O Globo, Amanhã, p. 14-15
Autor: BARLOW, Maude
19 de Mar de 2013
Alerta vermelho para garantir o futuro azul
Ativista reconhecida internacionalmente em favor da água critica a apropriação por empresas globais e usa a expressão 'apartheid' para definir conflitos em torno do recurso
Entrevista: Maude Barlow
Chefe do Conselho dos Canadenses e fundadora da ONG Blue Planet Project
Felipe Sil
felipe.sil@oglobo.com.br
Ela é chefe do Council of Canadians (ou Conselho dos Canadenses), a maior organização de militância pública do país da América do Norte, e fundadora do Blue Planet Project, ONG que trabalha internacionalmente a favor do direito humano à água. Maude Barlow é uma ativista fervorosa e, aparentemente, incansável. No momento, escreve o livro "Blue future, protecting water for people and the planet forever" ("Futuro azul, sempre protegendo a água para as pessoas e para o planeta", em tradução livre). Já publicou outros 16. Ainda encontra tempo para ter longas conversas com jornalista, como a que segue abaixo.
Em 2008, a senhora disse que boa parte dos Estados Unidos iria passar por sérios problemas de água nos próximos cinco ou dez anos. Como está a situação agora?
Em muitas partes dos Estados Unidos, é terrível. Hoje, o país é, realmente, a cesta de pão do mundo. Possui um terço dos grãos do mundo comercializados globalmente, mas tem mantido os cultivos em áreas sem água. O aquífero de Ogallala está em declínio severo. Muitos rios estão profundamente estressados ou secando, inclusive o Colorado, o Mississippi, o Platte e o Ocoee. A perda de água sob o Vale Central na Califórnia é de mais de 40% da capacidade de armazenamento de todos os reservatórios construídos no estado. Buracos na Flórida e no Texas atestam o enorme bombeamento de águas subterrâneas que está ameaçando as reservas de diversos estados. Os Grandes Lagos passam hoje por sérios problemas como resultado do aquecimento global pela extração, poluição, chegada de espécies invasoras e fracking (fraturamento hidráulico das rochas subterrâneas para obtenção de gás natural).
Ainda acha que os políticos de todo o mundo estão "em algum tipo de negação inexplicável"?
Sim. Acho que parte disso é porque aprendemos na escola que há uma interminável quantidade de água em todo o ciclo hidrológico e não podemos destruí-lo. De certa maneira, é verdade. Mas temos tirado a água de onde é necessária na natureza de onde podemos acessá-la. A crise de água é bem real. Também acho que muitos políticos assumem que uma tecnologia mágica irá solucionar a crise. Estão totalmente errados.
O que a senhora sabe sobre o Brasil e a forma como lidamos com a água?
Todas estas questões estão presentes nos países do Mercosul. Mesmo que sejam abençoados com duas grandes fontes de água: o sistema do Rio da Prata e o Aquífero Guarani. Em parte por estarem inseridas em um mundo cada vez mais sedento, eu argumentaria que a região está ganhando rapidamente um interesse geopolítico forte para o restante do planeta. É o momento de vocês assumirem a condição de tutela dessas águas. Os brasileiros, assim como os canadenses, cresceram com o que chamo de "mito da abundância". Nós achamos que temos tanta água que ela nunca irá acabar. Isso é simplesmente falso. É o que pensavam do Mar de Aral na antiga União Soviética, então o quarto maior lago do mundo, e o Lago Chade, na África, que já foi o sexto maior. Ambos estão quase no fim devido ao excesso de extração. A demanda por água está crescendo. A capacidade diminuindo. Não será surpresa os conflitos continuarem a crescer.
Qual o maior desses conflitos?
Talvez o mais difícil seja entre os que têm acesso a toda a água que desejam e aqueles que não, de maneira alguma. Uma criança que nasce no Hemisfério Norte vai usar 40 a 70 vezes mais o elemento em sua vida do que a nascida no Hemisfério Sul. Hoje, abaixo da Linha do Equador, a cada três segundos e meio uma criança irá morrer de alguma doença transmitida pela água. A falta de acesso ao elemento puro é, de longe, o maior assassino dos pequenos e isso é algo completamente evitável.
