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Amazônia e Petrobras

CB, Opinião, p. 12
Autor: LIMA, Rubem Azevedo
23 de Jan de 2006

Amazônia e Petrobras

Rubem Azevedo Lima

Sob o presidente Lula, último governante que alguém julgaria capaz de aceitar desatino maior, após a venda da Vale do Rio Doce por US$ 3,338 bilhões (vale hoje US$ 37,5 bi), no governo anterior, a Amazônia pode ser esquartejada pela doação de suas riquezas ao neocapitalismo selvagem, com apoio - pasme, leitor - até de parlamentares de boa-fé.
Por acerto entre governo e autoridades chinesas, em troca da construção da rodovia Acre - Pacífico e da criação de zonas francas na região, está em pauta, no Congresso, projeto que permite a exploração da Amazônia, inclusive das reservas indígenas em Roraima, negócio de trilhões de dólares.

É quase um novo projeto Hudson, sem o lago do americano Herman Kahn, loucura que uma CPI desmontou nos anos 60. De idéia em idéia de colonização, chegou-se, depois, a outro absurdo: a ocupação da Amazônia pela abertura de uma rodovia, em grande parte devorada pela selva, mas que propiciou a devastação madeireira.
Para o repórter Lúcio Flávio Pinto, as políticas oficiais tratam a Amazônia como região ocupada, ignorando as aspirações amazônidas. Exemplo: a exportação do silício metálico, essencial à produção de chips de computadores e foguetes, enriqueceu exportadores e importadores, mas não a região nem a tecnologia brasileira ou local.
Além das zonas francas e isenção de tributos para tudo que a Amazônia produz, o projeto cria agroindústrias, áreas de extração mineral, de madeira e exploração da biodiversidade, em favor de grupos que, noutros países, destruíram florestas e fixaram pólos de espoliação social.
O texto final a ser votado contém muitas emendas, nem todas esclarecidas, para orientar a votação, como de praxe. Falou-se do custo da convocação do Congresso, mas não dos danos que ela pode causar. A grande mídia, no caso, viu as pulgas não o elefante, cujo sangue elas sugam: o sangue do país. O Congresso deve rever tal matéria e dar à Amazônia a chance de salvarse. À falta disso, foi-se a Vale, em 1997. Há meio século, salvou-se, por isso, a Petrobras, bem de um grande povo, não da pequenez de governos ou partidos políticos.

CB, 23/01/2006, Opinião, p. 12

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