O Globo, Amanhã, p. 10-11
22 de Out de 2013
A Amazônia dos Cousteau
Bolívar Torres
No intervalo de 25 anos entre as duas grandes expedições que realizou na Amazônia - uma delas com o seu pai, o lendário oceanógrafo francês Jacques Cousteau - Jean-Michel Cousteau constatou uma transformação fundamental na floresta. Durante a primeira incursão, nos anos 1980, os espaços livres de presença humana ainda impressionavam. Durante a segunda, em 2006-2007, eles quase não existiam, já que milhões de brasileiros e sul-americanos se mudaram para a região. O crescimento não parou, e o ambientalista ficou ainda mais chocado com o que viu em sua mais recente passagem por lá, em 2013.
- Naquela época, era possível passar uma semana na Amazônia sem ver uma única pessoa - lembra Jean-Michel, fundador da Ocean Futures Society, ONG para a proteção ambiental - Hoje, é o contrário: todo dia você vê alguém. E isso obviamente tem um impacto para a floresta.
O diagnóstico do filho mais velho de Cousteau é claro: houve uma ocupação desordenada. Ela está exposta no seu recém-lançado livro "Retorno à Amazônia", um registro - ricamente ilustrado pelas fotos de Carrie Vonderhaar - do que mudou na selva entre as duas expedições. Jean-Michel não critica a ocupação em si, mas a falta de planejamento com que ela aconteceu, trazendo consequências para a natureza, as culturas indígenas e a qualidade de vida dos próprios migrantes.
-Muitas famílias se mudaram para lá sem saber como é a vida na Amazônia. E não receberam nenhuma educação neste sentido - explica o explorador. - Pegam malária e não sabem como tratá-la. Chegam na estação das secas, quando as águas estão baixas e sequer sabem que o rio irá subir.
Neste sentido, o livro é fiel a uma das principais causas da Ocean Futures Society: o incentivo à educação, luta histórica de Cousteau pai. O conteúdo foi impresso em papel à prova de água e pode ser reciclado infinitas vezes sem perder a textura e a cor original. Jean-Michel quer distribuí-lo com apostilas educativas para as populações amazônicas, ensinando o que é a floresta, como sobreviver às suas dificuldades e se beneficiar dela de forma sustentável. Com seu conhecimento milenar da vida na selva, os índios estão ajudando na elaboração. Jean-Michel, aliás, lhes dedica um capítulo inteiro no livro, "Os povos esquecidos", no qual mostra como o desenvolvimentismo os atingiu.
Antes de sua morte, em 1997, Jacques Cousteau previu o futuro do planeta da seguinte forma: a Humanidade estava prestes a enfrentar momentos difíceis, mas conseguiria superá-los. Mais de uma década depois, Jean-Michel concorda com o pai:
- Acredito que estamos justamente neste período de transição. Mas, se não fosse otimista, não estaria aqui. Através da educação podemos nos salvar. Porque os jovens são como esponjas: eles absorvem o conhecimento.
Muitos especialistas elogiam as recentes políticas ambientais do Brasil, que, segundo eles, conseguiu reduzir o desmatamento da Amazônia. Jean-Michel, contudo, demonstra menos entusiasmo.
- Concordo que o desmatamento foi reduzido. Mas a floresta tropical ainda é o capital. Onde houve desmatamento, o governo não repôs toda a diversidade necessária. Seja na terra ou no oceano, a estabilidade só existe com diversidade. E, por enquanto, os homens de negócios não se interessaram em ganhar dinheiro com a diversidade.
O Globo, 22/10/2013, Amanhã, p. 10-11
http://oglobo.globo.com/ciencia/revista-amanha/em-novo-livro-jean-miche…
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