Como a economia do Brasil afeta a água?
O crescimento da produção de biocombustíveis de cana-de-açúcar no Brasil tem crescido intensamente e, hoje, o Brasil é o maior exportador. Só que essa indústria pode explodir. Hoje, o país produz 28 bilhões de litros de etanol (20% para exportação), mas irá produzir 64 bilhões em 2018. É preciso uma grande quantidade de água para produzir biocombustíveis. Para cada litro de etanol de cana-de-açúcar produzido no Brasil, pelo menos 1 mil litros são usados, se levarmos em conta o que é usado para crescer a planta, assim como processo em si. Atualmente, sete trilhões de litros de água são extraídos todos os anos para a produção de etanol no país, um dreno enorme no abastecimento de água na região e que aposto não será consignado quando o governo fizer seus planos econômicos. Toda esta água estará perdida.
Quem são os maiores usuários de água? Como esse problema pode ser resolvido?
O maior usuário de água é a agricultura industrial por um mercado global de alimentos. A água é extraída de aquíferos e rios para crescer culturas em desertos e então é enviada na forma de "exportações virtuais" para todo o mundo. Brasil, Canadá, os Estados Unidos e a Austrália são todos exportadores maciços de água virtual. A produção de comida também consome o elemento. Quer dizer, não a devolve à bacia hidrográfica. A resposta para esta forma de abuso da água é local, através da produção de comida orgânica e sustentável. Algo bem diferente do que os governos promovem.
O que é o termo "apartheid de água"? Pode explicar isso?
O apartheid da água se refere ao fato de que em um mundo de crescente desigualdade e controle corporativo do elemento, aqueles que possuem dinheiro podem o comprar quando quiserem, como para piscinas de natação ou campos de golfe. Aqueles sem os meios para comprar água ficam sem e veem suas crianças crescerem doentes.
Por que diz não gostar de água engarrafada?
Garrafas de água demandam muita energia, criam gases de emissão de efeito estufa e deixam para trás centenas de bilhões de recipientes plásticos. É uma forma moderna de insanidade coletiva e um impedimento para a criação de um futuro justo em relação à água.
Como a senhora vê os acordos internacionais de comércio de água do mundo?
São uma séria ameaça. Já que as utilidades da água foram privatizadas, os acordos tiram a opção de um retorno ao sistema público caso uma cidade queria fazer isso. O comércio global e bilateral, além dos negócios para investimentos, dão a empresas internacionais o direito de entrar na Justiça por compensação financeira caso um governo queria impor novas regras de saúde, segurança ou ambientais para limitar o acesso a fontes de água regionais.
Que iniciativas positivas estão a caminho?
Muitas pessoas, grupos, universidades, instituições e líderes políticos estão começando a levar a sério a crise hídrica. A grande tarefa agora é declarar, por meio de leis, a água como herança comum, além de garantir a proteção de bacias hidrográficas pelo mundo afora. Há muitos avanços neste sentido enquanto trabalhamos para convencer as pessoas a deixarem de ver a água como um recurso apenas para o nosso prazer e lucro, mas também como elemento essencial.
Em que momento, em sua vida, a senhora decidiu que seu objetivo era estudar a questão da água?
Eu me envolvi e fiquei obcecada com a questão da água quando percebi, pela primeira vez, que ela vinha sendo incluída como bem negociável em acordos de comércio. Foi aí que comecei, então, a pensar sobre quem decide, quando e como o negócio é feito. Eescrevi o primeiro estudo sobre o assunto nos anos 1990 e isso me levou a uma jornada incrível para construir um movimento que pudesse lutar pela justiça da água em todo o planeta.
O Globo, 19/03/2013, Amanhã, p. 14-15
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