiba mais
Trailer do filme
Blog oficial
O Eco, 25/07/2011
http://www.oecoamazonia.com/br/reportagens/brasil/268-a-amazonia-e-um-t…
As notícias aqui publicadas são pesquisadas diariamente em diferentes fontes e transcritas tal qual apresentadas em seu canal de origem. O Instituto Socioambiental não se responsabiliza pelas opiniões ou erros publicados nestes textos. Caso você encontre alguma inconsistência nas notícias, por favor, entre em contato diretamente com a fonte.