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A alternativa ao projeto de transposição

CB, Opinião, p. 13
Autor: ALVES FILHO, João
17 de Set de 2007

A alternativa ao projeto de transposição

João Alves Filho
Engenheiro

O projeto de transposição do São Francisco, incutido na mente do presidente Lula sob a falsa idéia de que salvará os nordestinos do flagelo das secas, não poderia ser tão equivocado. Ao invés de benefícios, pode causar o maior desastre socioeconômico e ecológico da história brasileira, provocando uma catástrofe para milhões de ribeirinhos, com a morte do rio que é a maior riqueza do Nordeste. E ironia trágica: se concluído, provocará sentimento de revolta à maioria dos sertanejos do Nordeste Setentrional, pois a água não chegará a suas casas.

Escrevo na condição de técnico que, há mais de 40 anos, se dedica ao estudo dos recursos hídricos e conhece in loco a realidade dos rios importantes das regiões áridas e semi-áridas do mundo. Nessa condição, vi a morte de vários rios provocada pela incúria de obras mal concebidas. Nas últimas décadas, escrevi livros sobre o tema, com propostas para a convivência com as secas, soluções racionais, práticas e baratas, realizadas com sucesso milenar em regiões mais adversas.

Não me é dado o direito de duvidar da boa-fé do presidente. Todavia, venderam-lhe mitos a anos-luz da realidade. O primeiro é o de que no Nordeste Setentrional não há água suficiente. Uma grande falácia. Há excesso de água, graças à brilhante ação dos nossos engenheiros e, sobretudo, do DNOCs, que construíram, no século passado, a maior reserva de água acumulada em açudes do mundo. Isso além do fato de que está localizada, no subsolo do Piauí, Ceará, Rio Grande Norte e Paraíba, a segunda maior reserva de água do subsolo do Brasil.

Quanto aos açudes, são 70 mil que acumulam 37 bilhões de metros cúbicos de água, equivalente a 15 baías da Guanabara. Os estados mais privilegiados são o Ceará, o Rio Grande do Norte e a Paraíba. Só que esquecemos de construir a obra mais barata e eficiente para levar água à porta das casas: uma rede de adutoras interligando-os. Resultado: o maior consumidor da água não é o sertanejo, mas o sol, mediante a evaporação.

Já a gigantesca reserva de água de subsolo da região, conforme dados da Abas, é capaz de fornecer 20 bilhões metros cúbicos de água por ano, isto é, várias vezes superior ao volume que seria levado pela transposição. A propósito, enquanto 70% da água consumida pelos europeus e 60% pelos americanos vêem de águas subterrâneas, o Nordeste só usa 4% do seu potencial, como assinalado pelo professor Manoel Bonfim, na obra-prima A potencialidade do semi-árido brasileiro.

Outro mito é o de que o São Francisco não corre perigo. Na verdade, o velho Chico está na UTI e corre risco de morrer mesmo sem a transposição, até mesmo pela anunciada mudança climática provocada pelo efeito estufa, que, segundo anunciaram os melhores cientistas do mundo, provocará a tragédia de o sertão se tornar árido. O dano maior à região será a brutal diminuição das chuvas e a morte de rios. Pela sua fragilidade, o mais importante candidato à morte é o São Francisco. Estudo do Inpe, contratado pelo Ministério do Meio Ambiente, concluiu que é perigoso fazer transposição porque, com a mudança climática, seus canais correm o grave risco de secarem.

Mas há um projeto elaborado quando fui ministro do Interior, no governo Sarney, que pode levar água a praticamente 100% dos habitantes da região em condições mais vantajosas. A transposição custará, no mínimo, R$ 6,5 bilhões (especialistas calculam que o valor final será maior); atenderá com água na porta entre 500 mil a um milhão de pessoas em apenas quatro estados; ameaça de morte o São Francisco; a maioria da água irá para o agronegócio e seu tempo de construção é imprevisível. Já o projeto alternativo custará em torno de R$ 3,5 bilhões (equivalente ao pagamento de menos de 10 dias dos juros da dívida), levará água à porta a cerca de 9 milhões de moradores de 10 estados e não afetará o rio. Mais: pode ser construído em três anos por ser composto por obras simples, feitas por empresários locais.

Para o presidente Lula, nascido como eu de famílias humildes do semi-árido, que viveu a realidade cruel das secas, é fundamental ter a oportunidade histórica de, por meio de projetos simples, testados em várias partes do mundo, promover a plena convivência (e não o "combate") com as secas, dando condições perenes de trabalho e dignidade aos cidadãos. A ajuda começa garantindo água, por meio desse projeto, a quase 100% das casas dos sertanejos. Bastaria aplicar nele pouco mais de 1% das reservas em dólares mantidas pelo país.

CB, 17/09/2007, Opinião, p. 13

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