O Globo, Ciência, p. 34
22 de Out de 2013
Amazônia ainda mais vulnerável à seca
Bolívar Torres
O risco de perecimento da porção sul da Amazônia seria muito maior do que o estimado pelo último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), divulgado no final de setembro. Segundo uma nova pesquisa da Universidade do Texas, as secas sazonais serão mais fortes do que se havia projetado, fazendo com que a perda da floresta libere grandes volumes de dióxido de carbono. A pesquisa foi divulgada esta semana na revista "Proceedings of National Academy of Sciences"!
Liderado por Rong Fu, professora de Ciências Atmosféricas da Universidade do Texas, o estudo descobriu, a partir de medições de solo dos últimos 30 anos, que desde 1979 a estação seca no sul da Amazônia já dura cerca de uma semana a mais por década. Ao mesmo tempo, a estação anual de incêndios tornou-se mais longa. Os pesquisadores afirmam que estas alterações não podem estar ligadas apenas à variabilidade do Oceano Pacífico tropical e do Oceano Atlântico e apontam as mudanças climáticas como responsáveis pelo prolongamento das secas.
- A duração das secas no sul da Amazônia é a condição climática mais importante a ser controlada na floresta - diz Rong. - Se a seca for longa demais, a floresta poderá não sobreviver.
Para Rong, o efeito estufa está inibindo a precipitação das chuvas. Ao longo das últimas décadas, está se tomando mais difícil que o ar quente e seco da superfície suba livremente e se misture com o ar frio e úmido. Ele também bloqueia as incursões de frentes frias de fora dos trópicos que poderiam provocar chuva.
É aí que os dados do estudo contradizem as previsões do IPCC, cujo relatório não teria representado tais processos de forma correta. Com isso, projetaram uma estação seca com apenas 10 dias a mais até o final do século.
- Os modelos do IPCC funcionam para as previsões do tempo e da chegada das frentes frias, mas já na escala de mudança de clima pode haver, de fato, alguns problemas. Ainda existe um grande desenvolvimento a ser feito, mas a cada relatório os modelos vão melhorando e com certeza os de agora são mais complexos que os de 2007 - avalia José Marengo, climatologista do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
Nos últimos anos, alguns cientistas especularam que a combinação de estações mais secas e temperaturas mais elevadas devido ao desmatamento poderia converter parte da floresta tropical do sul da Amazônia em uma imensa savana. Principalmente porque uma seca extremamente severa, em 2005, impediu que a floresta removesse o dióxido de carbono da atmosfera, como normalmente acontece. O estudo da Universidade do Texas estima que, se a estiagem continuar a aumentar com apenas metade da força das últimas décadas, a seca amazônica de 2005 pode se tornar, até o final deste século, uma norma e não uma exceção.
- Pelo seu impacto no ciclo de carbono global, precisamos entender melhor as mudanças na estação das secas na Amazônia - diz Rong.
Estudos anteriores mostraram que o desmatamento da Amazônia pode ter alterado os padrões de chuva. Mas os pesquisadores não viram uma influência do desmatamento no padrão das estações secas. O prolongamento foi mais forte no sudoeste da Amazônia, enquanto o desmatamento mais intenso ocorreu no sudeste da Amazônia. Segundo o estudo, o noroeste é muito menos vulnerável às mudanças climáticas, já que tem chuvas mais elevadas e uma estação seca mais curta do que o sul da floresta.
O Globo, 22/10/2013, Ciência, p. 34
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