O Globo, Economia, p. 19
14 de Ago de 2012
Alimentos sob pressão
Estiagem nos EUA encarece em até 33% grãos no atacado. Alta chegará ao varejo
FABIANA RIBEIRO
fabianar@oglobo.com.br
BRUNO ROSA
bruno.rosa@oglobo.com.br
A seca que castiga as regiões produtoras de grãos nos EUA já se traduz em preços mais elevados no Brasil. No atacado, os principais grãos - soja, milho e trigo - ficaram até 33% mais caros desde maio (às vésperas do início da estiagem) no mercado brasileiro. O Brasil é grande produtor de grãos, mas como essas commodities são cotadas no mercado internacional, a quebra de safra nos EUA afeta diretamente os preços praticados aqui.
É uma questão de tempo - ou de dias - para que o consumidor também pague parte dessa conta. Tanto que, preveem especialistas, as cotações mais elevadas devem aparecer já na próxima divulgação da inflação oficial, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), referente a agosto. Carnes de frango e de porco (que usam farelo de soja e de milho como ração), além de óleo de soja, pães e macarrão devem ficar mais caros também no varejo.
Nas contas do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) da USP, os efeitos da estiagem aparecem quase de imediato na soja. De maio a agosto, os preços médios do grão no atacado subiram 33%.
- No caso do milho, a expansão no atacado atinge 29%. E a alta do trigo está em 12%. Mas, com os estoques baixos, esse avanço será maior. Os preços elevados devem permanecer ainda por 12 a 15 meses, dependendo do grão e das próximas safras. Se não fosse a crise atual, que segura a demanda mundial, os preços iam disparar - previu Lucílio Alves, analista do Cepea. - Não há como o consumidor não pagar mais por frango ou suínos. Além da seca, a greve dos fiscais agropecuários foi o detalhe do terremoto.
A maior seca em 50 anos
Quebra de safra nos EUA, maior produtor mundial de milho e soja, pode causar uma crise global de alimentos
Uma crise de preços de alimentos, como a que o mundo conheceu em 2007 e 2008, pode estar a caminho. Os Estados Unidos, hoje o maior produtor mundial de soja e milho, enfrentam a pior seca em 50 anos. Estima-se que um sexto da safra de milho do país tenha sido destruída no mês de julho mais quente da História. Já a colheita de soja, matéria-prima para ração animal e óleo vegetal, entre outros produtos, seria a menor em cinco anos. Diante do cenário crítico, o G-20, que reúne as vinte maiores economias do mundo, anunciou ontem que pode convocar uma reunião emergencial para tratar do assunto no fim de agosto.
Também o governo americano teve de enfrentar a crise. Em campanha presidencial, o presidente Barack Obama disse ontem que vai lançar mão de um plano de emergência, que inclui, além de compras urgentes de US$ 170 milhões em carne de boi e peixe, o fornecimento de carnes de porco e cordeiro, entre outros produtos, a programas de assistência social. O governo enfrenta, ainda, a polêmica sobre produção de alimentos versus combustível. Na semana passada, a ONU pediu a suspensão imediata da produção de etanol nos Estados Unidos.
Os preços de soja milho e trigo já batem recordes em 2012: teriam aumentado entre 50% e 30% nos EUA desde junho, noticiou o jornal britânico "Financial Times" na semana passada. Segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO, na sigla em inglês), o trigo já é comercializado a preços 19% mais caros no mercado mundial. Na Bolsa de Chicago, o milho futuro chegou a ser comercializado a inéditos US$ 8,43 na última sexta-feira.
Essa alta dos preços provocará impacto ainda maior nos países pobres. Nas nações menos favorecidas, a comida compromete uma parte maior do orçamento familiar. Segundo o site do jornal britânico "The Guardian", o Banco Mundial já está em alerta para um aumento da fome e da desnutrição no mundo. O fenômeno natural vem num momento em que a demanda por comida cresce, lembrou o jornal. O crescimento populacional e a melhoria das condições de vida nos países emergentes já eram motivo de preocupação antes da seca.
Pesquisa do Instituto de Desenvolvimento Ultramarino, do Reino Unido, mostrou que o consumo de carne na China quadruplicou desde 1978. Ainda assim, é menor em 30 quilos do que o patamar europeu de consumo, de 80 quilos per capita por ano. São necessários, em média, sete quilos de milho para produzir um quilo de carne.
As magras colheitas vão também atingir em cheio a indústria de alimentos. Gigantes como as empresas Nestlé e Kraft já avisaram que vão repassar o prejuízo aos consumidores,.
Com a seca, a produção de soja do Brasil pode superar, pela primeira vez, a dos Estados Unidos, a projeção para a safra de soja brasileira no período 2012-2013 foi elevada para 81 milhões de toneladas pelo Departamento de Agricultura dos EUA. A safra americana, para o mesmo período, deve ficar em 73,26 milhões de toneladas
O Globo, 14/08/2012, Economia, p. 19
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